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O pão nosso de cada dia

Estava executando na região o Programa de Desenvolvimento da Zona da Mata, chamado Prodemata. Os técnicos do Governo viviam fazendo reunião com o pessoal das fazendas, lugarejos e povoados. Discutiam muito, trocavam experiências, iam aprendendo juntos.


Numa reunião, informaram que estava para chegar ao Estado uma remessa do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição, órgãos do Governo Federal. Disseram que havia possibilidade de o pessoal da região, considerado carente, receber parte dos gêneros.


Os técnicos começaram a discutir, a coisa logo pegou fogo. Um rapaz falou que aquilo era o maior absurdo, onde já se viu distribuir alimento de graça num lugar onde o povo vive da agricultura e produz para o próprio sustento? Uma professora condenou, em altos brados, o paternalismo do Governo. Um moço de fora cortou: - “Ora, a gente precisa ser prática. Se tem comida de graça, por que não aceita?” A tal professora trepou nas tamancas, quase ferra à unha com o rapaz.


Foi então que alguém deu a idéia de ouvir o pessoal do lugar, em vez de ficarem discutindo entre si. No meio do povo tinha um velhinho, pitando seu cigarro de palha, escutando tudo no maior silêncio. De olho vivo e orelha em pé, não perdia nada. Deram a palavra a ele, pediram sua opinião.


Ele olhou pros lados, limpou a garganta, coçou a barba. Custou a abrir a boca. Depois, foi falando, dum jeito meio encabulado:
   - Eu tava sossegado ali no meu canto, ponto atenção no falar de cada um. Vocês sabem como é. A gente é fraco de leitura, tem que tirar uma base com quem sabe mais, com quem teve mais condição. Me perdoa se eu falar alguma besteira, me desculpe qualquer despropósito. Mas o meu pensar é esse: ganhar o de comer assim de graça, isso é bom demais. É uma especialidade. Quem não gosta? Como lá diz: a gene é pobre, soberbo não, uai! Mas tem um porém.


Os moço e as mocinha da cidade, eles sabe ler e escrever. Sabe também falar bonito, tira isso o sustento deles em caso de precisão. E nós aqui da roça? Nossa caneta é a enxada. Então vem esse alimento do Governo. De graça, é especial, já falei. Numa comparação, é o venha-a-nós. Todo mundo fica feliz, alguém pode até achar que já é hora de encostar a canetazinha lá dele, a enxada...


Nesse ponto o velho parou. Todo mundo atento, em completo silêncio. Então o velhinho fez uma cara de dúvida, olhou para os companheiros e perguntou:
   - E se amanhã o venha-a-nós não vier mais, como é que fica o vosso reino?

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