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O coronel e o pé-de-vento

Verdade seja dita, eu sou apenasmente o Coronel Apolodoro, um homem que detesta contar vantagem, principalmentemente nesse assunto grave de alma penada e evidentemente devido a minha coragem exceder abundantemente as forças do além-túmulo. E isso sem nenhum traço de orgulho nem resquício de vaidade.


Vou contar a vosmecê, modéstia à parte, dessas minhas aventuras extraordinárias, somentemente uma humilíssima historinha acontecida lá nas bandas do Serro, na Diamantina, terra da minha Chiquinha da Silva. Eu me alembro que aquela fofurinha me adorava como ninguém, inclusivemente no assunto de flecha e Cupido, manjar de amor que carrega o coração de júbilo efervescente, até atingir as culminâncias do delírio.


Isso, no antesmente da dita cuja se enrabichar com o tal, o Contratador dos diamantes, João Fernandes de Oliveira. Digo que foi por descuido de obrigação de lealdade amorosa, com o agravante pecado de exclusivo interesse do muito desejar das posses materiais.


Por causa dessa desfeita vergonhosa, fui tomado de raiva mortal daquela uma. Jurei vingança nas bases de Talião: olho por olho, dente por dente. Onde já se viu um Coronel de patente, deixado por abandono desmerecido de capricho mulheril? Arre! Chifre, não! Isso o Coronel não tolera! Essa Chica me paga! A desgracenta pensa que vai ficar em Diamantina, e pronto? Esfogueado de raiva, passei mão na espingarda carregada pro serviço de caça, pra modo de tocaiar o infame traidor e a Chica ingrata, a Chica que manda espetar o peito do amado com o espinho da traição.


Confesso que, naquele instante, o Coronel rezador, temente a Deus, havia se esquecido da promessa feita na Igreja: de nunca jurar vingança, inclusivemente no assunto de amor. Pensei comigo: - Diacho! Não posso fraquejar nessa hora. – então-mente, o debate da consciência foi se prolongando, devido ao grau elevado de sabedoria jazente na humildade da minha alma iluminada.


Vosmecê considere que, naquela noite escura de planejamentos mirabolantes, na encruzilhada dos despachos, eu calculei milimetricamente os tiros de misericórdia que iriam, evidentemente, abater aqueles dois amantes, juntamente com a sem-vergonhice deles.


Homem corajoso que sou, emboramente levasse no bolso o terço pra rezar o arrependimento e as penitências correspondentes ao feito maligno por acontecer, pelo meio da noite ouvi um piado deverasmente horripilante, mistura de choro de acauã com resmungo de curiango, cuja surpresa inesperada me causou uma estranheza.O vento soprou forte e deu-se um redemoinho, que me obrigou a fechar os olhos, apenasmente em sinal de respeito à figura cabulosa que se formou no miolo daquele poeirão levantado, que passou por mim como um corisco. Nessa hora, os cabelos dos braços e das pernas ficaram em posição de sentido, e isso sem a devida continência do Coronel.


Pensei: - Só pode ser visagem. Uma alma penada perambulante. Coisa pouca. E dei ordem pra pelaiada retornar à posição de descanso.Passei a mão pelo bolso pra conferir o terço, somentemente para o caso de fazer uso do cumprimento do prometido determinado pelo despacho impetrado através da jurisprudência do tribunal de apelação da consciência religiosa, mas o curioso é que o terço já não estava mais lá.


Com o meu olhar de lince, reparei que ao longe o rodopio crescente estancou, fazendo um giro de revés na ponta dos calcanhares, e veio bem na direção do Coronel numa velocidade assombrosa.Lembrei-me da ausência do terço, pois sem ele um homem de fé vale pouco, e, sem medo nenhum, aliás, tomado de coragem descomunal, corri velozmente pra casa, somentemente para me certificar de que o terço poderia estar lá, junto à Virgem - Maria, protetora e amiga fiel do Coronel Apolodoro.


Vosmecê não duvide que, sem falsa modéstia, as pernas do Coronel corriam mais ligeiro que o carro do Ayrton Senna naquelas poucas léguas à frente, tamanha era a vontade de chegar lá na Fazenda do Carijó, no Milho Verde, para por a mão no terço de reza, a fim de retornar a tempo de enfrentar o Pé-de-Vento no seu próprio território.  O meu esforço na corrida era tanto, que o ar faltou, e cheguei a ponto de solicitar empréstimo de oxigênio no Banco da Atmosfera.


Emboramente o piado diabólico aumentasse cada vez mais, o que não me faltava era coragem. Confesso que até ensaio de vôo eu fiz naquela corrida desenfreada. Ao avistar a casa, há uns duzentos metros de distância, gritei: - Mãe! Abra a porta! É o Coronel chegando!...


Nessa hora, eu nem me alembrava que a minha distinta mãe já havia se despedido dessa vida pra outra melhor há uns oito anos. Mas a minha fé era tão grande, que a porta se rachou no meio quando eu passei por ela. No trajeto eu ainda derrubei, na raça, mais umas três portas, até chegar à escada que dava pro quarto. Nisso, o Pé-de-Vento sem educação chegou, e o poeirão entrou pela casa.
- Virgem
– Maria do Perpétuo Socorro! Ataco ou não ataco? – pensei.
– E o terço? Como é que um homem de fé vai deixar de cumprir penitência depois de uma vingança? Não! Preciso da estratégia do recuo.


Então, inteligentemente, subi a escadaria de costas e falei bem claro e em bom tom: - Saia já, Pé-de-Vento! Se afaste, excomungado! Respeite o momento de fé de uma alma crente! Mas o bicho sem respeito me jogou escada abaixo, levou minha espingarda e destruiu minha casa toda. Só sei que, no outro dia, quando acordei estirado no chão com a cara toda inchada, me levantei mancando, refleti bastantemente sobre as conseqüências de uma vingança perante a fé e, corajosamente, pus fim no caso.Vosmecê já imaginou se o Coronel não é um sujeito humilde e resolve enfrentar, com a força que possui, de igual pra igual o Pé-de-Vento? O resultado seria catastrófico, uma destruição tal qualmente uma bomba atômica.


É por isso que eu digo: - Cabra macho da estirpe do Coronel ainda está pra nascer.

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