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O coronel e o saci

Entenda vosmecê que, mal chegado de retorno da Europa à fazenda do Carijó, no Milho Verde, e tive contratempos de azedumes com um tal Firmino, um sujeito inventivo e contador de causo. O desavisado falava de umas crendices provocadoras de desaparecimentos que iam desde vasilhame de cozinha e bezerro graúdo, até vaca girolanda pasto afora, que foram deverasmente perdas grandes. O Coronelzão Ludovico já havia partido para o encontro com São Pedro durante a minha ausência, mas antes disso contratara o tal Firmino para administrar o patrimônio. Dissimulado como ninguém, de olhar enviesado e modo irrequieto, coçador de nuca em conversa séria, o dito cujo de língua presa e voz esganiçada mais parecia um galinho garnisé rouco em tempo de chuva. O meu anjo da guarda inclusive se afastou do dele, no instante da primeira aproximação. Tive desconfiança de que ele estava de arranjo feito com o demo.


Pensei: - É deveras! Se não bastasse a amolação dos impostos requeridos mensalmente pelo Contratador dos Diamantes, ainda tinha de agüentar aporrinhação de sujeito asqueroso metido a besta. Chamei o desnaturado às responsabilidades no dia seguinte. Porém, veja vosmecê que o aleivoso pusilânime ainda teve forças pra contar uma história que me deixou até curioso. Citou um endemoniado, o Saci, um diabinho levado, de uma perna só, que andava espreitando a boiada do Coronel, somentemente para realização e consumo de farra das grossas.  Dizia Firmino, que a criaturinha ardilosa, arisca e arruaceira era fazedora de estripulia das grandes e trazia na boca um cachimbão soltador de fumaça, no miolo da qual tinha o poder diabólico do desaparecimento instantâneo.  Ainda de sobra, levava junto da travessia objetos e até mesmo animais de grande porte. Foi visto certa feita, conforme relato entusiasmado do contador de causo, em riba do dorso de uma onça graúda que miava de horror da figurinha extravagante de beiço grande e tez escura como a baraúna.


Está certo que os olhos do Firmino denunciavam pavor da horripilante e enigmática criatura, o que dava judicioso crédito à sua narrativa. Entretanto, sendo o Coronel um homem experimentado, não deveria crer em tudo, de modo ingênuo, sem a devida certificação do fato. Seria necessário um encontro do Coronel com o baixinho de cara risonha e olho esbugalhado. Ah, se eu pego esse tal Saci! O ligeirinho vai pedir pra ter nascido em terra distante, tamanha a sova que ele vai levar do Coronel.


Vosmecê se atente que mandei firmar compromisso em cartório do mato. Chegado o dia fatal, após-mente dezesseis horas de vigília, isso porque o danadinho devia andar receoso do Coronel, de um momento para outro o Firmino e eu avistamos o mato num remeximento sem tamanho, coisa de fazer inveja a vendaval em tempo de quaresma.  Naquele instante, confesso que a vontade era de procurar uma gruta de proteção contra redemoinho gigante. O Firmino tremia tanto, que tive de segurar firmemente as mãos dele, a ponto de lhe arroxear os dedos todos. A minha força na empreitada foi tanta que o reflexo do tremor se estendeu perna abaixo. Emboramente o coração do Coronel estivesse pronto pra qualquer enfrentamento, eu não poderia abandonar o pobre coitado que se encontrava paralisado tal qualmente uma estaca, na desolação daquela noite escura.


Saiba vosmecê, que eu fechei os olhos somentemente para uma prece ligeira, a fim de consultar o anjo da guarda sobre a atitude mais acertada, mas ou ele estava ocupado ou o diabinho devia de ter posse de poder grande, pois não obtive resposta. O único sinal de vida além do remelexo despropositante no matagal era o gemido continuado do Firmino Mão-inchada.  Aquilo, que eu dei voz de silêncio, mas o diacho do garnisé não fechava o bico.  Apertei bastantemente a goela daquela danação inquietante, que ele resfolegou e caiu em desmaio, mas não sem antes me olhar de soslaio com vista de rogador de praga.  Pensei: - Pronto! Agora é o Coronel e o diabinho sem juízo. Somente os dois, sem testemunha que sinalize a minha vitória exuberante. Que pesar! Necessito de escrivão de façanha e de testemunha ocular.


Consultei novamente o anjo da guarda e nenhuma resposta, a não ser as insinuações de deboche do tal pequeno de uma perna pulante, num som misturado de grunhido e risada de troça, trazido pelo vento sinistro. Era ele e eu. Só nós dois no meio daquela escuridão sem tamanho. Então-mente, mais do que depressa passei mão na espingarda de estimação e mirei bem no miolo da confusão dos matos. Mas veja vosmecê, que o vento peralta se abrandou de repente, provocando um silêncio inquietante, que aumentou a minha curiosidade cada vez mais volumosa. Aguardei alguns instantes por movimento traiçoeiro e nada. Aí, a coisa esquentou. No céu, as nuvens se arredaram sem cerimônia, a fim de dar passagem a um arrastar de mesas sem tamanho, seguido de sinal de limpeza brusca com repetição instantânea de corisco e raio tremulante. Sem mentira nenhuma, mas eu vi com esses olhos o diabinho do Saci no meio da desordem, lá de cima, montado num urubu gigante tal qualmente risonho, daquele riso motejante, jogando os benditos raios na direção do Coronel. No seu vôo rasante o Saci medonho se aproximava tanto do Coronel, que não me restava alternativa, senão a de debruçar corajosamente o corpo hercúleo sobre o coitado do Firmino, pra medida de sua proteção. Nisso, o sujeitinho acordou do sono provocado, e, ao ver aquela cena de escabrosidade no pálio suspenso do infinito, depois de se desvencilhar do Coronel, disparou numa correria sem tamanho. Vosmecê há de concordar que, somentemente para não abandonar o pobrezinho perdido no meio dos matos, eu tive de correr de passo ligeiro pra modo da ultrapassagem ser rápida no percurso, a fim de me fazer de guia do coitado na volta pra fazenda. Afinal, o Coronel é um sujeito bondoso e não podia deixar na mão um camarada tão medroso.


Admire vosmecê, que a história se espalhou na redondeza de tal forma, que houve até doação de boiada inteira em favorecimento do já citado Saci. E como eu não fiz questão de ser o mediador do caso devido à minha reconhecida humildade, o pobre Firmino, recuperado do susto, corajosamente se dispôs à entrega imediata dos presentes, que chegaram à somatória de trinta entregas, completando a manada de vinte mil cabeças de gado. Em seguida, o contador de causos desapareceu como fumaça. Pobre homem. Imaginando os gritos agudos da sua voz esganiçada diante da peleja com o Saci, mudei até o meu conceito sobre ele. O homem não era dissimulado, não. Era apenasmente envergonhado. Isso, sim. Tenho convicção de que coragem não lhe faltou na hora extrema. Afinal, ele era dos nossos.


O curioso é que, juntamente com o desaparecimento do Firmino, o endiabrado Saci se retirou para a devida aposentadoria, após-mente receber terras doadas por alguns fazendeiros da região, isso em medida de agradecimento pelo abandono das malvadezas e zombarias no sumiço de gado. Aqui entre nós: o que esse Saci tinha era medo do Coronel. Vosmecê confira. Comigo é assim. Não tem Saci que me enfrente nem tempestade que me intimide. Não vem que não tem, pois o Coronel é macho pra diacho!

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