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A modernização da lavoura

Na partilha da fazenda a sede tocou para a Nena, que já andava de casamento marcado com o Aurélio, primo de segundo grau, formado em Agronomia e cheio de idéia na cabeça.


Entre os fundos do barracão e o pastinho dos bezerros passava a estrada. Logo os cavaleiros, viajantes, povo a pé e tocadores de boi, acostumados naquele trecho, foram formando juízo sobre estilo do novo proprietário. Primeiro foi àquela idéia de plantar capim. E exato onde, a vida inteira, Salustiano Borges tinha mantido sua sagrada plantação de mandioca confrontando com quiabo, melancia, abóbora-da´água, moranga, pepino e morango.


O
s próprios empregados saíram contando - e logo todo mundo sabia - da cara de tristeza do velho, na hora da janta, naquele dia que começaram a plantar o capim. Diz-que, segurando o prato e olhando para as panelas no rabo do fogão, perguntou uma voz triste, tão triste que ninguém nunca mais esqueceu: - “Daqui uns tempo, numa hora dessas, quando já não tiver mais nem abobra, nem quiabo, nem nada, o que é que hão de comer?” Olhou em volta, todo mundo calado, aí ele mesmo respondeu com outra pergunta, mais parecendo um lamento: - “Capim?”


Nena quase fuzilou Aurélio com os olhos. De noite reclamou que acabar assim com a hortinha do velho era uma maldade sem nome, tanto lugar pra formar capineira. Mas o marido não era de deixar serviço no meio, falou que havia de romper, mesmo com queixa e resmungo.Formada a capineira, trocou o marruco antigo, dispôs das vacas com perdido sangue suíço e adquiriu uma novilhada três quartos. Antes chamou carpinteiro, pedreiro, bombeiro, toda raça de oficial da redondeza e construiu silo, reformou o barracão, botou água corrente curral abaixo, até as cachoeiras. Nena achava que as vacas iam passar melhor do que o pessoal lá dentro de casa.


Bom mesmo foi quando instalou o triturador. De longe o povo escutava aquele to-tó-tó, era milho com palha e tudo, capim e cana esmoendo, despedaçava, virava farelo. Fora o vaivém da casinha pra cachoeira, o gado comendo de espojar, tinha gente que parava viagem no meio pra apreciar o movimento. Ia embora sem saber se aquilo valia mesmo a pena ou se não era farol à-toa, maneira de impressionar os outros, modernice cara e de pouca serventia.


Aurélio trocava idéia com Nena, ela dizia que o povo tinha lá sua razão de preferir trabalhar do jeito dos pais, dos avós, dos mais antigos. O resultado podia não ser muito, mas também era sem risco, um jeito conhecido, dava mais confiança.Ele achava que, com o tempo, os vizinhos haviam de mudar, bastava ver a experiência dele dando certo. De fato, não demorou muito, um e outro foi formando capineira, melhorando rebanho, mudando o trato, de vez em quando aparecia alguém pedindo opinião, querendo trocar idéia. Aurélio ficava todo inchado, jurava que ainda havia de mudar a mentalidade daquele pessoal todo.


Bom, quando parecia ter acabado o estoque de modernismo, olha o homem com a última novidade. Dum dia pro outro escutaram barulho novo, o to-tó-tó do triturador sumiu, não dava nem pra perceber. Agora reinava urro de bicho grande, rugido de animal taludo, o fazendeiro vivia encarapitado na corcova daquela baita máquina.


Num sábado depois do almoço, ele aproveitou pra preparar o terreno do antigo bezerreiro, queria experimentar uma nova variedade de capim. Começou do meio pra fora, foi abrindo círculo, enquanto isto ia treinando no manejo do trator, praticando nos recursos.Estava tão entretido que, quando reparou no Zico Marcolino, ele já vinha chegando estrada acima. “Este”, pensou Aurélio, “vai passar direto, só quer saber de cavalo, sanfona e pagode”.E era mesmo. A fazenda da Aguada, do velho Marcolino Araújo, vivia num passado remansoso, indiferente aos progressos. Os rapazes levantavam com escuro, lidavam com um despotismo de vaca, tudo sem graça, cada uma dando litro e meio, dois, era uma labuta sem arrumação. Pensando bem, sair andando a cavalo sábado de tarde, só pra exibir uma arreata nova ou a marcha-picada do animal, era das poucas compensações dos rapazes vizinhos.


Distraído em seus pensamentos, Aurélio custou a perceber que o moço, estacado na beira da cerca, não tirava os olhos dele. Aí, caprichou nas manobras, afundou a grade no chão, levantou cada tolaco de terra de fazer gosto. Na volta seguinte pensava que o vizinho já tivesse ido embora. Mas lá estava ele, nem piscar piscava. Aurélio nunca imaginou que Zico pudesse se interessar por qualquer novidade. Então resolveu parar um pouco, dar atenção ao rapaz. Desligou a máquina, limpou o suor da testa e perguntou:
- Que tal, gostou?
- Beleza, né sô!
- Não quer dar uma olhada mais de perto, ver como funciona?
- Não, brigado. Outra hora, quem sabe.
Depois de uma pausa, sem tirar os olhos do Aurélio, Zico falou:
- Queria só uma informaçãozinha.
- Até duas.
Aí, Aurélio começou a imaginar a pergunta, se seria sobre o preço do trator, forma de pagamento, se compensava, problema de peça, dificuldade de manejar, tudo passando rápido pela cabeça, preparando a melhor resposta, precisava aproveitar o interesse do vizinho.Foi interrompido com a pergunta do rapaz:
- O Aurélio. Onde que você comprou esse chapéu?

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