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O Banheiro

Tia Silvia, disse que antes de meu avô conseguir seu pedacinho de chão, eles viviam perambulando de uma cidade para outra, pois meu avô era meeiro.


O local mais inusitado foi umas terras pro lado da cidade de Alfenas-MG, um lugazinho de nada, tinha a Igreja São José e Dores, uma pracinha com meia dúzia de banco, umas dez a doze casinhas em volta da Igreja e a venda do Sr. Silvio Prado. Depois era pasto, roça e um mundaréu de água, água que num acaba mais, uma beleza.


O povo vivia da lavoura que geralmente era de à meia ou da criação de animais: gado, carneiro, galinha e porco.


Silvio Prado, nascido e criado por aqui, a cada ano adquiria mais um braço de terra, que nada mais é que onze palmas de mão aberta; ou seja, mais um pedacinho de chão. Os mais antigos da região contavam que ele não perdia nem um tostão, não sabia donde tirava tanto dinheiro. O velho Silvio Prado costumava dizer pros meieiros:
- A vida sorriu "prôces" e cuspiu pra outros.


Então meu avô e sua renca de filhos mudaram pra fazenda LEGUS, lugar bonito, descampado, sede moderna, curral novo os moirões tudo bem aparado; já via que o homem era fazendeiro forte. A fazenda ficava longe uns sete dias a pé, ou uns três dias de viagem a cavalo. Cada ano que passava o movimento ia aumentando, toda semana tinha gente nova pra tocar a lida.


Meu avô e seus filhos ficaram alojados numa tapera de sapé cercada de bambuíra fina e grossa, até construir o restante da casinha.


Tia Silvia tinha amanhecido cismada de não ver nenhum banheiro, quase não dormiu. Então resolveu trocar uns dedos de prosa com dona Ady Prado uma senhora de meia idade, irmã do dono da fazenda e professora mais respeitada da escola rural já antiga na lida:
- Bom dia, dona Ady?
- Bom dia, Silvia.
- Me desculpe, mas acordei meio aperreada.
- Eu preciso saber onde faz o serviço?
- Que serviço?
- Serviço ora, dona Ady
- Ah! atrás das bananeiras.
- Ô Silvia, leva tumem um pau e dois sabugos.
- Pelo jeito ocê ainda não precisou fazer o tal serviço.
- Tome cuidado viu.
- Tome cuidado, com quê?


Vendo que a prosa não seguia rumo, foi direto pro lado das bananeiras, pegou um pau e dois sabugos como disse dona Ady, o sol já voava baixo, mal pisou atrás das bananeiras, abaixou as calças e começou fazer o serviço; começou a despejar o barro, quando sentiu um negócio gelado e molhado, sentiu um bocanhado que retirou até um pedacinho da bussanfa. Logo bambeou as pernas, sentiu arrocho no peito, começou a suar frio, uma zonzeira esquisita.


Dona Ady esperou uns minutos, não escutou barulho de nada, não agüentou e deu um grito:
- Silvia mete o pau, mete o pau minha filha, tem dó não.
- Depois pega os sabugos e limpa bem minha filha.
- Num esquece de colocar em cima do telhado pra secar, viu.
- Se ocê precisar amanhã, bate os sabugos na parede pra sair o excesso.


Dona Ady uma senhora, de fala mansa foi ajudando Tia Silvia apruma o corpo e foi explicando, os sabugos é para limpar criatura, depois coloca no sol para secar, e no outro dia bate na parede para tirar o excesso, é por isso que nas casas dos meeiros, tem marca de sabugo para todos os lados.

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