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A festa na roça

Era duas e poca e o sole tava tinino. Dispois de fincá o pé na istrada, o mió era sigui viagem. Nóis já lá ia levano uma trisquinha de farofa e uma muringa d’água pru mode num istafá. O suó ia desceno era de bica.


Quem tá na chuva é pra moiá! E nóis é de opinião. Nóis é do tempo que fi de bigode tinha valia.


Dispois de inverná nas aventura, o jêitio era i té o fim. Ieu já ia matutano, quando nóis avistô uma roça mei retirada e lá tinha uns baruio.
- É lá. Num falei, Argimiro!
- Óia, Jaquim. Mermo se num fô, é. Vamo berá esse corgo que nóis tá lá dum sarto.
- Intão, vamo.


Chegô lá, ês num cunhicia nóis e nem nóis nem nunca tinha visto ês. Mas na roça o povo é múntio caloroso. A princípi nóis ficô mei sem graça, mas ês foi múntio inducado. Ês já sentô logo uma caneca véia de cachaça ne nóis. E aquele cunversero e nóis pegano mais intimidade. Do povo dês lá tinha duas minina muié, umas treis mocinha, duas dona e duas véia. Ué! Cadê os home? Tamo fêitio! É caprichá na prosa e o trem tá arrumado.


E nóis numa fome disgramada! Já tava marchano umas quato hora no sole. Bão! Oiei prus lado caçano um chero, só sintia o istrume dos porco no chiquero um poco pra baxo. Quando oiei prum canto, vi uma mesa cumprida cuns pano cubrino ela toda. Fui berano como quem num qué nada e com poco já tava co a mão n’arguma coisa. Eu num sabia o que era, mas quando nóis chegô, tinha avistado um foino grande lá no terrero e falei: deve de tê uma fartura de quitanda cá dibaxo. A queu pegá, é essa merma. Queu pus a mão parpano ansim, já tinha otra mão lá. Ela tava queta, eu falei: tem bastante, eu vô pegá otra coisa. Queu subi um tantim, trisquei nuns dente graúdo, cuncluí: se num fô javali, é capado e dos grande. Num vô rancá uma lasca, sinão pode istragá o bicho. Essas muié é múntio inducada, eu vô pegá otra coisa. Disci a mão com jêitio pra sartá a mão do otro que já tava ali, isbarrei num troço isquisito. Acarinhei aquilo todo imbruiado numa saculinha, aquele trem mei muxibento, mei macio eu pensei: deve sê uma fornada ispiciale quês reséiva pras visita. Ieu sem sabê, quando óio pruma das muié, ela tava sintida num choro queu parei de dó. Isquici a fome, laiguei aquilo ali sem discubri o que era e fui consolá a muié.
- Num fica ansim não, coisinha. Nóis já tava inté agradano da farra.
- Mas né farra não, seu moço. Nóis tá aqui é bebeno o môito.
- Ai, meu São Martin! Né pussive. Ondé que é a bica, pela amô de Deus?


Ieu bem pensano num biscôito de goma e umas rosquinha assada, eu tava sigurano era o môito do môito. Só sei que fiquei uns dois dia sem cumê e sem fome alembrano da sem graceza queu passei. Mas tomém aprindi. Macaco véio num infia a mão im cumbuca!


03 Textos do livro “Tem tempo não, sô!” – 2001

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