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Carona

O caminhoneiro vinha sozinho. Carga pesada, viagem vagarosa, vontade de poder conversar. Na baixada que tem logo depois do rio Pará, numa reta mais comprida, avistou um homem fazendo sinal. Diminuiu a velocidade, reduziu a marcha, foi encostando. O mercedão sacolejou, deu uma suspirada de freio, parou.
- Vai pra onde, companheiro?
- Lajes, Santa Catarina.
- Caminho de São Paulo?
- Bem pra baixo. Ta indo pra São Paulo?
- Não. Sul de Minas. Dá pra uma beiradinha até lá?
- Vamos subindo.


Bom de papo o caroneiro. Tinha vindo visitar uma irmã doente e perdeu o ônibus. Enquanto esperava, teve aquela idéia de pedir carona. Era mais divertido. Contou que tocava um sítio, tinha um gadinho bem bom, graças a Deus ia progredindo.O motorista conhecia aquela conversa de mineiro. Falando em sítio, gadinho, vai ver devia estar montado no maior dinheiro. Escondendo leite, como costumavam dizer.


O
passageiro, depois, indagou por onde o caminhoneiro já tinha viajando, pedia descrição de cada lugar, bebia cada palavra. Ultimamente ouvia falar em Rondônia, quis saber como era lá, se o outro conhecia a Transamazônica, se havia topado com índio ou alguma onça. Fazia uma pergunta atrás da outra, aproveitava pra juntar o máximo de informação, fazer estoque de novidade. Mais tarde, conversando com os conhecidos, volta e meia podia dizer: - “Um chofer amigo meu, ele rodou por este Brasil todo, contou que ...”


Adiante de Lavras a paisagem mudava. Começavam a aparecer fazendas de café, bons pratos, gado gordo. O caminhão passava agora diante de uma invernada, macega alta, um belo lote de novilhas pastando. Dava gosto ver.O caroneiro parou de conversar e ficou olhando para fora, pensativo. Limpou a garganta, tomou coragem e perguntou se o motorista podia dar uma parada. Precisava descer só um pouquinho, logo voltava. Daí a uns minutos lá vinha ele, todo satisfeito e cheio de si. Acabou de subir na cabina, fechou a porta e disse:
- Coisa boa é mijar no que é da gente!
- Esta fazenda aí é sua? – perguntou o caminhoneiro, curioso.
- Não, quem dera...
- ?
- Mijei na botina!

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