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A cruz da Ceição

Muito chegado ao trabalho, Malaquias nunca foi. Fazia lá seus biscates – mandando, uma capina de horta de vez em quando -, só a conta de tapear. Quem pegava mesmo no batente era Ceição, sua mulher. Criada na roça, fazia de tudo pra sustentar a casa. Lavavam trouxas e mais trouxas de roupa, socava arroz e café, buscava lenha, vendida aos feixes, fazia biscoito nas casas, não recusava nenhum tipo de serviço.


Ninguém entendia como uma mulher feita a Ceição, prendada e bonitona, podia carregar nas costas um tipo desengonçado e vagabundo que nem o Malaquias.
- Vai ver é o chamego dele – alguém dizia.
- Parece até feitiço... – completavam.
Fosse o que fosse, chamego ou feitiço, quanto mais a mulher dava duro, mais o marido mandriava. Agora, tinha viciado em beber, vivia escornado. Passava o dia no boteco, cada hora goderando bebida de um.
- Não faz nem pra pinga – comentaram.
- É, mas não pára de fazer filho.


Barriguda e pesadona, uma penca de crianças pra cuidar, fora a trabalheira de sempre, Ceição vira-e-mexe perdia a paciência com o imprestável do marido. Mas tinha pena dele, logo voltava às boas.


Um dia Malaquias veio vindo pela rua, encontrou a dona Zélia, que perguntou espantada:
- Que foi isso, Malaquias? Algum acidente?
- Mais ou menos.
- Atropelamento?
- Não, senhora.
- Então, como é que foi?
- A Ceição me deu um dinheiro ontem, diz-que andava desacoroçoada, me pediu pra comprar umas precisões, a senhora sabe. Arroz, café, feijão, essas coisa. A tempo da janta, ela pediu.
- E aí?
- Bom, aí, no caminho da venda, dei uma paradinha no boteco. Então, a senhora sabe como é.
- Como é o quê?
- O dinheiro ali, parece coisa que coça no bolso da gente.
- E você não resistiu, não é, Malaquias?
- É, sim senhora. Pedi uma, ofereci pros amigo, a gente foi indo, foi indo...
- ... Beberam o dinheiro todo.
- Isso também não, dona Zélia! Ainda sobrou um troco bem bom.
- E o que você fez com ele?
- Foi o que a Ceição me perguntou.
- E você
- Pelejei pra explicar, ela não quis compreender.
Virou onça, só vendo. Veio foi feito doida por riba de mim.
- Ela não quis compreender o quê, Malaquias?
- Que a gente encontra o companheiro, bebe, dá umas idéias meio doidas na cabeça...
- Afinal, o que fizeram com o troco?
- Ah, dona Zélia, queimamos tudo em foguete.

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