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Promessa a São Geraldo

Nazaré vivia pedindo a Raimundo pra não sojigar os meninos tanto assim. Carecia esperar, tudo neste mundo tem hora certa. Que adianta forçar a natureza, querendo fazer fruta madurar antes do tempo? Acaba apodrecendo.


Mas o danado do marido quebrava pau no ouvido, cada hora inventando tarefa mais difícil, obrigação mais pesada. Dico, o mais velho, nem bem tinha perdido os dentes de leite, já não vivia encarrapitado num cavalo, fazendo obrigação pra todo lado, mandando que não parava mais. A vizinhança, cada um achava uma coisa. Pra uns, tinha de ser assim mesmo, é de pequenino que se torce o pepino. Pra outros, aquilo era uma judiação, um despropósito, onde já se viu tratar menino como gente grande, enfrentando perigo e trabalho que muito adulto não aguenta? Um dia, Deus me perdoe, podia acontecer uma coisa ruim, aí sim, o pai havia de arrepender da sua carrasquice.


O pensamento das pessoas, a gente não sabe, mas parece coisa que tem força. Pois justo quando Nazaré comentava com a comadre Percília sobre o mandonismo do marido, o medo de acontecer uma coisa com as crianças, ela vivia com o coração na mão, olha uma gritaria lá na banda de fora, aquele alvoroço, alguém chorando, de repente a maior confusão. Ela, mesmo sem saber direito, já começa a gritar, no puro pressentimento: -“Aí, meu Deus do Céu, meu milagroso São Geraldo há de ajudar não ser nada de grave, todo mal há de passar. Gente, o quê que é isso aí? O que foi com meu menino? Fala, Dico! Fala com sua mãe, tenha paciência!” Aí pediram calma, não era nada não, logo resolvia, ela havia de ver.


Vieram trazendo o menino todo molengo, branco que nem cera. Botaram numa cama no quarto da sala. A mãe, aí é que aprontou o maior berreiro, não havia meio de sossegar, queria uma explicação do acontecido, perguntava quem era o culpado. No meio da confusão, explicaram: o cavalo tinha espantado, disparou, Dico não conseguiu controlar, montado assim em pêlo não tinha a firmeza do estribo, quando esbarraram o animal, o menino acabou caindo no chão, já apanharam desmaiado.


Nazaré, naquele maior aperto, fazia fomentação, mandou procurar um vidrinho de água benta, agora esfregava álcool no menino, já imaginava o filho parando de respirar, a morte rondando, aquilo era um sofrimento sem arrumação. Aí dobrava o choro, danava a soluçar, pensava que havia de ter um jeito, não era possível. São Geraldo havia de ajudar. Era isso mesmo: São Geraldo. Prometeu: se o Dico escapasse, não ficasse com coisa nenhuma depois daquele tombo, havia de acender uma vela, das bem grandonas, no altar de São Geraldo, lá em Curvelo.


Só de fazer a promessa, foi sumindo aquele arrocho do peito, a aflição foi aliviando. Sentou do lado do filho, já tinha feito o que podia, ficou passando os dedos no cabelo dele, afagando, reparando na respiração, esperando algum movimento. Ele parecia dormir sossegado. Quando sô Juquinha da Farmácia chegou, olhou o menino, tomou o pulso, mediu pressão, disse que estava tudo bem. Então abriu uma valise, molhou bem um chumaço de algodão num remédio de cheiro forte, botou no nariz do menino. Na mesma hora ele abriu os olhos, perguntou, meio tonto, o que tinha acontecido. O pessoal, no quarto, ameaçou uma gritaria, mas sô Juquinha logo evitou, pedindo silêncio.


Dico ficou uns tempos meio esquecido, falaram que era assim mesmo, não adiantava forçar. Raimundo, o pai, acabou tendo de dar folga pra ele. De vez em quando Nazaré lembrava da promessa. Faltava pouco mais de um mês pro dia de São Geraldo, ela juntou um punhado de devoto, combinaram de alugar a Kombi do Juvercino. 


No dia marcado, saíram de madrugada. Era chão para não acabar mais. Quase todo mundo marinheiro de primeira viagem, Juvercino ia mostrando uma coisa aqui, outra ali, explicando, os passageiros dos bancos da frente repetiam pros de trás.


Em Carmópolis, pararam para um café no Faleiro. Espicharam as pernas, comeram pastel de carne e pão de queijo. Com pouco mais de duas horas, mesmo a Kombi subindo devagar a serra de Itaguara, entraram em Belo Horizonte. Juvecino passou por dentro da cidade, para dar aos passageiros uma ideia da Capital. Aquilo, sim é que valeu a pena! Nazaré estufou o peito, um engraçado e falou espalhafatosa: -“Eh, gente! Quem haverá de dizer que eu ainda ia botar os pé aqui?” Aí o chofer corrigiu: - “Botar os pé não é bem o caso, né dona Nazaré? A senhora mal ta botando é as roda ou, no máximo, os olhos”. Todo mundo riu, sem parar de pôr sentido em cada coisa que ia passando, novidade que não podia perder. Depois, em casa, o povo ia querer explicação de tudo, até da coisa mais miudinha.


Tocaram. Mais uma parada em Sete Lagoas, o cansaço veio chegando, começaram a cochilar. Quando a gente dorme, o tempo passa depressa. De repente entraram em Curvelo. A cidade, atopetada de gente, o povo parecia manada de boi ou correição de formiga. Conforme tinham combinado, foram direto pro Santuário. Nazaré ajoelhou perto do esquife do Santo, começou a rezar. Pensava no Dico, lembrava do perigo que correu, se não fosse São Geraldo não tinha escapado. Pensava no filho, olhava pro Santo no caixão, mãos postas, um semblante tão sereno, parecia dormir, igual o Dico no dia do tombo. De olho pregado em São Geraldo, teve uma hora que viu o filho no caixão, vestido de padre, as mãos cruzadas no peito segurando o crucifixo. Sentiu um estremecimento, pensou no Dico crescido e forte, agradeceu demais a vida do filho. Nessa hora não conseguiu segurar o choro. Primeiro, contido, depois uma cachoeira de lágrimas pela cara abaixo, o corpo sacudindo, vontade de gritar bem alto. Não tirava os olhos da imagem no esquife.


 
Assim passou um tempão. Quando olhou de lado, notou que ainda continuava ali o mesmo homem que tinha ajoelhado junto com ela. Ele prestava atenção, de cara meio espantada. Quando Nazaré reparou, viu nele uma grande pena pelo sofrimento dela. O homem veio chegando, devagarinho, e perguntou, quase num cochicho:


- O finado por acaso é seu parente, dona?!

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