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Um causo de ortoépia

Um dia eu fui num tar dotôri, intinidido pra cachorro das tar de gramática. Êh, trem rúin, sô! quando alembro dá inté um nó nas tripa. Num sei nem quê nem pra quê fui marcá a diaba daquela consurta. Mas o dotôri inté que era prosa. Só sei que eu intrei ansim, mei que vai num vai, e ele puxô cunversa. E foi logo parlamentano:
- Sinta-xe à vontade.
Inté que a princípi ele deu uma de inducado, eu falei:
- O trem tá fei dotô.


Isso, pru mode assuntá o home. Mas ele me oiô de baxo pra riba e de riba pra baxo, quereno achá defêitio. E eu queto. Nessa hora, eu já tavo incuído na cadera. Quando ele parô os zóio neu, que virô mei de fasto, tirô um troço do borso, eu isfriei todo, mas vi que era um trem que tava im riba da mesa e falô:
- Um caso de ortoépia.
- É grave dotô?
- Aférese sistemática e apócope repetitiva, com grandes possibilidades de uso de síncope.
-  Num brinca não! E isso tem cura?
-  É possível. Mostre-me sua língua.
-  Ieu vô dexá a matrarca sorta, qué pru sinhô intendê mió. Ieu tem fé dimais, dotô!


A
semântica inclina para a conotação quanto à estrutura das formas, traduzindo um efeito cacofônico e uso de sentido figurado.
-  Nossa! Tô com uma pobremada danada. Dexa de sê isgabilado; por caridade, dotô! É múntio trem prum dono só, né não?
-  Deixe-me ver. Constatei aqui uma pequena elisão. Síncope. É! talvez seja crônico. A seguir uma monotongação. Cacofonia. Êh! epêntese! Mais aféreses e apócopes constantes. Outra elisão?...
-  Epa! – nessa hora arrupiei inté as raiz dos cabelo. Tentei a mão sem lugá, sacudi os zombro mirano a póita, dê pra onde dé, eu pensei: esse home tá é dôdio. Aí eu priguntei: - Vai percisá interná, dotô?
-  Vejo também uma metátese acompanhada de outra apócope.
- Male-male cheguei na mocidade, alevantei os braço agardiceno a Deus e lá vem... Bão! Daqui num tuge e nem muge mais nada.
- Paragoge duplo e prótese. Não constatei alguma haplologia ou hiperbibasmo. E...
 Rá, pra quê! só sinti um troço remexeno na ribimboca, quando ele chegô pirtim ansim, a meia perna, meus nervo já tava à frô d’água, eu sortei foi um berro:
- Chupa, que é cana doce! – E pus o home pra corrê.


Ispantei o disgramado istrada afora e ele ganhô mundo. Fui andano à bera-caminho tucaiano pra mode apagá inté os rasto, e co as memória supitano. Só discansei as cadera na boca da nôti e fiqui ispiano o cé. Êh, minino! inda dibui umas poca e boa nas zoreia do infiliz inquanto ele curria.


Se eu pego os predicativo do sujeito, eu rancava os artigo dele fora, os verbo que fazia as ligação e ele ia cabá ficano seum um predicado pra contá  a história. Nem o sujeito se viu mais. Aquilo num tinha adjetivo que ixpricasse. Se oração valesse, num período bem curto, quando ele botasse os zóio im riba deu, eu já tinha torado inté as úrtima letra que ficava adjunto dele. Nem voz ia tê mais naquele verbo nojento. Afora ele cabô ficano numa pré-pusição difíci. E eu num via a hora de jugá um objeto direto no sujeito, sô! E dizia que o paciente era eu. Vê se pode? Ieu, Leonirdo Araújo, um sujeito derêito lá das banda do Serro, e quás que ele tinha me aposto no hospíci. Oh, mai Gódi! Num pudia sê mais pró-vocativo.


Quiria inté achá um apilido pro nome dele. Aquilo é xingamento! Vê bem: Gramáticus Rígidus Literatus. Isso é nome de remédio, se num fô veneno com bula e tudo junto, sô!
Intoce foi isso: o tar dotôri achô que pudia grobalizá inté as linguage. É rúin, hem! Conosco niguém podosco, é tíri queda. 


Texto do livro: “Entrei dentro do pleonasmo” – Editado em 2003

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