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A Procissão do Miserere – Lenda de Mariana

Durante as sextas-feiras da Quaresma, da Igreja da Arquiconfraria de São Francisco do Cordão, saía uma procissão às 24 horas em direção à Igreja de São Francisco da Ordem Terceira da Penitência.


Era um cortejo formado de Irmãos falecidos e ninguém (vivo) podia assistir a esse macabro desfile, arriscando-se a quem tentasse à severa repreensão dos componentes.


Os moradores da Rua Nova ouviam dentro de casa, apavorados, os rumores da procissão cá fora, que era precedida por um grande crucifixo e dos braços de São Francisco, cercado em alas de Irmãos, que conduziam velas de cera acesas, (essas velas denominavam-se "brandões", devido talvez, à espessura de seu formato, assemelhando-se às tochas atuais, usadas pelas Irmandades).


Os residentes da Rua Nova (hoje "Dom Silvério"), por precaução ou medo jamais procuram observar a movimentação do préstito, contentando-se, somente, em ouvir os cânticos tétricos ou a lamentação lúgubre desses fiéis defuntos em peregrinação pelo mundo.


Todos conheciam e atestavam a realidade dessas procissões de almas às sextas-feiras da Quaresma, mas de perto ou de relance ninguém podia confirmar a existência real das mesmas.
Perdurava profundo mistério.


Os mais ousados moradores não tinham coragem de abrir a janela ou mesmo espiar pelas rótulas a passagem do macabro cortejo, sem dúvida alguma, aterrorizador para os vivos e apavorante para as crianças e as tímidas donzelas.


O fato existia na imaginação e no temor de todos os habitantes de Mariana, mas a prova real era impossível de concretizar-se, pois faltavam homens corajosos e destemidos para sair à rua, acompanhar a procissão e recolher os resultados positivos de tão estranha penitência dos mortos a que deram o nome de "Procissão do Miserere".


Alguns mais ousados tentaram observá-la de longe, contudo para desengano destes, nada viram a não ser a rua, de cuja calçada emergia extenso fogo-fátuo, que mais os desorientavam.


Finalmente, outros mais destemidos fortemente armados, tentaram impedir a marcha da procissão, intimando os componentes a dissolverem-se, o que não deu resultado, passando o cortejo incólume sob as balas dos ousados intimantes.


E estes, como loucos, depois desacordados, inconscientes, foram despertar à porta do cemitério mais próximo - o das Mercês.


Depois de várias tentativas inúteis, a população sossegou, contentando-se em ouvir e jamais espreitar a macabra procissão de almas, cujas alas se engrossavam à proporção dos anos vencidos.


Afinal já todos aceitavam aquelas manifestações noturnas como simples devoções dos Irmãos Franciscanos, que mesmo depois de mortos, lhe assistiam o direito de vir a este mundo, revivendo, em saudades, os velhos templos que tanto souberam amar e dignificar quando vivos.


E, assim, mais ninguém perturbou o desfile de penitentes, que continuou soturnamente anos a fio, indo e vindo da Arquiconfraria para a de São Francisco da Penitência.


Um fato, entretanto, aconteceu para arrepiar os cabelos:


Uma senhora viúva e respeitável macróbia, mudou-se para uma das casas da Rua Nova, pois tinham sido despejada de um casebre e repudiada por todos os moradores da Rua de São Gonçalo, onde tal mulher era tida como mexeriqueira das mais perigosas.


Falava o que sabia e o que ignorava. Era uma faladeira profissional e temível. Nada lhe escapava da língua ferina.


Pois bem, essa aberração feminina foi para a Rua Nova e pôs logo de início em polvorosa toda a via pública, transformando-a em plena praça de guerra fira, com insultos a todos os moradores e vizinhos.


Brigou com todo mundo e, incrível até com a polícia e autoridades, cujos segredos devassos ela bem conhecia e analisava com ênfase. Desafiou céu e terra. Certo ou errado, nada lhe acontecia.


Era o Diabo e figura de gente.


Isolada, finalmente, e sem ter mais com que travar relações, passou a espreitar até altas horas da madrugada a vida noturna os noctívagos inveterados.


Certa noite, depois de uma hora, madrugada escura e chuvosa, a velha gazeteira debruçada sobre a janela, olhava, despreocupadamente, a rua ensopada e escutava os ruídos da enxurrada no meio da calçada. Sem que esperasse surge a procissão do Miserere e um dos Irmãos, envergando hábito preto e de capuz, adiantando-se oferece-lhe uma vela.


A terrível mulher atirando-lhe insultos de baixo calão, recebe-a e deposita-a numa cama, voltando à janela para contemplar ao longe o retorno do desfile.


A volta, conservando-se no mesmo lugar, o Irmão exige a entrega da vela. A matreira mulher vai pressurosa ao quarto e ao invés da vela de cera, encontra uma ossada de defunto, constituída de uma canela ainda envolta em terra.


Alucinada, em gritos angustiosos, desperta os vizinhos, entrega o presente ao Irmão, que lhe fala em linguagem cavernosa e assombrada:


- "Mulher, guarda a sua língua e deixa a noite para os mortos. O sono dos vivos é o prelúdio da morte. Não seja curiosa. A vida alheia pertence a cada mortal e não à sua língua. Aguarde os seus breves dias para se ingressar nas nossas fileiras, nossa peregrinação de penitência que estamos cumprindo como castigo de nossos erros humanos.


Estamos nos purificando, por ordem divina, até chegar o dia feliz do nosso ingresso no Céu".


Passados dias morreu a velha mais faladeira da Rua Nova.


E a lenda aqui ficou, como no-la transmitiram os nossos coevos, muitos dos quais já descansaram na eternidade, felizes junto de Deus.


E quem, sabe, talvez integrando o desfile dos mortos, cuja lenda não deixa de ser vivida e comentada pela nossa imaginação, valendo-se como lição moral de nossos antepassados.


A procissão do Miserere existiu. Não podemos, entretanto, garantir se era de vivos ou de mortos.


E a famosa faladeira passou à história, com o nome de Maria Gabriela Pereira, cognominada: "Cocota de Todos os Santos".


Bibliografia
SANTOS, Waldemar de Moura. Lendas Marianenses. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1967

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