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Zeca Lifonso

Foi na fazenda do meu avô, onde a bem dizer, eu vivia antes de entrar ra escola, que conheci Zeca Lifonso. Naquela ocasião, ele devia beirar os setenta, mas pelo apetite na hora da comida, o jeito animado de falar, a maneira esperta de dar conta de tudo, parecia ter uma saúde de ferro.


Era baixinho e atarracado, mas eu o achava muito grande. Isso do Zeca ser pequeno só descobri bem depois, conversando com meu pai e comparando com os parentes dele, todos baixinhos. Penso que é assim mesmo com todo mundo: quando a pessoa ainda é criança, tudo parece muito maior.


Conforme eu dizia, lembro do Zeca Lifonso na cozinha da fazenda, sentado num banco grande de tábua corrida, conversando com meu avô, minha avó, de raro em raro perguntando alguma coisa, ele respondendo com muito respeito, quase uma reverência, e eu não dizendo nada, só prestando atenção, sem ordem de entrar em conversa de adulto, ainda mais visita.


Eu ficava por ali, fingido que nem ligava, mas não perdia uma palavra, não deixava escapar um movimentozinho ao menos. Foi assim, prestando atenção enquanto fingia nem ligar, que reparei pela primeira vez no bigode do Zeca. Era um bigodão enorme, de pontas reviradas, despencando pela boca. Na hora de beber leite com angu, o bigode ficava todo molhado de branco, ali, pra não desperdiçar, ele esticava o beiço de baixo e, numa pontaria certeira, ia direto onde o leite já estava quase pingando. Aquilo era um prodígio, o homem ir assim tão certo, mesmo não parando de conversar com meu avô, parecendo que era a coisa mais simples deste mundo!


Depois da sobremesa, serviam um café pelando, em xícaras esmaltadas, com umas florzinhas em alto relevo. Aí, feita a boca-de-pito, vinha uma atração que eu não perdia de jeito nenhum: cumprido o ritual de fazer o cigarro de palha, um cigarrao desta grossura, Zeca tirava um isqueiro dourado, destampava e acendia um imenso pavio, que tanto dava fogo como fumaça. A gente morria de medo e ao mesmo tempo ficava torcendo praquele fogaréu sapecar o bigode dele ou ao menos a fumaça sujar bastante o chapéu de palha, sempre quebrado na testa.


Enquanto baforava a fumaça ou rodava o cigarrão no canto da boca, o homem ia conversando sobre tudo quanto havia. Era uma prosa vagarosa, o tempo passava remansoso, nenhum dinheiro pagava aquele momento de cortesia, horas de boa amizade. No meio de um caso, o peru cantou no terceiro-da-horta, junto à cozinha. Zeca parou pra dizer uma coisa que eu nunca mais esqueci, uma frase que me provocou espanto e encantamento. E a dita frase, da maior simplicidade, era assim: - “Eles falam que a carne do peru tem mais sustança, né mesmo?” O espanto foi pela ideia de alguém comer carne de peru. Junto com as galinhas d´angola, os patos e marrecos, o peru só servia para enfeitar a fazenda com suas ninhadas e glu-glu. O encantamento foi com a palavra sustança que, só anos depois, percebi antecipava a carnaria contida num peito ou numa coxa de peru.


Agora, a coisa melhor que o Zeca já falou foi um dia, na hora de ir embora. Tinha remanchado bastante, então deu parte de mexer areia. O pessoal disse que ainda era cedo, essas coisas que sempre dizem, mas não adiantou. Ele foi ao fogão, acendeu o cigarro mais uma vez, pegou o chapéu de palha quebrado na frente, que tinha ficado debaixo do banco da cozinha. Despediu-se da minha avó, ela mandou lembrança pra dona Zica, ele respondeu “Será lembrado” e foi caminhando pro terreiro, meu avô atrás, a gente logo em seguida. Formou aquela pequena fila, passou no capim que servia de quarador, atravessamos por dentro da casinha de despejo, saímos no curral, onde estava a eguinha do Zeca Lifonso cochilando debaixo do pé de jambo. Era uma égua queimada, já bem velha, tinha uma andadura crônica, por mais que o dono fingisse acreditar que ela ainda ia pegar marcha.


Zeca apertou a barrigueira, desamarrou a égua, enrolou o cabo do cabresto, igualou as duas pernas da rédea e botou o pé esquerdo no estribo. Aí sacudiu o corpo duas vezes, deu um impulso mais forte, passou a perna direita por cima do arreio. Se o cavaleiro fosse mais alto, era capaz de arrastar o pé no chão. Mas, sendo ele baixinho e a égua piquira, formavam par bem ajeitado. A gente até já imaginava o animal indo num galeiro macio, embalando o velho cavaleiro num passo maneiroso, vagarento. Mas o Zeca tinha lá seus rompantes. Passada a porteira do curral, deu um soco na rédea, cutucou a espora na virilha da égua, bateu com o cabo do cabresto na anca (nem relho ele usava) e falou, num jeito imperioso: -“Hoje, sua danada, vou te mostrar o rigor duma saudade!”


Depois meu avô me explicou que aquilo era bobagem dele, conversa à-toa, o Zeca morava pertinho, era só virar o morro, com pouco chegava em casa. Mas, não sei porque, a frase continua na minha cabeça até hoje, tantos anos depois. E apesar da explicação do meu avô, de vez em quando ainda imagino o Zeca saindo para uma viagem misteriosa, tão cheia de perigos e peripécias que a velha eguinha, mesmo calejada pela vida, acaba sentindo na própria carne o rigor de uma saudade.

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