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A dentadura

Expedito acabou o curso de Medicina, tomou dinheiro emprestado, fez uma adaptação na casa do pai e montou lá o consultório. Logo descobriu como era difícil furar a concorrência dos velhos médicos da cidade.


Sentia uma vontade louca de arregaçar as mangas, meter os peitos, fazer nome. É, Maria Célia não podia esperar a vida inteira. Nem ele, queria casar, e não haveria de ser ali que ia progredir, cercado da má vontade dos antigos médicos do lugar, com todo tipo de dificuldade para internar seus doentes e utilizar os poucos recursos da Santa Casa.


Escreveu para colegas de turma, procurou ex-professores, especulou o quanto pode e, afinal, tomou sua decisão: ia tentar a sorte bem longe de casa, num lugar desconhecido, a mais de quinhentos quilômetros de distância: Santana dos Coqueiros.


Lá também havia uma curriola dominando quase tudo. Mas o município era enorme, as cidadezinhas em volta vinham buscar recurso em Santana, o arraial passava meses e meses sem ver a cara de um doutor.


Expedito era disposto, não tinha hora para trabalhar. Começou a atender chamados na roça, de uma fazenda seguia para outra, mandavam portador vir buscar, costumava passar quase um mês sem aparecer na cidade. Voltava dessas andanças com os bolsos cheios de dinheiro e a alma repleta da gratidão dos fazendeiros, sitiantes e agregados.


Uma tarde, Expedito atendia em seu consultório na Santa Casa, quando parou na porta um caminhão. De dentro, saltou um homem de meia idade, aflito, gesticulando, fazendo sinais. Tinha engolido a pequena dentadura de quatro dentes, a chapa ou perereca, conforme usavam chamar.


O jovem médico recebeu o inesperado cliente com atenção e tratou de acalmá-lo. Na verdade tentava era acalmar-se e, espichando conversa com o homem e seu acompanhante, pensava num jeito de sair daquela enrascada.


Mandou o cliente sentar e explicou que precisava aplicar nele uma anestesia perto da garganta, assim podia trabalhar à vontade, sem sacrificá-lo. Ficasse sossegado, ia ver como dava certo.


Enquanto isso, esterilizava uma pinça uterina, era o que tinha à mão.


Deu um tapinha no ombro do cliente e perguntou:
 - Firme, seu Raimundo?


Ele fez que sim com a cabeça. Expedito falou:
- Então vamos agir, não é? Fica tranquilo, tudo vai dar certo.


Meteu a pinça goela abaixo, o pobre homem no maior pavor, o médico acalmando-o e se acalmando, foi a pinça toda. Mexeu, mexeu, não conseguiu alcançar a dentadura. Era muito curta a tal pinça.
- É, seu Raimundo, assim acho que não vai dar não.


Depois, confiante
- Mas fica firme aí que a gente resolve isso agora mesmo.


O segundo recurso foi um arame grosso, dobrado na ponta e esterilizado. O arame foi, esbarrou na dentadura. Parecia que ela vinha, mas ... nada. Na hora “h”, escapulia.


Médico e cliente suavam em bicas. Expedito tinha pena daquele infeliz. E o pior é que não estava conseguindo fazer nada para aliviar o sofrimento do pobre coitado. Resolveu dar uma pausa:
- Vamos descansar um pouco?


O cliente fez um gesto, como se dissesse:
 - O senhor que sabe.


Expedito decidiu:
 - Enquanto o senhor repousa um pouco, vou ali na farmácia e volto já.


Antes de sair, garantiu:
- Precisa te medo não, resolvemos isso agorinha mesmo.


O cliente fez um gesto resignado. Não respondeu nada.


O velho Benedito, da farmácia, era prestimoso. Ouviu o médico com atenção. Sempre ouvia. Gostava do jeito determinado do rapaz. Foi lá dento e voltou com um tira-níquel.
- Quem sabe isso aqui?


Expedito olhou aquela haste comprida e forte, a ponta virada e respondeu:
 - É, acho que desta vez resolve.


Voltou direto ao consultório. Lá esterilizou o tira-níquel, esperou esfriar e o introduziu pela garganta abaixo do cliente. Logo sentiu que a ponta esbarrava na dentadura. Tateando, fisgou-a. Experimentou para ver se estava presa e foi trazendo. Todo cuidado era pouco. O olho no olho do cliente, o tato aguçado, era como se todos os sentidos estivessem na ponta do tira-níquel. Expedito suava de empapar a roupa. Quando a dentadura chegou na entrada do esôfago, seu Raimundo deu um vômito, mandou-a longe.


Levantou os braços, num gesto de oração e gritou a plenos pulmões:
- Graças a Deus!


Ao lado do consultório, o capelão da Santa Casa interrompeu a confissão da Irmã Gertrudes, e disse:
- Olha lá: o Expedito arrancou a dentadura do homem!

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