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Rui Mourão - Setembro 2006

  • Rui Mourão - Divulgação

A espera foi grande. Meses a fio, num trabalho contínuo e árduo na busca de reunir e organizar todo o acervo, de maneira a valorizar cada peça e seus significados mais sublimes. Inaugurado em 1944, pelo então presidente Getúlio Vargas, para abrigar os restos mortais dos inconfidentes, trazidos da África, o Museu da Inconfidência, após a reabertura em 22 de agosto, disponibiliza aos visitantes uma verdadeira viagem à história de Ouro Preto e ao período da Inconfidência Mineira. Com seu projeto inovador, este "colosso" da história de Minas ampliou seu foco: a evolução de Vila Rica também está exposta em suas salas. Para falar do novo projeto museológico e de outros detalhes, o Portal Descubraminas conversou com o diretor Rui Mourão. Enfim, foi reaberto o Museu da Inconfidência!


Descubraminas: Como foi formado o acervo do Museu da Inconfidência?
Rui Mourão:
As primeiras peças chegadas foram os restos mortais dos participantes da conspiração de 1789, mandados trazer pelo governo para criar o Panteão dos Inconfidentes. Ao ordenar que o IPHAN organizasse o Museu, para completar o Panteão, ocupando a totalidade da Casa de Câmara e Cadeia, ele encaminhou para cá, tirados do Arquivo Histórico Nacional, o 7º volume dos Autos de Devassa da Inconfidência e duas traves da forca que funcionou no Largo da Lampadosa, no Rio de Janeiro, na qual ocorreu o sacrifício de Tiradentes.


No momento de constituição do órgão, conseguiu-se a transferência de obras de arte e objetos sacros que estavam sendo recolhidos na arquidiocese de Mariana por Dom Helvécio, que temia a ocorrência de furtos em paróquias desprotegidas do interior. Em seguida, adquiriu-se parte do acervo do Instituto Histórico de Ouro Preto, que fora constituído por Vicente Raciopi e muitas outras compras se realizaram, com o avançar dos anos, até com a ajuda de Antônio Joaquim de Almeida, diretor do Museu do Ouro, de Sabará.


Na minha gestão, incorporei a biblioteca do historiador Tarquino Barbosa de Souza, que completou o importante núcleo já existente na casa, organizado por Rodrigo Mello Franco de Andrade; trouxe de Montevidéu, no Uruguai, o acervo musical que havia sido formado por Francisco Curt Lange, o descobridor da nossa música colonial, e, proveniente de uma casa de leilões de Londres, a Sothbis, chegaram os documentos referentes ao processo dos réus eclesiásticos da Inconfidência, que haviam sido recolhidos, no século XVIII a Portugal, pela rainha D. Maria I.


DM. O Museu ainda adquire peças para complementar seu acervo?
R.M.
Agora, no momento da reforma, algumas incorporações, em número limitado foram feitas. Através de doações e compras. Estamos sempre atentos para o que aparece, sendo oferecido para negócio. Se a peça é significativa, fazemos tudo para trazê-la para dentro do acervo.


DM. Como a organização estratégica do acervo pode contribuir para ampliar o olhar antropológico e ao mesmo tempo mostrar a força histórica da Inconfidência Mineira?
R.M.
Uma organização de sentido didático, como a que se procurou realizar agora, contribui sem dúvida para esse resultado. Outra providência de inegável resultado é a apresentação das peças valorizadas por meio de vitrinas. Elas ganham destaque imediato, se mostram com grande presença e dignidade. Um sistema de iluminação adequado, evidentemente, completa o trabalho realizado com essa intenção.


DM. Existem peças que não fazem parte deste contexto. Qual foi o critério para que elas compusessem o acervo?
R.M.
A mudança da filosofia da exposição fez com que todas as peças fossem incorporadas pelo contexto histórico da conspiração. O projeto museológico, que foi entregue ao técnico Pierre Catel para arrumação, unificou o estudo da Inconfidência ao relacioná-lo com Vila Rica, ao entender que o movimento político não teria existido se não fosse o núcleo urbano criado junto à mineração - aqui é que surgiu um grupo de pessoas que não tinha compromisso com a economia dos grandes proprietários de terra, conservadores por excelência. Os trabalhadores autônomos, os artistas e artífices, os padres, os militares, os burocratas, os pequenos proprietários e pequenos comerciantes - aquilo que viria no futuro a constituir a classe média - é que teve massa no futuro para pensar na libertação do país. Como conseqüência, podemos dizer que tudo o que seja sinal da evolução de Vila Rica está rigorosamente relacionado com o episódio da história mineira que levou Tiradentes à forca.


DM. Desde o início, as peças do Museu da Inconfidência foram dispostas de forma decorativa. Com a reabertura elas foram subdivididas em áreas. Qual o critério estabelecido para a divisão das obras em salas temáticas?
R.M.
O museu anterior teve, sem dúvida, ênfase no decorativo, mas nele existiu também o primeiro pavimento, setores com temática definida. As antigas salas da construção civil, da luminária ou das relíquias da Inconfidência foram comprovações disso. Agora, sem dúvida, a modificação que se fez, representa a consagração do princípio da organização temática de todo o acervo. A mostra foi dividida em dois segmentos bem marcados. No primeiro piso, está sendo apresentada a infraestrutura da evolução econômico-social de Vila Rica, através das seguintes salas temáticas: Das origens, Construção (sistemas de construção civil), Transportes, Mineração, Inconfidência, Panteão, Império, Vida Social. No segundo piso, o que o visitante vai encontrar é a superestrutura da criação artística, no conjunto das seguintes salas: Arte e Igreja, Triunfo Eucarístico, Associações Leigas, Oratórios, Aleijadinho, Mobiliário (dois espaços), Athaíde, Pintura e Escultura.


DM. O que o atual projeto museológico tem de inovador?
R.M.
Com relação à antiga exposição, a inovação, pode-se dizer, é completa. Conseguimos dar solução a dois problemas fundamentais, oferecendo nova perspectiva para o estudo da Inconfidência. O Panteão dos Inconfidentes acusava uma grave deformação de origem. Constituído dentro do Estado Novo, ele sofreu influência do Integralismo. As personalidades que ali se encontram no seu lugar de repouso definitivo achou-se desvinculadas do contexto social em que viveram. São figuras idealizadas e intemporais. A criação da sala de mineração é que deu perspectiva para que eles possam ser entendidos como pessoas de carne e osso, que viveram as circunstâncias reais do seu tempo. Considerada no seu todo, podemos dizer que a instituição deixou de ser Museu sobre a civilização mineira, considerada em seu sentido mais amplo e difuso, para ser agora sim, de fato, um Museu da Inconfidência.


Se deixarmos de lado essas considerações, que dizem respeito ao projeto museológico, impõe-se a verificação do caráter inovador, em termos nacionais, do projeto museográfico, o da arrumação espacial, da apresentação dos objetos, do agenciamento dos espaços, da iluminação ambiental e da iluminação de vitrines. A beleza geral da exposição e ao mesmo tempo a afirmação da monumentalidade do circuito, que explicita a monumentalidade do prédio da Casa de Câmara e Cadeia são resultados muito novos que devem ser meditados pelos especialistas.


DM. Com a reabertura, o Museu da Inconfidência adotou recursos multimídia para orientação dos visitantes?
R.M.
Estão sendo confeccionados três quiosques multimídia que virão complementar as informações das salas Das Origens, Império e Inconfidência. Eles não ficaram prontos para a inauguração porque a equipe encarregada de produzi-los, ocupada com outro trabalho, só agora ficou disponível. Vamos ter que esperar um bom espaço de tempo para ter essa parte concluída.


DM. O Museu conta com guias especializados para acompanhar os visitantes e proporcionar-lhes uma reflexão histórica sobre o período da Inconfidência?
R.M.
O setor pedagógico é que se encarrega das visitas guiadas, que dependem de prévio agendamento.


DM. Como está o fluxo de visitantes ao Museu?
R.M.
Está intenso, principalmente devido à expectativa que se criou com os meses em que permanecemos fechados, para reforma, e com a grande cobertura jornalística que passou a ser feita pelos meios de comunicação, depois da reabertura.


DM. Qual o percentual de turistas de outros lugares do Brasil e do exterior?
R.M.
A estatística que poderia nos informar com exatidão o que ocorre neste momento ainda não foi feita. Podemos dizer é que o número de visitantes tanto de brasileiros de outras cidades como de estrangeiros tem sido expressivo. Estamos com a perspectiva de receber grupos prestigiosos. A diretora do Museu Histórico Nacional anunciou que virá acompanhada de todo o seu corpo técnico e, ainda em setembro, receberemos Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca de São Paulo, que chegará com vinte e seis pessoas de sua equipe.


DM. Profissionais do trade turístico não consideram o valor cobrado para visitação acessível (R$6). A administração prevê algum projeto que permita entradas gratuitas ao Museu?

R.M.
Estudantes e representantes da terceira idade contam com ingresso reduzido pela metade. Os escolares do município que comparecem em excurssões gozam de franquia absoluta em qualquer dia da semana e, aos domingos, é a população inteira da cidade que conta com esse privilégio.


DM. Para o senhor, o que o Museu da Inconfidência representa para a história de Minas Gerais e do Brasil?
R.M.
O Inconfidência ilumina um dos fatos mais importantes da história mineira e brasileira. Conhecê-lo é receber um banho de civilidade. Podendo ser considerado na sua totalidade como um panteão, constitui um monumento de interesse fundamental da nação.

 

 

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