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A lenda dos diamantes - Lenda de Diamantina

Duas forças antagônicas iam entrar em choque – a civilização e a barbárie. Venceria por certo aquela cuja ambição vinha, em nome da cultura, arcabuzando, abatendo, para dominar e escravizar.


A isto chamavam civilizar o gentio.


O grito de guerra, partido das inúbias do alto do Ibitira, conclamou a tribo em defesa da taba, na luta pela conservação das ibicoaras e igaçabas, relicários que guardavam as cinzas de seus caciques e na preservação dos altares de seus deuses.

         

     A peleja travou-se rude e feroz entre o invasor e o nativo. Cada palmo de ter conquistada recebia o marco de uma vida extinta. Melhor armados, trazendo o terror na boca de seus arcabuzes, iam aos poucos se infiltrando os aventureiros, procurando trazer para seu convívio os filhos das selvas, quebrando o ritmo daquelas vidas em plena natureza, para sujeitá-las às fortes cadeias da escravidão. Pela superioridade racial arrogavam-se o direito de subjugar a ferro e fogo aqueles que só tinham a terra como berço, o céu por teto e abusavam da liberdade de viver como as feras e as aves.

        

      Os naturais, conhecedores das ações praticadas pelos civilizados contra outras tribos, lutavam com denodo pelos civilizados contra outras tribos, lutavam com denodo pela manutenção de seus domínios. As incursões ao campo adversário sucediam-se amiúde com emboscadas, surpreendendo os invasores, no afã de expulsá-los, mas a cobiça do ouro prendia-os ao solo.

 

Presos estavam também os índios pelas raízes da secular acaiaca, que dominava a colina, árvore sagrada da tribo dos puris.

 

Os bandeirantes, sempre hostilizados e inquietos, deliberaram de vez exterminá-los, a fim de que pudessem mansamente se locupletar com o metal que a civilização européia exigia, sequiosa, para seu luxo e conforto. E as flechas desferidas lá do alto, com destino ao coração do povoado nascente, eram respondidas com tiros de arcabuzes.

 

A intranqüilidade pairava nos dois acampamentos, ora um ataque furtivo, incêndio, uma surtida, tudo sempre de surpresa, com sacrifícios para ambos. Debaixo da frondosa árvore continuavam os preparativos para um grande ataque, mas Cururupeba, o bravo e intrépido chefe determinara que logo após as núpcias de Cajubi com Iepipo, jovem e audaz guerreiro, a luta seria de vida ou de morte.

 

Como nos grandes dramas da História sempre aparece um traidor, o mameluco Tomás Bueno, cognominado Peropiranga (branco e vermelho), em cujas veias corria sangue europeu e indígena, traiu os silvícolas. Conhecendo a veneração que os índios votavam à peroba sagrada fez ver aos bandeirantes que eles jamais seriam os donos pacíficos daquela região enquanto a árvore protegesse com sua sombra a descendência dos caciques. Então os bandeirantes resolveram derrubá-la.

 

A ocasião propícia era chegada. A tribo ia retirar-se na próxima lua cheia para as margens do Ipiacica, onde festejaria com uma grande tabira os esponsais de Cajubi.

 

Aproveitando a ocasião, deveriam os invasores derrubar a grande árvore porque os indígenas acreditavam que seu viço exuberância lhes emprestava força e vigor para vencer o supremo inimigo, como sempre venceram nas pugnas que travaram. Com a cautela de criminoso, subiram o Ibitira em busca da vitória pela traição.

 

Os machados, penetrando no tronco secular, tiravam sons que as quebradas das serras repetiam. A majestosa acaiaca, deusa da tribo, recebendo tantas e tão profundas machadadas, tombou para nunca mais levantar-se.

 

Para os puris, aqueles ramos de folhagens eram mais do que uma arquitetônica catedral, mais do que uma cidade, por que se o engenho humano pode erguer outros, aquela árvore, dádiva da natureza aos Puris, representava a criação de um ente supremo que jamais poderia ser substituído. Era a crença, o ideal, o símbolo que unia a tribo. Sua sombra abrigava o velho guerreiro encanecido na luta e cobria o berço do recém-nascido. Era sob a sua copa que se tomavam às deliberações, mesmo que para realizá-lo fosse preciso o sacrifício de todos.

 

Fora a acaiaca que, nova Arca de Noé, segundo a tradição indígena, recebera em seus galhos, erguidos para o alto, o casal povoador, quando o Jequitinhonha, saindo do seu leito, crescendo e avolumando-se com os seus afluentes, numa fúria destruidora, inundou todas as regiões e arrastou na sua voragem os seres que povoavam a terra.Só não ultrapassou a copa sagrada, porque nela se haviam abrigado os pais da tribo dos Puris.

 

Terminadas as danças e cerimônias da união de Cajubi com Iepipo, os índios voltaram para a sua taba. Esperava-os ali uma dolorosa surpresa. Lançado ao solo, confundindo-se com o pó, lá estava deitado o ídolo. Então foram tomados de verdadeira fúria, tanto mais que Piracaçu, o pajé, erguendo os braços magros, proclamava com palavras inspiradoras o fim da tribo.

 

E isso deveria acontecer. Os membros da tribo, até aí pacíficos, deixaram de viver em harmonia, separados pela desinteligência e pela insubmissão. Faltava-lhes acaiaca, o elo que os prendia à vida. Sobreveio à luta fratricida e eles já não puderam defender-se do inimigo comum, invasor, sedento de ouro.

 

Os poucos sobreviventes fugiram espavoridos e se dispersaram. Iepipo, a esperança dos puris, jazia entre os guerreiros mortos e Cajubi, a flor de manacá, desaparecera, levando no coração o ódio e a vingança.

 

Piracaçu, o velho pajé, deitou um frio olhar sobre o que restava da tribo; galgando o tronco e a ramada da árvore  caída, voltou-se para o tosco acampamento dos bandeirantes e, fixando-lhes a vista, chispando de ódio e fogo, lançou sobre a povoação que nascia eterna maldição.

 

O céu escureceu prenunciando borrasca e dali a pouco era iluminado pelas labaredas que subiam da árvore incendiada, O fogo, ateado pela mão tremula da Piracaçu, já a envolvia toda. No meio das chamas, no ponto mais alto da árvore morta, erguia-se a figura serena do pajé. Relâmpagos começaram a riscar a noite, seguidos de espantosos trovões. Formou-se um cataclisma que convulsionou a superfície da terra, fendendo-a, rasgando-a. A água desabou torrencialmente e um tremendo estampido pôs termo a tudo, sepultando os restos da deusa sagrada dos Puris.

 

Seus carvões incandescentes, atirados por toda parte e semeados por serras e vales, transformaram-se em diamantes.

 

 

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