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O caso dos escravos do Machadinho

Mesmo com a dureza da lida nos finais de semana sempre era programada uma pescaria pela turma do Leiteiro.


Assim se chamava o bairro onde moravam no subúrbio do Serro.


Costumavam ir na sexta-feira a noite e só retornavam no domingo à tardinha.


Nas tardes de sexta-feira, Casimiro passava pelo brejo que ficava no fundo do quintal, catava as minhocas e os minhocuçus. Enchia as latinhas e deixava-as reservadas no poço que ficava a beira do caminho e mais tarde, após o trabalho eram recolhidas.


Enquanto isso, a esposa, apressava o passo, chegava em casa, enchia o caldeirão com água da bica e punha para ferver na fornalha do terreiro. Rápido, ia ao galinheiro pegava uma galinha gorda, matava, mergulhava na água fervente, depenava com prazer e em pouco tempo a bicha estava limpinha.


Então, punha a galinha na gamela com água, esfregava bastante com fubá grosso limpando bem a sua pele.Após este ritual, com a faca bem afiada, abria o seu dorso, retirava as suas entranhas, separava o fígado, moela, coração e jogava o restante na fossa da latrina.Após destrinchar a ave, temperava a gosto e afogava em gordura de porco bem quente. Não demorava muito e um cheiro gostoso tomava conta da casa.


A seguir preparava uma saborosa farofa com os miúdos galináceos e fazia o mexidão e preparava um autentico banquete, colocava no tabuleiro e deixava reservado enquanto arrumava a outra parte da refeição, para as crianças que ficavam com a velha tia.


Nestas alturas, as varas de anzol e o samburá já estavam a postos. Às dez horas em ponto o Murilo bateu na porta. Este era também um aventureiro que amava pescar e contar estórias de pescador. Saíram felizes.


A escuridão era muita, apenas os pirilampos, grilos e sapos faziam a festa. A lua ainda não havia despontado,na maior animação, foi ajuntando os apetrechos, despedindo de todos e saindo rumo ao quintal desapareceram na escuridão. À frente ia Casimiro com uma lanterna, objeto de estimação, presente de um velho amigo quando esteve na prisão.


Contornaram a horta e num instante chegaram ao poço, pegaram as vasilhas com as iscas e subiram o morro.Bolinha marchava junto, julgando ser muito importante naquela empreitada. Qualquer barulhinho, por menor que fosse, era o suficiente para latir e correr atrás.


Nestas alturas, a lua já estava toda imponente iluminando a imensa várzea. Do outro lado do atalho, ficava um vale plano que ao clarão da lua dava a impressão de ser um lençol e do alto do morro avistava o local cercado de arbustos.


Diziam que numa sexta-feira da paixão um grupo de escravos que trabalhava na chácara do Machadinho, incrédulos, foi dançar num casebre que havia naquele local. O baile estava animado e todos bebiam e riam alegremente. De repente alguém gritou:


- Parece que o chão está afundando.

Imediatamente, outro respondeu cantando:

- Oi afundou! Ô lá lá

Responderam:

- Deixa afundar! Ô lê lê

Novamente o primeiro cantou:

- Oi afundou! Ô lá lá


E assim, sucessivamente foram respondendo ao som frenético dos instrumentos.No entanto não perceberam que realmente eles estavam desaparecendo nas profundezas da terra, ficou apenas o espaço do chão onde nunca mais nasceu capim, nem arbustos.Este fato aconteceu com todos os escravos da chácara do Machadinho que desrespeitaram o maior dia da semana santa, ou seja, sexta-feira da paixão.


Passando por este local, os pescadores caminharam por mais meia hora.De vez em quando, um barulhinho no mato fazia Bolinha latir e sair em disparada. Quase sempre era um tatu ou uma siriema perdida.Chegaram enfim ao seu destino. Ali já havia um rancho, um jirau e uma fornalha improvisada com pedras e barro.


Colocaram os objetos no jirau, enquanto Murilo foi catar alguns gravetos para acender o fogo.O tempo estava bom e o rio do “Ouro Fino” corria soberbo. Prometia uma bela pescaria, o que animou sobremaneira os nossos pescadores.Organizaram tudo, pegaram a isca e se aproximaram mais da margem.


O silêncio era total, apenas se ouvia o burburinho das águas que corriam rio abaixo.Casimiro foi o primeiro a lançar o anzol. Ficou imóvel, esperando o momento de fisgar o primeiro peixe. Não demorou muito e sentiu algo se debatendo nas águas. Ergueu a vara e vislumbrou um belo piau que logo foi recolhido e jogado no cesto que estava mergulhado na água.Entusiasmado, o pescador continuou naquela tarefa feliz da vida. E assim, passaram o resto da noite até o dia clarear.


Fizeram o café, repousaram um pouco a fim de repor as energias.Quando acordaram recolheram os seus objetos e retornaram felizes aos seus lares, com suculentos peixes para o almoço.

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