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A Capela do Bom Jesus - Lenda de Ouro Preto

Nos primeiros tempos da colonização, atraído pela fama das riquezas auríferas de Minas, um rapaz de Braga, Portugal, resolveu embarcar para o Brasil a fim de enriquecer, como tantos outros.

 

Na hora da partida recebeu de sua mãe, entre lágrimas, uma pequena imagem do Senhor Bom Jesus, para que o protegesse. O filho, ao guardá-la, jurou que assim que pudesse, lhe construiria uma capela, para veneração pública.

 

Chegando às minas de Ouro Preto, o novo faiscador foi feliz, conseguindo garimpar grossas pepitas de ouro, mas esqueceu-se da promessa que fizera, em Braga, de construir a capela para o santo seu protetor. Gastava as riquezas que lhe vinham às mãos com as mulheres de má conduta que enxameavam por ali. Tanta fez que caiu na miséria e acabou doente, arrastando-se pela beirada dos córregos, sem forças para neles mergulhar e faiscar.

 

Certa noite, porém, já desanimado, encontrou-se com um sujeito bem apessoado que o convidou a visitar umas casas suspeitas, onde havia boa pinga e melhores mulheres.

 

Depois de algumas horas nessa alegre companhia, o desconhecido mostrou-lhe os pés de pato, disse quem era e propôs-lhe a compra da alma em troca de vinte anos de saúde, amores e riquezas.


O rapaz aceitou o ajuste e este pacto ficou firmado entre ambos: vinte anos depois, à boca da noite, o Demônio voltaria a cobrar a divida que acabava de ser contraída.

 

Efetivamente, o rapaz entrou numa fase de assombrosa prosperidade. Não havia barranca em que ele metesse a bateia que não desse centenas de oitavas de ouro, riquezas que gastava com as mulheres lindas que vinham do Reino.

 

Foram vinte anos de opulência e prazeres que o fizeram esquecer-se do trato feito com o Sujo. Mas este, na véspera do dia marcado para o levar, avisou-o de que se aprontasse para o dia seguinte.

 

O rapaz, caindo tardiamente em si, assustou-se e tratou de ganhar tempo. Respondeu ao Diabo que jurara construir uma capelinha para o Senhor Bom Jesus, promessa que gozava de preferência, não só por quem se tratava, como também por ser anterior ao pacto.

 

Ora, o Tinhoso que estava a par da jurisprudência que considera prescritos os direitos infernais, quando não se executam na data fixada, prontificou-se a construir ele mesmo, aquela noite, a ermida onde se entronizasse a imagem do Bom Jesus.


No primeiro terreno baldio que encontrou ali perto, o Capeta construiu, com alucinante rapidez, uma capelinha.


Quando ela recebeu os últimos retoques, o português correu à casa e voltou com a imagem do Senhor Bom Jesus apertada ao coração e esconjurando o Diabo!

 

Este, desesperado, ficou furioso e ia derrubar a capelinha quando o rapaz deu um salto para dentro dela e colocou o Bom Jesus no altar, perdendo o Demônio a posse da construção.


O antigo renegado arrependeu-se da vida que levara até ali e entrou no caminho da penitência, dormindo na pedra fria que calçava o chão da capelinha, da qual se fez zelador durante os muitos anos que ainda viveu, morrendo em cheiro de santidade.

 

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