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Escolha de candidato

Já te contei a minha entrada na política? Nasci nos Pereira, um distrito de São Sebastião das Areias. O nome do povoado é por causa da minha família, a raça de Pereira é tronco muito antigo na região.


Meu avô tinha sido uma espécie de cacique, mas, naquela altura, já andava bem doente. Resolveu me preparar, na condição de neto mais velho, pra ficar no lugar dele. Ainda estudante, foi eleito vereador, depois Presidente da Câmara. Eu era menino de tudo, mas já levava jeito pro negócio.


Também, tinha as costas quentes do meu avô e da parentada toda. A bem da verdade, sempre fiz da minha parte. Vivia atrás do nosso deputado, pegava na casaca dele, levei muito benefício pra Sebastião e pros Pereira.


Quando chegou época de eleição outra vez, lançaram meu nome pra prefeito. A família não me deu tempo nem de pensar. Aceitei de olho fechado, em homenagem ao velho, que tinha morrido há pouco tempo.


Vim pra Capital, acertar os detalhes da campanha com o doutor Casimiro, na ocasião nosso deputado estadual majoritário. Na eleição seguinte, quando foi pra federal, ocupei o lugar dele. Mas, voltando ao caso, acertei a campanha, ajuda pra alistamento, propaganda e tudo mais. Mais conselho importante ele me deu: trabalhar duro pra fazer maioria folgada na Câmara.


De volta a São Sebastião, reuni meus amigos mais chegados, discuti o assunto com eles. Foi feita uma lista de pessoas boas de voto e que representavam os diversos setores da sociedade. Acertada a lista, todo mundo combinado, era só arregaçar as mangas e sair em campo.


Resolvi começar pelos Pereira, pelo povo da minha terra. Num domingo, bati pra lá com vários companheiros da cidade. Depois da missa das dez, a gente desceu pra venda de um parente meu. Era a maior casa de comércio do lugar, dessas que vendem de tudo: de panela a urinol, de enxada a alfinete, passando por “secos e molhados, bebidas nacionais e estrangeiras”, conforme estava escrito do lado de fora, na parede do estabelecimento. O negócio funcionava domingo pra atender o pessoal da roça com suas listas de precisões e encomendas. Lá dava muito movimento, era o ponto preferido para encontros e bate-papos sem fim. E tinha uma vantagem: tudo o que fosse conversado ali, logo se espalhava por todo lado. Daí a minha escolha.


Chegado na venda, apresentei meus amigos, uns já eram bem conhecidos, viviam indo lá comigo. Mandei chamar alguns companheiros do lugar. Quando eles chegaram, dei um tempinho para os cumprimentos, depois levantei limpei a garganta e disse:
  - Olha, pessoal. Conforme deve ser do conhecimento de todos, vou sair candidato a prefeito nas próximas eleições...


Não pude continuar, interrompido para receber cumprimentos, uns ensaiando um pequeno discurso, outros murmurando palavras incompreensíveis, teve um que parou a picação de fumo, botou a faca no balcão, junto com o material, limpou a mão na calça, antes de me saudar. Passados os cumprimentos, recomecei minha arenga, agradecendo o apoio dos amigos e explicando a importância de ter maioria na Câmara, garantir o sucesso na minha administração. Todo mundo concordou, com gestos e aplausos.


Vendo que o ambiente estava favorável, fui ao ponto:
   - E para ficar no meu lugar na Câmara, estou pedindo o apoio de vocês para estes cinco companheiros, que já apresentei a todos. São de inteira confiança, meus amigos lá de São Sebastião, de modo que, votando em qualquer deles, é como se estivessem votando em mim. O que vocês acham?


Ninguém respondeu. Vendo que havia uma dúvida no ar, perguntei:
   - Vamos gente! Podem falar francamente. Qual é a sua opinião, Juca?
   - Sei não. Eu, por mim, acompanho o que ficar resolvido.
   - E o compadre Calito?
   - Será que dá certo desse jeito, compadre? Fico meio cismado...
   - Se é assim, precisamos ouvir outras opiniões. Alguém tem uma sugestão diferente?


Zé Antônio, fazendeiro decidido e sem cerimônia, falou:
   - Eu acho que ta havendo muito rodeio. O Vadico vem com essa conversa macia dele, apresenta os amigos lá da cidade, tudo gente boa, até aí tudo certo. Tem só um porém: se a gente divide os votos do nosso pessoal por cinco, que que acontece? Arrisca não eleger ninguém! Tou certo ou não tou?


Sem dar o braço a torcer, eu disse ao Zé Antônio:
   - Sua observação é muito boa, Zé. Qual é a sugestão para resolver o problema?


Ele retrucou:
   - Você diz que é tudo gente fina, não é mesmo?
   - É verdade – respondi.
   - Pra não dividir a votação, precisa ser um candidato de peso, certo?
   - Certo.
   - Então, vocês me ajudam a pensar. Não convém dividir a votação entre o cinco. Qualquer um, é como se a gente votasse no Vadico. No meio dos cinco, é preciso escolher o candidato de mais peso, não é? Então, qual é o jeito?
Ninguém aventura?


Ninguém adivinhou. Zé Antônio esperou, olhou pra todo mundo, fez bastante sensação. Aí apontou uma balança grande, dessas com capacidade pra mais de duzentos quilos, e disse:
   - A gente enfileira os candidato, passa tudo na balança. O de mais peso leva os voto.


Pedro Mascarenhas, chamado Pedro Gordo, com cento e dez quilos, foi o indicado.

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