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A Caveira de Burro - Lenda de Mariana

O período da luz de querosene foi o mais extenso, durante o qual verificaram-se acontecimentos marcantes na evolução social da célebre comuna.


Essa fase julgada como idade obscura, muito embora outros a considerassem definitiva e, portanto, prejudicial ao progresso social geral, marcou, sem dúvida, a era dos maiores empreendimentos de real importância, que muito refletiu em toda a Capitania das Minas Gerais.


Dentro desse período assinalamos da Diocese e a entrada do primeiro Bispo, Dom Frei Manoel da Cruz, seguindo-se a fundação do Seminário- Menor, a chegada das primeiras Irmãs de Caridade e a criação do Colégio Providência.


Verificou-se, assim, o início do ciclo mais notável que a Vila Leal experimentou, projetando-se com mais evidência nos anais de sua imprensa, que editou os primeiros jornais de Minas Gerais: "A Estrela Marianense", "O Romano" e o "Bom Ladrão", bem como pela organização judiciária, que assegurou a primazia e o princípio da autoridade civil nas Capitanias das Minas.


Considerando avançado o progresso em suas bases vitais para dar ao povo a lídima garantia de sua felicidade, dentro da ordem e da paz coletiva, ainda ameaçada pela revolta dos "quintos atrasados", os dirigentes políticos concentraram todos os esforços no sentido de manter a concórdia e a unidade popular, a fim de evitar graves atritos de funestas consequências para o regime.


A municipalidade mandou abrir novas ruas e estendeu a rede de água, captando os melhores mananciais, de onde o precioso líquido pudesse chegar às residências das principais vias.


A iluminação pública foi substituída pelo gás acetileno, ou luz de carbureto, que produziu efeito deslumbrante, festiva claridade, animando a população a transitar sem receio por toda a Vila, que recebeu com vibração tão útil melhoramento.


Causou tal iniciativa grande sucesso a se movimentar melhor durante a noite. Já se viam, por toda parte, grupos de famílias palestrando animadamente às portas de suas residências, onde os vizinhos se reuniam para estreitar amizades e comentar os fatos recentes da evolução social, que se operava a cada dia.


Agora, a grande atração. A mocidade de ambos os sexos se expandia largamente à luz claríssima do bendito carbureto, encontrando o amor que dormitava ainda nas fuligens do azeite e do querosene das épocas passadas.


As setas de Cupido não haviam ainda penetrado nos corações jovens. E precisava que se estabelecesse o idílio para que desses encontros amorosos se concretizasse a união salutar e justa, de cujo vínculo nascem famílias e pátrias.


Pois bem, o gás acetileno obteve essa glória, no poético rincão do Carmo, em marcando o início da verdadeira era amorosa do amor noturno, até então desconhecido. Ensinou a mocidade criada como urso a conhecer as belas farras e saraus, a serenata, os assaltos sentimentais, o brilho, a vibração e a força que empolgam corações apaixonados.


Nasceu o idealismo, a música e a poesia!...


E todo esse sentimentalismo, então sepultado, era tido como pecado e grande crime, incutido no espírito dos jovens pela sugestão e educação de mentalidades tacanha, que viam no amor uma derrota e não uma vitória.


Para esses catões atrofiados pela doutrina fradesca, o que era lícito e praticamente certo, não passava dos atentados à moral, em defloramentos que se multiplicavam e cujos frutos, diariamente, eram expostos às portas de famílias opulentas e até mesmo nos pátios internos da residência episcopal e do clero.


À luz do carbureto luminoso, cresceu, então, uma sociedade renovadora, que, não satisfeita almejava a luz elétrica, para completar a sua felicidade, comentando todos, com segurança, que a mesma não tardaria a chegar.


A era promissora avizinhava-se, com a chegada de melhores elementos, que cogitavam do futuro, do célebre rincão do sonho e do misticismo, para dar-lhe a última etapa através da iluminação moderna da luz elétrica.


A grande lenda dessa terceira fase de iluminação pública reside exatamente no pessimismo da população, com vistas ao futuro da nova cidade a ser criada para receber o bispo primeiro. Falava-se que Mariana, embora primeira cidade de Minas, cairia no ostracismo e seria relegada, esquecida, abandonada, logo que a sede do Governo das Capitanias se transferisse para outra localidade.


A população em peso, em plebiscito, optou pela permanência do bispo cristão, deixando que o poder civil se transferisse para onde quisesse.


Preferia perde-lo, conservando com orgulho o "Áureo Trono" que mais tarde seria a maior glória para a cidade.


Esta questão de mudanças provocou celeuma, discussões, controvérsias, dividindo-se a população em prós e contras; degenerando em descalabros - ou mal sem remédio, como diziam. A Vila deu marcha à ré.


Um grande desânimo apoderou-se de todos e, como um cataclisma, abafou o entusiasmo e o trabalho profícuo de todos os que batalhavam para o progresso de Mariana.


Os mais céticos e revoltados, em concentrações populares, pregavam abertamente a luta armada, que não chegou a concretizar-se, decido è intervenção dos Missionários Franciscanos, que foram aqui chamados para pacificar o povo. Os mais ponderados, - macróbios respeitáveis, ainda pandos de superstições antigas - analisando a desdita, o descrédito e a perseguição injusta aos brios e à paciência da gente marianense, profetizaram que uma praga horrível pairava sobre a população.


Nada mais aqui vingaria com êxito, porque uma "Caveira de Burro", com maldição dos frades, estava enterrada em nosso solo, cujo local era mister descobrir, a fim de ser evitado o arrasamento da vila pela peste, fogo e guerra.


Para conjurar o mal, propuseram a ereção de três Cruzeiros, nos pontos culminantes da localidade: São Pedro, São Gonçalo e Morro do Cruzeiro.


Neste último topo, entre quatro coqueiros, erigiram, em cedro, a maior cruz. Nas escavações feitas para construção da capelinha, que existia em frente ao Cruzeiro, encontraram os pedreiros a "Caveira de Burro", que foi identificada como símbolo da praga que frades piratas, expulsos das Minas, rogaram sobre Mariana, amaldiçoando-a "In Aeternum".


Dentro de alguns anos, depois de muitas lutas, foi-se o poder civil, aqui permanecendo o poder espiritual, simbolizando o exercício pelo bispo, que inaugurou a sede do "Áureo Trono Episcopal" em Mariana.


Nos nossos dias, ainda perpetuam todos os acontecimentos passados, a grande cruz de cimento-armado, que se ergue majestosa por entre o farfalhar de dois coqueiros centenários.


Lá no alto do Morro do Cruzeiro está o símbolo do Cristianismo, como marco do Ano Santo de 1950.


É o "Cruzeiro Luminoso" inaugurado festivamente e que se acha às escuras há bastante tempo, sem que a envernizada comissão se digne a promover outra ligação para que, novamente, volte os fulgores à cruz.


Essa decisão urgente, acima de todos os encômios, delineará nos corações bem formados a perspectiva de um grande ato. Meritório, acima de tudo. Mas, quando a teremos?... Quem irá arrancar a nova caveira?


Praza aos céus que tal aconteça, pois será a expulsão do nosso meio da Caveira do Diabo, que se parece com tanta gente falha de sentimentos nobres e elevados!


... e o Cruzeiro Luminoso do Ano Santo de 50 continua apagado, infelizmente apagado...


Bibliografia
SANTOS, Waldemar de Moura. Lendas Marianenses. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1967

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