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A Missa das Almas - Lenda de São João del-Rei

A veneranda senhora Virgínia Cabral despertou de seu profundo sono, com as conhecidas badaladas do sino da Matriz de N.S. do Pilar, chamando os fiéis para o tradicional oficio religioso denominado “Missa das Almas”.  –“Quê! Já 5 horas?” – E, sem consultar o relógio, ainda sonolenta e tiritando de frio, vestiu às pressas sua eterna saia preta de viúva, passou o xale em volta dos ombros e rumou para a igreja.

 


Na sua miopia de octogenária, não reparou nas feições dos que lá se encontravam, mas percebeu que o templo se achava repleto e o padre, no altar-mor, se movia de um para outro lado com tal leveza como se fosse feito de fumaça. O rosário ia correndo lentamente entre os seus velhos dedos descarnados, os seus olhos se perdiam num êxtase beatífico ante a imagem da Virgem, quando ouviu o relógio da torre bater horas. Começou mentalmente a contá-las. Céus, não estaria enganada?! – Quatro... cinco... seis... sete... Sentiu tremer-lhe todo o corpo. Oito... nove... E quando soaram as doze horas – doze horas da noite e não do dia – como por encanto, tudo desapareceu: padre, sacristão, fiéis, - as luzes se apagaram e as portas se fecharam por si!...

 


Em a nave imensa, um silêncio de túmulo! Então, presa naquele recinto solitário, em plena treva, e compreendendo, afinal, que participara de um ofício celebrado e assistido por mortos, tomada de indescritível pavor, rolou pesadamente ao solo, desacordada...

 


E quando, no dia seguinte, o sacristão abriu a igreja, para a costumeira Missa das Almas, d. Virgínia continuava ali, junto à porta principal, por onde certamente procurara fugir, lívida como um cadáver, ainda sem sentidos, sobre a frialdade dos ladrilhos...

 

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