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Sermão

A eleição prometia ser uma coisa nunca vista. Nem quando acabou a ditadura foi tão agitado. Daquela vez, não sei se porque há tanto tempo o povo não votava ou pelos desatinos do pessoal do Getúlio com os adversários, uma coisa era certa: tinha um sentimento de vingança, uma vontade de desforrar. Aí a UDN, oposição na época, acabou ganhando a Prefeitura.


Terminada a apuração houve foguetório, alguma troca de insulto, uma ou outra desavença até mesmo entre gente aparentada. Mas, não demorou muito, a poeira sentou, a paixão foi serenando, é como diz: nada como um dia depois do outro... Dessa vez, não sei por que, eu tinha medo até de pensar. Cada hora uma coisa, podia ser uma coisinha à-toa, de repente ficava todo mundo de cabelo em pé, nervo à flor da pele, pavor de vir a acontecer o pior.


Em todo lugar tem sempre os leva-e-traz, os coreio-sem-selo, ficam fazendo fofoca, contando tudo quanto é fuxico, trançando novidade e invencionice dum lado pro outro, uns fazem isso com a cara mais lavada desse mundo; já outros, mestres no fingimento, parece que morrem de pena – ou de medo, conforme -, toda hora um jeito estudado de espanto, de vez em quando uma lamúria, aquele teatro, quando o freguês assusta já ficou todo enleado no disse-que-disse.


Juntando o pouco de acontecido com o muito de boato, somando raiva de verdade com invenção de candongueiro, quando mais chegava o tempo de eleição mais a situação piorava. Tinha gente virando a cara uns pros outros, fingindo que não via, mesmo passando perto, quase trombando. Fora o tanto de calúnia e difamação, despropósito de tudo quanto era tipo.


A coisa começou a azedar, primeiro, na cidade. Logo alcançava as sedes de distrito. Agora já vinha notícia de problema até em corrutela, lugarejo com uma fileirazinha de casa, todo mundo a bem dizer da mesma família, casado tudo parente com parente.


Nesse ponto, o próprio Bispo alarmou. Reuniu os padres, recomendou “uma urgente e ampla pastoral do perdão e do desarmamento de espíritos, atingindo os recantos mais longínquos da mossa Diocese”. Pedia “mais este sacrifício aos dedicados sacerdotes, no sentido de levar à totalidade dos paroquianos a palavra isenta e imparcial que só a Igreja, colocada acima das paixões mundanas, é capaz de transmitir”.


Padre Teodorico Oliveira voltou da reunião com seu programa de viagem quase pronto. Acertou detalhes com o sacristão, mandou avisar o povo e, dois dias depois, numa manhã de sábado, metia o pé na estrada. Quer dizer, Serenata, sua besta, encurvada pelos cento e vinte quilos do padre, marchava como podia rumo a Mangueiral.


O assunto, lá era o alargamento da estrada, ninguém falava de outra coisa. O pessoal do PSD jurando de pé junto que as máquinas iam chegar a qualquer momento, afinal era um compromisso do próprio Governador com o coronel Cincinato, que punha todo o seu empenho no atendimento daquela antiga aspiração da comunidade local. O Governador, garantiam seus correligionários, não ia deixar o coronel na mão.


Do lado da UDN, os mais incrédulos prometiam virar mico de circo se as máquinas ao menos chegassem antes das eleições. Mesmo que viessem, diziam eles, ia só revirar um pouco a terra, queimar óleo comprado com o dinheiro do povo e depois davam no pé, adeus estrada.


Padre Teodorico mal entrou em Mangueiral, a primeira coisa que perguntaram foi se por acaso não trazia alguma novidade, aquela dúvida estava em tempo de botar todo mundo doido. Ele desconversou. Disse que infelizmente não tinha notícia, aconselhou calma, não valia a pena ficar esquentando a cabeça daquela maneira. Prometeu tratar do assunto no sermão do dia seguinte.


Pelo número de confissões na noite de sábado, ficou espantado com a quantidade de gente no povoado. Parecia época de missões. Na verdade, o pessoal do lugar sempre demonstrava muito fervor e as celebrações religiosas costumavam ser bastante concorridas. Mas, daquela vez, estavam superando as expectativas. Como a igreja era muito pequena, decidiu celebrar a missa de domingo do lado de fora.


Naquele tempo, o padre ficava de costas para o povo. Mesmo não vendo a cara das pessoas, o vigário sentia o fervor dos fiéis. Deu Graças a Deus e pediu, baixinho:
- “Possam minhas palavras cair em terra fértil, germinar e dar bons frutos”. Com este pensamento, virou-se para o povo, que esperava, atento, a mensagem do sacerdote. Disse:


   - Meus amados irmãos. Incumbiu-me o nosso estimado Bispo Diocesano, o boníssimo Dom Salvador Meneses, de trazer até vocês a preocupação – e por que não dizer?


- A enorme angustia que, dia a dia, vai tomando conta do seu coração de pai e pastor. Com a proximidade das eleições a gente vê, com profunda tristeza, surgirem desentendimentos e desavenças entre conterrâneos, amigos e até entre parentes.


Tudo por causa de paixões políticas que ameaçam, com sua força demoníaca, destruir sólidos laços de amizade e de fraternidade, sempre presentes nas nossas comunidades do interior. Hoje, nesta missa, vamos elevar nossas preces aos céus, pedindo a Deus para limpar o coração de todos, arrancar qualquer erva daninha, antes que ela cresça e tome conta dos nossos sentimentos. O pessoal nem piscava. O padre, depois de uma pausa curta, continuou:


- Em cada lugar é uma coisa perturbando. Aqui por exemplo, é essa história do alargamento da estrada ameaçando jogar irmão contra irmão, tirando a paz de todas as famílias. É indispensável refletir um pouco, medir as conseqüências de cada gesto, de cada palavra, pois a língua, às vezes, fere mais do que a espada. O papel da Igreja é este: acima das paixões e das cegueiras, manter a serenidade e a isenção, contribuir para que todos permaneçam de coração tranqüilo, a mente livre de qualquer fanatismo.


De repente, parou de falar. Seus olhos se fixaram num ponto distante. No rosto uma expressão de êxtase. O padre parecia maravilhado. Quem sabe era alguma visão, um milagre acontecendo naquele humilde vilarejo? O silêncio era total, ninguém se mexia. De repente padre Teodorico começou a esticar o braço, apontando para o morro em frente. Alguns viraram o rosto na direção da estradinha de acesso ao arraial, esperando ver alguma coisa do outro mundo. De olho ainda parado, o braço teso, padre Teodorico falou, emocionado, a voz descontrolada:
- Olha lá! Olha lá gente! As máquinas do PSD! As máquinas do PSD!

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