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Jochen Volz - Dezembro 2006

  • Brumadinho - Jochen Volz - Divanildo Marques

Um lugar instigante, envolto a uma paisagem deslumbrante e jardins projetados por Burle Marx. Este é o Inhotim Centro de Arte Contemporânea, localizado no município de Brumadinho. O nome do Museu faz referência ao antigo proprietário das terras onde foi erguida esta referência da arte moderna. O fazendeiro, Senhor Tim, logo viu sua alcunha ser reduzida à "Nhô Tim". E assim, ficaram conhecidas as terras do saudoso latifundiário. O crítico de arte alemão Jochen Volz, há dois anos curador do Inhotim, revelou ao Descubraminas as novas diretrizes e a recente infra-estrutura do Centro que, a partir de agora, recebe e mostra ao grande público o que a arte contemporânea tem de melhor.


Descubraminas: Como aconteceu o convite para ser um dos curadores do Inhotim?
Jochen Volz:
Eu trabalhei em outras instituições na Alemanha e me mudei para Belo Horizonte por motivos pessoais. Quando cheguei, fui convidado pelo Bernardo Paz para fazer parte da curadoria de 2004 e depois, me tornei um dos curadores.


DM.: Antes, a instituição era conhecida como Centro de Arte Contemporânea Inhotim (CACI). Com a reformulação foi adotado apenas Inhotim. A que se deve esta mudança?
J.V.:
Foi uma longa discussão entre os envolvidos no projeto. Na verdade, ‘CACI' não significa muita coisa - para quem não sabe que significa Centro de Arte Contemporânea Inhotim, esta sigla não diz nada. Nós pensamos em criar um novo destino. O Centro tem um nome: Inhotim. Nós não mudamos o nome, nós o invertermos. O foco agora é Inhotim Centro de Arte Contemporânea, e vamos evitar a sigla.


DM.: Como critico de arte, como você avalia a disposição das galerias do Inhotim?
J.V.:
É uma questão muito difícil, até porque eu também sou um dos curadores. Tentando ver isto com um olhar mais objetivo, há momentos muito fortes na exposição, que são um conjunto de artistas-chave - brasileiros e internacionais. Eles estão num conjunto bem fechado, há muita interação entre os trabalhos.


DM.: O Centro de Arte Contemporânea iniciou suas atividades em 2004. Por que somente dois anos depois, em outubro deste ano, foi aberto ao grande público?
J.V.:
A abertura do Inhotim, em 2004, não foi pensada detalhadamente. Para abrir o Museu ao público necessitava-se de uma infra-estrutura bem maior do que todos imaginavam no começo. Não é tão simples: você tem algo a mostrar e abre as portas! Não funciona assim. Você precisa de um atendimento ao visitante, você precisa de monitores que auxiliem na visitação e também, tem a questão da distância.


Então sem ter um restaurante, uma lanchonete, fica difícil receber as pessoas para passar um dia no museu. Na verdade, o Inhotim não foi aberto somente agora - ele está aberto desde setembro de 2005. Mas tinha o agendamento. Os visitantes que iam ao Museu faziam o agendamento e uma visita guiada. Este foi o primeiro caminho que encontramos para atender a visitação, sem a infra-estrutura adequada.


DM.: Fale sobre a infra-estrutura do Inhotim.
J.V.:
Temos um bistrô e uma lanchonete. Em relação a outros itens como hospedagem, atualmente, estamos completamente dependentes da estrutura de Brumadinho.


DM.: Como funcionam as visitas temáticas e guiadas ao Inhotim?
J.V.:
Oferecemos dois tipos de visitação, dentro do nosso programa educativo. As visitas guiadas, normalmente são grupos que agendam e, dependendo do foco e interesse, preparamos uma visita guiada de acordo com o que o grupo optar. Esta visita pode ter o foco no meio ambiente ou nas galerias, ou ainda mais temática, tipo uma visita guiada no prédio do Cido Meireles e no Tunga, se for do interesse do grupo aprender um pouco mais sobre estes nomes-chave da arte brasileira.


Normalmente, a maioria das pessoas quer visitar e conhecer tudo! Leva cerca de 2 horas e meia. Mas a visita temática é uma proposta grátis, que oferecemos três vezes por dia, em três locais diferentes, com um monitor treinado. Este programa faz visitas específicas a uma galeria.


DM.: O Inhotim oferece às instituições de ensino públicas atividades educativas gratuitas. Quais são as atividades e como este serviço é divulgado?
J.V.:
A visita escolar é nosso ‘terceiro pé' (diretriz), na área de arte-educação. Dependendo da idade, do conhecimento, nosso monitor educativo elabora uma visita temática ou guiada para o grupo escolar. A respeito da educação, nosso foco é começar pelo município de Brumadinho. Lá tem ainda muitos alunos para atrair, mas também já recebemos muitas visitações de grupos da grande Belo Horizonte. A partir do ano que vem, vamos intensificar a divulgação. Nosso alvo é atender diversas crianças. Temos um contato forte com a Secretaria de Educação de Brumadinho, com o Núcleo de Arte e Educação da cidade e com a diretoria das escolas da rede local. Então, é uma divulgação quase que pessoal todas estas instituições sabem do serviço e procuram o Inhotim.


Tínhamos um programa no semestre passado de capacitação de professores do município de Brumadinho. Foram cerca de 35 professores capacitados. Eles tiveram uma introdução da arte contemporânea e no conteúdo do Inhotim, para que pudessem preparar os alunos, num estágio pré-visita, e depois, trabalhar este conhecimento em sala de aula.


DM.: Como é feita a recepção aos turistas estrangeiros?
J.V.:
Temos muita visitação de estrangeiros. Às vezes, recebemos mais visitantes do exterior do que brasileiros. Mas achamos que isto está mudando. No exterior, muitas pessoas da área profissional de arte e do meio ambiente, percebem que algo está acontecendo em Inhotim e vem nos visitar. Este ano e em 2004, aproveitamos de outros eventos do país, para atrair mais visitantes. Por exemplo: a Bienal de São Paulo. Este é um evento tão atrativo para muitos estrangeiros do mundo da arte. Este ano oferecemos 3 dias de visitação profissional, na inauguração da Bienal, aproveitando o fluxo de turistas.


Muitas instituições internacionais estão visitando o Brasil. O Inhotim virou destino desses grupos que viajam o mundo procurando arte e que visitam outras instituições. Antes, eles viam ao Brasil e ficavam no eixo Rio-São Paulo. Agora, Inhotim é parte obrigatória no roteiro dessas pessoas. Nós últimos dois anos houve uma divulgação internacional do Inhotim. Não foi uma ação ativa de nossa parte. A mídia divulgou espontaneamente. O mundo da arte é muito restrito, há muito boca a boca - um artista vem, visita do Museu e fala pro outro. É mais ou menos assim que funciona.


DM.: Quais as atividades realizadas no programa de educação ambiental para os jovens do município de Brumadinho? A administração estuda estender esta iniciativa a outras comunidades?
J.V.:
Este programa tem aproximadamente um ano. Chama-se Jovens Jardineiros. É um programa de educação ambiental criado para dar noções de meio ambiente, cidadania, ética. Além claro de noções de jardinagem, manejo de plantas ornamentais. O programa é voltado para jovens da comunidade local. Os primeiros alunos são da comunidade do Inhotim. Trata-se de um programa piloto: são 10 jovens, filhos de funcionários. Essas crianças estavam ociosas depois da escola. Então criamos o "Jovens Jardineiros" para oferecer uma atividade, um complemento na educação deles. O programa é acompanhado e aprovado pelo Conselho Tutelar de Brumadinho. Há uma exigência de rendimento escolar - se as crianças não tiverem freqüência e rendimento acima da média na escola, eles estão fora do programa.


Para 2007, pretendemos expandir o "Jovens Jardineiros" para atender as crianças e ampliar o grupo de alunos envolvidos e assim, inserir crianças do município como um todo, não só com a comunidade do Inhotim. O modelo já funciona, ele precisa ganhar um pouco mais de escala para reproduzi-lo na extensão que for necessária.


DM.: O Centro tem uma preocupação especial com a questão ambiental, com destaque para os jardins. Cogita-se a abertura de trilhas ecológicas no Inhotim. As trilhas irão contemplar as espécies raras presentes na paisagem?
J.V.:
Nossa gestão ambiental é um tripé: tem três áreas - educação ambiental, coleção botânica e a recuperação da mata nativa em volta do Inhotim. A trilha ecológica faz parte das três áreas. Até março de 2007, 8 km de trilha estarão completamente prontos. A trilha terá uma função educativa, orientando os visitantes sobre as espécies, sobre a diversidade mata nativa e também entender o que foi perdido e que nós estamos tentando recuperar, pois tem muitas plantas que não existem mais e, através da coleção botânica trazê-las e replantá-las.


DM.: Qual a temática da mostra 2006-2007? Quantos artistas participam?
J.V.:
Fechamos três prédios mais temáticos. Um deles abriga uma exposição que envolve 7 artistas, em volta do tema "Corpo e Arquitetura"; um outro prédio tem uma linguagem mais POP, um pouco rock roll; no terceiro prédio temos quatro estações monumentais de caráter bem pesado, bem forte - tipo uma história de encenação dos 60 até hoje, em quatro ‘passos' bem históricos. Então são três prédios bem diferentes, além de um outro que, de um lado, abriga obras de dois pintores e do outro um trabalho de áudio. É bem misturado. São 32 artistas, entre brasileiros e estrangeiros.


DM.: Quais critérios são utilizados para selecionar as obras que contemplam a mostra?
J.V.:
A montagem da mostra passa por um processo de discussão entre os três curadores do Inhotim. Nós pensamos em uma relação, numa narrativa e diálogo entre os trabalhos e também entre os artistas. Às vezes, temos uma relação mais formal entre um trabalho e outro, às vezes mais conceitual. Nós tentamos, na discussão, elaborar um percurso interessante que dê para os visitantes entenderem o que queremos mostrar, mas também que permita que todos descubram essas relações entre os trabalhos.


As obras que contemplam a coleção são trabalhos de artistas que nós estamos acompanhando já há muito tempo. Até artistas bem jovens, nós acompanhamos o trabalho. É um processo de acompanhamento do artista. Há uma pesquisa e uma discussão entre os curadores de anos para chegar numa mostra mais fechada.


DM.: Qual obra vem despertando maior interesse do público?
J.V.:
Há um trabalho nesta mostra muito forte e interessante, da artista Laura Lima, que é mineira mas mora no Rio de Janeiro. Ela faz um costume para dois homens: o capuz não permite que você veja seus rostos. Eles estão lutando! Lutando mesmo. Dá idéia de uma neutralidade do museu, remete ao ‘cubo branco', que é uma palavra muito usada no discurso de arte, que significa uma galeria de arte que não tem relação com o exterior e lá dentro, tudo é possível. O trabalho dela é bem físico, porque quem visita esta sala, que não é grande, pode estar, de repente, no meio desta luta de dois homens nus. Há uma presença do corpo, mas também do cheiro, do som! É uma obra viva! A Laura Lima sempre usa esta expressão: ‘escultura viva'. Esta é uma sensação bem forte para quem nunca viu, como também para quem já conhece a obra, pois é muito forte. É um destaque, com certeza! Um outro destaque, mais histórico, é a galeria do Cildo Meireles, que foi inaugurada agora com três obras-chave da trajetória do Cildo. É um espetáculo poder ver esses trabalhos.


DM.: O planejamento para a próxima mostra já foi iniciado? Qual será a temática?
J.V.:
Já. Nós vamos inaugurar no ano que vem duas galerias novas. Uma da artista carioca Adriana Varejão - construímos um prédio para os trabalhos dela. Ela fez a concepção do prédio com os arquitetos, na seleção e montagem dos trabalhos. Este será um trabalho bem forte na nova mostra. A outra galeria independente será da artista colombiana, Laura Salcedo. É uma estrutura de gesso, portanto necessitava de um prédio independente, para mostrar o trabalho arquitetônico e bem conceitual, que também vamos inaugurar em 2007.

 

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