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O Enterro

Tio Pedrinho estava acabando de tomar um banho geral daqueles bons. Tia Donana veio com roupa limpa, de ver-Deus, botou no cabide. Ele agradeceu, só no jeito de olhar, e começou a vestir. Ela saiu, logo voltou trazendo um embrulho.
- Alguma encomenda? – perguntou tio Pedrinho.
- Duas, fora a lista que já te dei. A primeira, é trocar essa chinela por uma igual, só que um número a menos.
Ficou meio grande – esclareceu ela. Depois, completou:
- A segunda, é mais uma caridade. É sobre a dona Umbelina, coitada.
- Diz-que anda nas últimas, né Donana?
- Uma tristeza. Parece que não escapa mesmo não.
- E o quê que você quer?
- Vai lá, meu filho, faz uma visita. Resolve primeiro suas precisões na cidade, mas, pelo amor de Deus, não deixa de ir lá não. É um favor muito grande que te peço.
- Quê que é isso, Donana. Pode deixar...
- Pois é, vai mesmo. Dá um abraço na comadre Carmita, fala que tenho rezado sem parar. O tempo todo pedindo a Deus o que Ele julgar melhor pra pobre da dona Umbelina. Qualquer hora dessa, quando tiver uma folguinha, quero ir lá.


Tio Pedrinho foi, resolveu suas precisões, antes de voltar deu passada pra visitar dona Umbelina. Chegou em casa danado de chateado. Se não fosse o dever, era preferível não ter ido, disse depois a tia Donana. Fazia dó a velha, pele e osso em cima do catre, o quarto abafado, dona Umbelina penando. Não conhecia mais ninguém, não dava fé do que passava em volta.
- Escapa não. O povo acha que não dura até domingo.
- Quem sabe não é melhor descansar... - achou Tia Donana.


Dois dias depois chegava o aviso e o convite para o enterro. Tio Pedrinho estava fora, não chegava a tempo. Zé Mário foi incumbido de representar a família, ele mais o Lúcio, um primo que estava passando uns tempos na fazenda.


Rapazolas ainda ficaram na maior metidez com a incumbência. Quando mais que, naquela emergência, o jeito era ir à caminhonete, regalia só consentida em ocasiões muito especiais. Aprontaram e saíram, levando nos ouvidos a recomendação da tia Donana, repetida até mais não poder: - “Chegada lá, explicam que o Pedrinho está fora, que vocês estão representados a família. Apresentem os pêsames a todos e um abraço especial pra comadre Carmita e pro compadre Custódio. Falam que depois a gente aparece”.


No caminho, furou um pneu. Até trocar - eles tinham pouca prática - demorou, ficaram com medo de não chegar a tempo. Foram entrando na Praça, avistaram o cortejo.
Zé Mário, aflito, falou com Lúcio:
   - Olha, rapaz! Quase que a gente perde o enterro.
Já imaginou?


Deixaram a caminhonete numa sombra e se enfiaram sorrateiros numa das alas do acompanhamento. Depois, mais à vontade, procuraram o pessoal da família. Acharam estranho não ver nem a Carmita nem o Custódio, marido dela. Com certeza estavam muito abalados, não tinham condição de ir ao cemitério. As pessoas olhavam discretamente para os dois recém-chegados, uns abanavam a cabeça, faziam sinais contidos com a mão, murmuravam coisas quase incompreensíveis, o cortejo seguia. Para alguns, de cara mais compungida ou com olhos visivelmente avermelhados, aventuravam apresentar os pêsames. Se ao menos encontrassem a Carmita ou o Custódio, então podiam chegar com toda convicção, davam os pêsames de modo bem claro, cumpriam logo a missão. Quem sabe passavam na casa deles, faziam uma visita rápida, ficavam livres de ter chateação quando voltassem pra fazenda?


Na volta do cemitério, tiveram uma surpresa: logo adiante, vinha vindo outro cortejo! Ficaram impressionados com a coincidência: duas pessoas morrerem no mesmo dia numa cidade tão pequena! Curioso, Zé Mário perguntou a um rapaz, pergunta à-toa, só pra poder comentar quando chegasse em casa:
- Escuta aqui, de quem é esse enterro aí?
Assustado e confuso, Zé Mário virou pra Lúcio e falou:
- Uai, outra vez?

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