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A mulher seca do Rosário

Naquele dia nublado a aula acabou mais cedo, pois havia morrido um senhor importante da alta sociedade. Um grupo de meninos e meninas resolveu ir até o Rosário ver a mulher seca.


Umas das meninas, por sinal muito medrosa, queria ir para casa, mas não podia chegar só, sem os irmãos. Foi obrigada a acompanhar o grupo a qualquer preço. E lá se foram ladeira acima rumo ao cemitério no fundo da capelinha. A igreja estava fechada, mas o mais esperto de todos subiu na grade e abriu o portão lateral. Sorrateiramente entraram e foram pulando as sepulturas até chegar no porão da igreja. Este era escuro e cheio de quinquilharias, inclusive caveiras. Um, ainda mais corajoso, adentrou metros e gritou:


- Mulher seca, venha cá!

 


O eco respondeu: Mulher seca, venha cá! Venha cá! Venha cá! Todos com os olhos arregalados afastaram um pouco e ficaram em posição de retirada. O motivo de tamanha curiosidade era devido à estória que contava acerca da dita cuja. Havia uma senhora portuguesa que morava numa fazenda retirada do arraial. Nos fundos dos seus domínios passava um rio caudaloso, repleto de peixes graúdos. Era no tempo da escravidão e ela possuía muitos escravos que cuidavam dos afazeres domésticos, das criações e das imensas roças de milho e feijão. Os escravos cuidavam de tudo, mas nas horas vagas gostavam de garimpar na cabeceira do grande rio.

 


Numa dessas garimpagens, Damião, um escravo esperto e trabalhador, encontrou uma enorme pepita de ouro. Invejosos, os seus companheiros cresceram o olho e queriam que Damião dividisse com todos. Ele não achou justo, pois pretendia comprar a sua tão sonhada alforria e também a da sua família. Damião escondeu muito bem escondido seu achado e continuou seu trabalho como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, um companheiro invejoso foi até a casa grande e contou a sinhá o ocorrido. A fazendeira mandou chamar o capataz a fim de tirar a limpo toda aquela história. Este chamou Damião e tentou a qualquer preço descobrir onde ele havia escondido o tesouro.

 


Não conseguindo nada, perguntou a sinhá o que fazer. Como esta era muito má, surgeriu que ele abrisse um formigueiro, amarrasse o escravo pelas mãos e pés e o colocasse sem roupa, assentado Sobre as formigas. Assim fez o capataz. Damião gritou e implorou que o tirassem dali e diria aonde havia escondido a joia. Tão logo o tiraram, ele mostrou o esconderijo e foi para a salmoura curar as picadas das formigas cabeçudas. A sinhá então apurou o dinheiro da pepita, ficando ainda mais rica.

 


Pouco tempo depois caiu doente e apesar de todos os esforços ela não recuperou mais a saúde. Acabou morrendo deixando os baús abarrotados de patacas de ouro. Ainda em vida, via as pessoas entrarem em sua casa e roubarem os seus tesouros, inclusive os viajantes que passavam por aquelas redondezas. Tão logo morreu, foi enterrada no Rosário. Conta-se que no outro dia bem cedinho o corpo estava sobre a terra. O coveiro estranhou aquilo, contou ao vigário o acontecido e este mandou que o enterrasse novamente. Outra vez, aconteceu a mesma coisa. O coveiro, então, deixou que o seu corpo fosse secando por sobre a terra, que recusou recolher em seu seio alguém que em vida só soube fazer maldade e ser injusta com os mais sofridos.

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