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O dinheiro e a coragem

O coronel Eurípedes do Prado Linhares era mais que fazendeiro. Donatário de sesmaria, vice-rei do sertão, isto sim é que ele era.


Da sede avarandada, elegia deputado, derrubava delegado, enxotava aventureiro, mudava diretora de Grupo, fazia o que bem entendesse. E ninguém arriscava contrariar o velho.


Apreciador do conforto, possuía usina própria naquele cafundó onde a eletricidade levou tanto tempo para espalhar. Apreciava a regalia de, em dias de mais calor, beber seu uisquezinho importado, com gelo de água de coco. Pelo rádio, acompanhava as novidades do Brasil e do estrangeiro. Escutava, matutava, tirava lá suas conclusões, calibrava o modo de agir conforme o vento que vinha de longe.


Agora, de duas coisas o Coronel gostava mais, fora moça bonita, que isso nem precisa dizer: era cavalo manga-larga e novilha raçada. Bastava falar de leilão – ou praça, conforme usavam dizer – e lá ia ele com sua comitiva, ainda que fosse no inferno.


Diz-que uma vez ele foi pra um leilão desses, não sei se Uberaba... Ou terá sido Araçatuba? Não lembro mais. Só sei que o que tinha de fazendeiro taludo, podre de rico, o senhor é capaz de não fazer idéia. Gente de toda banda, cada qual mais intimado, querendo mostrar força, exibir poderismo.


Conforme usava fazer, o Coronel foi chegando na praça, bispou a situação: conversa daqui, espia dali, assunta acolá. Aí deu com um lote de novilha que só vendo. Uma novilhama entusiasmada, parecia de encomenda. Uma, então, assim meio araçá, essa era de encher qualquer medida. Reparando bem nela, falou lá pra um amigo dele:
   - Ta vendo aquela novilha ali, a araçá?
   - Beleza, hein?
   - Pois é. Pra semana vai lamber sal no meu cocho.
   - É baixo! – disse o outro.
   - Duvida?
   - Doutor Camilo Vilela diz-que essa ta no papo, ninguém toma dele.
   - Camilo Vilela? Que diabo é esse que nunca vi falar?
   - Nunca viu falar? Pois é filho do Eurico Vilela, vai ficar no lugar dele como presidente da Vilela Pontes.


O
lhando adiante, o amigo falou:
   - Olha ele ali. Vem cá que eu vou te apresentar.


Os dois entraram na roda. O Coronel foi logo dizendo, pra todo mundo ouvir:
   - Então quer dizer que o senhor é o doutor Camilo Vilela?
   Antes de qualquer resposta, continuou, estabanado:
   - Pois vou-lhe dizer, doutor Camilo. O senhor é homem de muito dinheiro e pouca coragem!


Assim como chegou, foi suando. O outro, espantado, quis saber se aquele coronel por acaso não tinha um parafuso de menos. Informaram que era assim mesmo, meio sistemático, cheio de mania.


Da roda, o Coronel foi olhar o gado. Reparou melhor nas novilhas, conversou com o leiloeiro, seu conhecido, foi beber uma cerveja. Bom, passado um pedaço, começa o leilão. Quando chega no lote que eu referi, mal anunciou a primeira novilha, o coronel Eurípedes bota cinco conto. Doutor Camilo retruca com dez. O Coronel grita quinze, Camilo responde com vinte, que era, mais ou menos, o valor por cabeça, umas pelas outras. Eurípedes manda trinta, que já era um exagero. Olha pro Doutor, desafia. Ele não torra farinha: mete quarenta, o dobro do valor. O povo principia abismar. O Coronel estufa os peito, berra quarenta e cinco. É aquele zum-zum. Mas o lance nem esquenta lugar na boca do leiloeiro, logo o outro manda cinqüenta. O Coronel faz um muchocho, sinal que tinha perdido a parada. A boiadeirama da outra banda apronta aquela zoeira, até foguete solta.


Nisso vem vindo outra novilha, igual irmã gêmea da primeira. O Coronel abre, insultando: -“Dez conto pro doutor Camilo não formar parelha! É dez conto, gente!” Camilo dobra. De dez em dez chegam aos sessenta, Camilo forma a parelha. Todo mundo olha pra ele, assombrado.
- “Com o dinheiro dessas duas eu comprava meia dúzia”
- comenta um. –“E” – fala o outro. – “Mas gosto é pra quem pode, não é pra quem quer” – remata. Camilo finge não escutar, Eurípedes faz que não entende.


Então vem vindo à terceira novilha, a tal araçá. Camilo bota cinco. Eurípedes põe dez. Camilo repica com quinze, o Coronel retruca com vinte. Satisfeito com a parelha que acabava de rematar, Camilo cala, faz um ar de desinteresse. O leiloeiro bem que cutuca, provoca, peleja. Nada. Antes de entregar a novilha ao Coronel por vinte contos, que era, conforme eu disse, o preço normal, ainda insiste, desafia:
- “Dou-lhe duas pro doutor Camilo não levar! Vinte pro doutor Camilo não levar!” Não adiantou.


O Coronel recebe a novilha, vira pro amigo, sempre do seu lado, e diz bem alto, pra todo mundo escutar:
   - Não te falei que essa novilha, pra semana, haveria de lamber sal na minha fazenda?


Espanto geral. Aquele silêncio. O Coronel caminha pro lado do concorrente e fala, gritado, quase rebentando de satisfação:
   - Não falei, doutor Camilo Vilela? Não lhe disse que o senhor é homem de muito dinheiro e pouca coragem?

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