Cultura

Casos de Minas

Senac
  • Logo Senac Minas
  •  
  • Hotel Grogotó

Quando o cinema chegou

Ocasião de festa do padroeiro sempre aparecia novidade. O povo já ficava de orelha em pé, adivinhando, calculando. Uma vez tinha sido um velho que ensinava a tirar perfume das flores. Outro ano foi o automóvel. Veio na estrada de rodagem até a cidade vizinha. Depois, comboiado por duas juntas de boi, mais enxada, enxadão, pá e picareta, pegou a estrada de carro. Quando, finalmente, entrou no arraial, quase na hora da procissão sair, foi aquela beleza.


Tinha ano que vinha rodeio, às vezes tourada, nunca passava sem algum divertimento, ao menos um parquezinho de diversão. Mas de tudo que já teve na festa, melhor mesmo que o automóvel, foi quando apareceu o homem do cinema. Aquilo quase bota todo mundo doido, muita gente não acreditava que pudesse ser verdade. Primeiro aparecia um galinho. Batia asa, cantava, chegava bem perto, era uma perfeição. Depois a música ia mandando, o galo sumindo, logo começava o filme.


Uma fita era de pirata, luta de espada, navio de vela, tiro de garrucha e bebedeira. Outra era de faroeste, nome falando por todo mundo, mas pouca gente sabia o que era. O mascarado assaltava o banco, daí a pouco vinha um moço todo vestido de preto, montado num cavalo branco que galopava, galopava e, quando mais galopava, mais bonito ficava. O povo gritava quando aparecia o homem de preto no cavalo branco, tinha gente que ficava em pé, pra sentar de novo era um custo, só a poder de muito xingatório de quem estava atrás.


Mas, como dizem, o melhor da festa é esperar por ela. Uma hora a festa acabava, o pessoal voltava pra casa, quem tinha vindo de fora juntava suas coisas, suas novidades, truques e ilusões, botava tudo dentro das canastras e baús, pegava o caminho de volta, muitos nunca mais apareciam. O povo do lugar ficava lembrando das coisas, como se catasse migalha de carne no cantinho dos ossos, recordando sem parar pra não esquecer, esticando a festa até véspera a do outro ano.


De todas as lembranças, a que mais ficou foi mesmo a do cinema. Tanto que, mal botaram luz no arraial, anos depois, logo trataram de providenciar a máquina de passar filme. Era de segunda mão, mas servia bem. Andaram explorando, apreçaram, era aparelhagem estrangeira, uma nova custava os olhos da cara.


A sinuca, o carteado e mesmo algumas rodas de conversa esvaziaram. Também, pudera! Como é que iam concorrer com uma geringonça tão estapafúrdia, até parecia coisa do outro mundo? Tinha gente que não perdia nenhuma sessão. Bento Pereira, por exemplo, fechava mais cedo sua venda, descia e ficava rabeando, pitando seu pito, fazendo hora. Aí entrava, sentava e nem o chapéu tirava, por mais que a molecada gritasse e o povo pedisse. Totonho Ananias vinha da roça, a janta era muito cedo, trazia matula. Na hora de mais nervosismo, tirava uma perna de frango, começava a comer. De repente, apontava com ela, avisando que os índios vinham chegando. O mocinho não percebia, então ele levantava e berrava: -“Cuidado que esse bugre te mata, sô desgraçado. Olha ele lá em riba da pedra!”


Já o Orosimbo da Donana, que tinha sido chofer de caminhão muito tempo, em moço viajava pa todo lado, conhecia o Rio de Janeiro como a palma da mão, dizia que o pessoal havia de ver mas era fita de Rodolfo Valentino ou então de Greta Garbo, a mulher mais bonita que já teve nesse mundo! Se desse a coincidência de passar algum dia, aí sim é que iam conhecer o que era cinema dos bons.


Das mulheres, uma freguesa certa era a Mariquita Ponciano. Solteirona, beirando o sessenta, tomava banho geral no meio da semana, passava pó-de-arroz, um ruge discreto, punha água-de-cheiro e seguia pro cinema. Sentava na primeira fila e não se abalava com coisa alguma. Silenciosa como chegava, saía.


Uma tarde, conversando na cozinha da comadre Mariana do Quintino, esta falou:
- Diz-que você é doida nesse tal de semana, que não perde um. É devera?
- É devera.
- E esse trem presta mesmo, comadre?
- Eu acho especial!
- Que tipo de coisa usa mais?
- De tudo: filme de amor, faroeste, aventura.


Cada dia uma coisa.


Mariana começou a fechar o cerco:
- O povo da fita fala é na nossa língua ou é na deles, do estrangeiro?
- Quase sempre é na língua deles. Fita nacional custa passar.
- E você entende o proseado, comadre Mariquita?


Perguntou ela, apertado.
- Não


Mariana estudou uma cara de curiosidade, que era mais de maldade, e lascou:
- Leitura, a gente sabe, você não tem. Come que você arruma?


Mariquita não se deu por achada. Bebeu mais um gole de café e falou, dum jeito superior.
- Que bobagem é essa, comadre?


Sem dar tempo de uma nova pergunta, estufou o peito e completou, com um ar sabido.
- Conforme o jeito da carruagem, a gente já sabe quem vem dentro, né comadre.

Enviar link