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A caipira braba

Foi numa cidadezinha do interior de Minas, dessas que se conta causos de mula-sem-cabeça, onde tem festa de boi-de-balaio e toda vez que chega ônibus de “Beozonte” a meninada toda corre para ver quem “chegô de viage”.


A “sastifação é grande dimais, sô”. Tinha lá “pras porta duma venda”, dessas que vendem fumo de rolo, fubá de munho d’água, banha de porco, um moço aperreado. Tava meio encroado. Teimoso e chateado. Fui chegando devagarinho “pra num levá um coice”. Mas que nada! Esses “cabra” do interior são muito “inducado”. Ele me “oiô” assim meio sem jeito, agachou e ficou esperando eu me agachar ao lado dele pra me contar as suas “proeza”.


Pitô um cigarrim de páia e deu uma cusparada pra ispantá os mau agouro. Tava realmente pricisado. Arregalei os zóio e os zorvido e fiquei a ispiá a fala dele:


"O sinhô nem queira sabê. Já tirei montaria de garrote, alazão, mula, burro brabo de tudo quanto foi jêitio. Mas essa muié tem jêitio não, sô! Parece garnizé. Ah, pra quê! Um dia, tinha umas franguinha poedera que rumaro um ninho notras banda e eu fiquei brabo dimais. Chamei a muié e priguntei ondé quela tinha ponhado os zovo. Num é que ela pensô que eu tava chamano ela de galinha. Pegô uma taca e danô-se a corrê e eu finquei o pé no mato, curri tanto, o quintar todim, que inté achei os zovo que percurava. Memo ansim ela num quis aceitá discurpa.


Fiquei uma quinzena de môio. E ela é daquelas birrenta que num dá o braço a trocê. É moço! Cobra que num anda num ingole sapo! Armei uma arapuca dessas de pegá sabiá com visgo de jaca e lá vô eu desceno o quintar cantarolano. Num é que ela tava discunfiada e me oiava de banda lá da janela. Fingi que num vi, dexei a arapuca no bambuzero, vortei, subi no abacatero e fiquei incuidim lá no arto. Ela vinha que nem aquelas onça na ispreita de cumida. Tive uma idéia briante. Dei um grunhido tá assustadô que inté a vizinhança achô que era bicho de vredade. Ah, pra quê! Ela saiu numa carrera e passô a mão numa garrucha porvera já com os cano chei e disse de lá: - "Ah, dona onça marvada. Agora cê vai vê só".


O susto foi tão grande que ela ficô duidinha. Dispois que iscuitô minha risada me jurô de móite. Passô a mão no facão e disse que ía cortá fora os dicumento do matrimôni. Indeusde esse dia eu ando discunfiado. Mas tomém nunca mais montei ninhum bicho. Inté de galinha eu tô correno, sô!"


Texto do livro: “O que o homem pensa sobre a mulher”  - 1999

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