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Pousada

Conhecer, mesmo, o tio Teodósio, não cheguei a conhecer não. Lembro de ouvir falar dele, já doente e meio caduco, lá no Patrimônio. Da estrada, na altura do açude, a gente avistava a sede, uns coqueiros altos na frente, muita janela, tudo grande demais pra um homem sem família. Pelo menos que a gente soubesse. Algum parente – uma sobrinha, parece – zelava dele. Viveu – e morreu – rodeado dos antigos empregados, a quem chamava “os crioulos”, como era costume naquele tempo.


Sistemático e turrão, este meu tio-bisavô tinha lá suas picardias. Diz o Zequinha Silveira (vem a ser seu sobrinho-neto) que tio Teodósio apreciava demais uma boiada. Mandou fazer um rancho ajeitado, logo na beira da estrada, ponto de pouso dos boiadeiros. Com fogão de trempe, tinha até cama, acho. Quando chegava boiadeiro nem era preciso pedir licença, falar em aluguel de pasto, nada disto. Bastava descer a tralha, escalar quem ia ficar de guarda e pronto. Daí a pouco, lá vinha o velho Teodósio bater uma prosa, contar caso, saber novidade. Apreciava aquilo. Demais.


O jeitão fidalgo dele, mais o gosto por conversa com viajante e boiadeiro, aquilo parece coisa que espalhava, vira e mexe aparecia gente pedindo pouso no Patrimônio. Diz o Zequinha Silveira que uma tarde, passava pouco do meio-dia, veio chegando um estranho. Abriu a porteira e gritou:
   - Ô de casa!
   - Ô de fora! – responderam na cozinha.
   O velho, vindo de dentro da casa, continuou a conversa, já no alpendre:
   - Vamos apear.
   - O senhor é que é o sô Teodósio Silveira?
   - Às suas ordens
   - Será que não podia me arrumar um pouso?


Antes de responder ele olhou para o céu, reparou no cavaleiro, não falou nada. Só pensou: - “ora, pois, onde se viu um homem taludo assim, pedindo pousada com o Sol nessa altura? Tão novo esperdiçando o tempo em vez de agir a vida?” Depois disse ao estranho: - “Com muito gosto. Se apeie”. Chamou Maria: “O moço aqui tá pedindo pouco. Esquenta água, arruma o quarto-da-sala. Quando a água ficar pronta, traz os modo”.


Não passou muito, lá vinha ela com a bacia, toalha alvejada, sabonete e bucha. Despejou a água, misturou com a mão, conferiu a temperatura e foi pra dentro levando a chaleira. Meio sem jeito, o visitante lavou os pés, o fazendeiro ali, acompanhando tudo.


O velho ofereceu café com quitanda, ele agradeceu tinha almoçando há poucas horas. Aí o dono da casa falou:
   - Seu quarto tá pronto. Pé lavado, se não aceita comer nada, então não faça cerimônia.
   - Tou fazendo cerimônia não senhor, sô Teodósio.
   - Faz favor, esteja a gosto.


Pegou o hóspede pelo braço, foi andando para o quarto, ele não tinha jeito de reagir. Tirou as botas, fechou a porta, espichou na cama. Sem nada para fazer, ficou olhando a poeira suspensa no facho de luz que vazava por um buraco no telhado. Lá fora, uma vaca berrava, o bezerro respondia o galo cantava, um passarinho esses barulhos da volta do dia. No alpendre, o velho vigiava. De vez em quando um pigarro, maneira de avisar que estava ali. “Eta maçada”, pensou o moço. Como é que havia de sair daquela enrascada?


Apurando os ouvidos, percebeu o fazendeiro levantando. Escutou quando ele descia a escadinha do alpendre fechava a cancela e saía. Pela festa da janela, viu o velho caminhar por um trilho beirando o curral e desaparecer no meio do mato, horta abaixo.


Ficou na espreita. Passado um bom pedaço, ouviu alguém assobiando. Abriu a porta do quarto com cuidado, saiu pé por pé e chamou:
   - Psiu! Ce trabalha aqui?
   - Trabalho, sim senhor.
   - Onde é que sô Teodósio foi?
   - Consertar o moinho.
   - Demora muito?
   - Uma meia hora, mais ou menos.
   - Quer ganhar uns cobres?
   - Depende. Fazendo o quê?
   - pegando meu cavalo e arreando bem depressa. Preciso cair fora enquanto é tempo.


Não passou muito, o animal estava arreado. Coração disparado, o pedidor de pouso calçou as botas, pegou o chapéu no cabide da sala, mal acreditava que conseguisse escapar. Afobado, deu uma boa gorjeta ao empregado, montou no cavalo e foi saindo na direção da porteira. Não via a hora de dar as costas praquela maldita fazenda.


Como se fosse uma assombração, tio Teodósio, com a cara mais séria deste mundo, brotou do meio de um assa-peixe e perguntou:
   - Já descansou que chega? Ainda é muito cedo, uai...


O forasteiro não tugiu nem mugiu. Esporeou o cavalo, pegou a estrada, ganhou o mundo.


Boiadeiros que dormiram no rancho, tempos depois, disseram que muito adiante de Paracatu, entrando já em Goiás, corria o caso de um velho sistemático, meio turrão, que vivia perto dum arraial chamado São João Batista.


O nome do velho, não sabia direito se era Teodoro ou Deodoro. Mas garantiam que ele vivia numa fazenda antiga, rodeada de coqueiros, cuidado por uns parentes e um casal de pretos.


Tio Teodósio escutava aquilo no maior contentamento.

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