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Saulo Laranjeira - Junho 2007

  • Saulo Laranjeira - Divulgação/Caravana Arrumação

Mineiro de Pedra Azul, Saulo Laranjeira entra nas casas de muitos para fazer rir. Mas atrás de cada personagem hilário, há uma mensagem de conscientização política. Por cada cidade que passa, ele incorpora um ou outro trejeito mineiro e, em troca, a população recebe cultura e muito humor. Artista sabedor de seu papel na sociedade, Saulo faz críticas à cultura de massa e ao descaso com a formação cultural do povo brasileiro.


Por Janaina Oliveira


Portal Descubraminas - Muitas de suas personagens têm características do povo mineiro. O que é levar o mineiro para o Brasil e quais as principais características procura ressaltar?
Saulo Laranjeira -
O mineiro que poderia representar bem meu trabalho artístico, e não apenas meus personagens é o próprio Saulo. Eu sou o verdadeiro mineiro, a maneira de me comunicar com as pessoas, de mostrar meu trabalho, de abrir meu espaço. Meu jeito é bem mineiro. Acho que o grande mineiro nesta história toda é o Saulo, porque, na verdade, os personagens que tem características do mineiro são regionais. São meus personagens camponeses, voltados para a cultura simples do campo, que mantém o linguajar autêntico do interior. São aquelas pessoas que vêm para os grandes centros urbanos e sofrem preconceitos e críticas. Daí a postura esperta e, muitas vezes, hilária, que ele tem de sair de situações embaraçosas.


PD - Como você trabalha para que seus personagens tenham vida própria e não caiam no estigma do "come-quieto", do caipira?
SL -
Estes personagens são frutos de observação de várias pessoas que já existiram realmente. Daí o cuidado que tenho de não estigmatizá-los, deixando fluir neles as suas próprias características. Mas estas figuras são da zona rural, são figuras regionais. Eu não tenho personagem do mineiro urbano. Este mineiro urbano é o Saulo.


PD - Quais questões sociais e culturais que você pretende levantar através de cada apresentação?
SL -
São quatro tópicos que eu classifico. O primeiro é o respeito pelos nossos bens culturais, preservando a dignidade de um povo criativo e tanta riqueza cultural como é o brasileiro. Alertar a sociedade, pelo intermédio da poesia e do humor, para os desmandos de políticos corruptos e desqualificados que abusam do poder público, denegrindo o Congresso Nacional. Refletir sobre a importância de resgatar os valores nobres de cidadania, e também o urgente compromisso que temos de preservar a natureza e seus encantos, celebrando a vida e um mundo melhor de se viver.


PD - Mais de 50 cidades mineiras já receberam a Caravana Arrumação, que proporciona ao público uma interlocução entre as diferentes culturas mineiras. Como é aprender com as particularidades de cada região?
SL -
A princípio, a Caravana Arrumação é um evento de entretenimento sadio para as cidades de interior, numa praça pública, levando várias tendências artísticas do meu show, como humor, poesia, cultura regional, com a música, com a MPB, com a música de raiz, e tudo mais. Temos o teatro, que é um ponto forte da Caravana, não só no aspecto do espetáculo em si, mas também pelas oficinas que a gente faz durante o dia com os jovens e adultos interessados em ter uma primeira idéia do que é teatro e procurar ter noções básicas de teatro. Essa oficina oferece esse tipo de produto, que está aberto a um intercâmbio cultural, e é uma vitrine para mostrarmos novos talentos, artistas emergentes da região, além dos artistas convidados, que já tem certa expressividade, que vão comigo. Ainda estamos nesta fase, mas o Saulo pesquisador, ativista cultural, aproveita a oportunidade para trocar uma idéia. Mas este propósito de interlocução, de maneira mais profunda, mais precisa, mais eficiente com a sociedade, que é o grande desejo, estar por vir. Estamos agora fazendo um grande espetáculo, motivando as pessoas.


PD - Algumas regiões de Minas Gerais são vistas apenas sob o aspecto da miséria, mas alguns apresentam uma diversidade cultural e natural riquíssima. Como você trabalha estas regiões e a cultura local por onde você passa?
SL -
O que nós queremos, num futuro bem próximo, que seria em 2008, é usar a Caravana Arrumação com o título de Ação Arrumação. Nós chegaríamos três dias antes na cidade, armaríamos nossas tendas, traríamos palestras sobre estes assuntos que tem a ver com nosso propósito, com a cara da nossa empresa, com nossos objetivos culturais e sociais, que serão palestras sobre meio ambiente, que é uma coisa extremamente pertinente agora, assuntos relevantes, cultura popular, que é uma coisa que a gente transita e por isso eu me sinto muito confortável, a música popular brasileira, poesia... Estes assuntos seriam levantados, seriam discutidos nesta nossa estada na cidade. Nestes três dias gostaríamos também de fazer uma mostra de música com artistas locais. Aí sim, estaríamos conhecendo os representantes da sociedade.


PD - Atualmente as empresas estão investindo cada vez mais em projetos de valorização cultural e este investimento acaba acarretando mais visibilidade na mídia. Ainda assim, a cultura popular mineira é massacrada pela cultura de massa. Você acredita que possa haver um diálogo entre a tradição popular e a indústria cultural?
SL -
Eu vejo um povo muito criativo, muito sensível, e muito pronto pra consumir a arte que lhe oferecem. Não só a cultura de massa. Além de ser um agente criador, pois o povo do Jequitinhonha é assim, cria, não só na área da música, mas dos folguedos populares, do artesanato principalmente, que desenvolve muito, deixa fluir essa qualificação como artista no manuseio com o barro, com a madeira, com a palha, e com a cultura popular. Como agente consumidor, eu acho que é também muito especial, porque quando acontecem os festivais, como o Festivale. A gente vê que quando se faz um espetáculo de cultura de massa no Vale com cantores famosos, existe uma quantidade enorme de jovens e a população aceita, interagem, consome... Neste momento, nasce até certo constrangimento em aceitar a cultura regional. Mas ela não está perdendo terreno? Não é bem assim... Para um agente consumidor, ele não está perdendo, nem ganhando, nem deixando de perder. A pessoa está ali, o popular está ali, a televisão ainda para as pessoas do interior é uma coisa fascinante, uma coisa muito mágica. Se você vê um artista da televisão próximo a você, você vai consumir. Isso faz parte do glamour, do desejo de conhecer aquela coisa intocável, aquela coisa da fama, do sucesso, isto ainda existe.


Ainda está no seio da humanidade este tipo de raciocínio. Mas quando você coloca no meio desta proposta de cultura de massa, se num outro dia, após ou antes, você leva uma cultura de raiz, mais regional, muitas vezes até colhida pela própria região, existe também o consumo, existe o respeito, existe a troca. Entende-se então que, se tem algum culpado, pra existir de maneira injusta este mercado, este conflito entre a cultura de massa e a cultura de raiz, é o poder público. Porque deveriam ser exigidos dos veículos de comunicação uma democracia, que pudesse ser mostrado que existe também o outro lado. Aí, pelo menos, o público faria sua escolha. Que ganhe a cultura de massa, porque ela tem uma facilidade maior, ela tem uma metodologia, uma linguagem mais direta, mais objetiva, mais acessível a um povo que não tem condições de se aculturar. É um povo carente de tudo. Não só de poder ter à sua frente essa cultura pra poder escolher o seu bel-prazer ou não poder escolher, mas ter o livre arbítreo. Mas antes disto tudo ele é carente de tempo, ele é carente de conhecimento, ele é carente de comida, ele é carente de educação, ele é carente de saúde. Porque um povo que 70% ou mais vai dormir às 8h da noite e acorda 4h da manhã pra ir trabalhar, que tempo tem esta pessoa para ouvir um disco do Milton Nascimento, ou dinheiro, ou condições intelectuais de consumir este disco, ou de ler um livro, uma revista, ou até mesmo um jornal.


O que será discernir o que é bom, o que não é, que tendências são, se é isto, se é aquilo, se é brega, ou se deixa de ser, se é hermético, se é um trabalho sofisticado. Até chegar neste plano, ele tem que estar em condições de dizer eu posso ver, eu vou ter tempo, eu tenho saúde, eu tenho condições, eu estou feliz, porque, você ir para a praça pública para assistir um evento musical, um evento artístico, Você tem que estar bem, você não pode sair de casa sabendo que seu filho está passando fome. Isso não faz bem. Não tem como ir bater palmas para um artista ou ir sorrir sabendo que em casa ficou uma situação complicada com os filhos, com a mulher. Volto a frisar que se tem um culpado é o poder público, que tem que exigir dos veículos de comunicação que seja mais democrático a amostragem dos bens culturais deste país, dos produtos culturais deste país, para que o povo possa também absorver outros produtos culturais, não só aqueles que são mais fáceis, que o Silvio Santos mostra, porque ele liga a televisão e está ali, de graça, porque o Faustão mostra, porque a televisão está ali, de graça.


PD - Percebe-se que a capacidade criativa, crítica e ousada dos jovens diminuiu bastante se comparadas com épocas anteriores. Você acredita que este jovem perdeu a capacidade de questionar e tornou-se mais acomodado?
SL -
O nosso jovem também cai no mesmo problema. A criança também sofre com esta carência, de todos os sentidos, carência de acesso à educação, à cultura, etc. Mas este jovem que foi citado não faz parte desta massa. Eu entendo que este jovem é o universitário, que foi sempre quem moveu a cultura deste país. Eram os jovens que lotavam o Mineirinho para escolher uma música. Músicas cantadas por Alaíde Costa, Osvaldo Montenegro, Leila Pinheiro. Crianças de dez, onze anos discutindo, emocionadas, outros chorando porque a música não ganhou. Estava todo mundo falando simplesmente de poesia, de música. As pessoas se acotovelavam igual a hoje, com o esporte. E o que houve e o que não houve para não existir mais isso? Uma alienação pela força da cultura de massa. Aí já não é mais nem uma cultura de massa brasileira, mas uma cultura de massa mundial, do capital, da globalização mesmo. São os maiores grupos de rock que já tem um link com as boates, que tocam a mesma música que ele ouve no carro, que ele escuta no iPod. Uma outra cultura, uma outra coisa que tem que ser estudada de uma maneira mais profunda, o porquê que o jovem hoje que era o expoente, vanguardista, que consumia de maneira mais imediata, com mais consciência, desprovido de preconceitos, mais corajoso, mais culto, com o espírito mais livre. Se não fosse esse universo desse público, desses universitários, que tiveram essa sensibilidade para consumir um tipo de arte que a gente fazia na época, eu não existiria, Décio Marques não existiria, Renato Teixeira, muitos não teriam existido.


Muitos caem na armadilha da cultura de massa. Porque eu vou consumir tal artista, ou tal arte, ou tal produto cultural, se ele não é sucesso? De onde eu vou tirar argumentos para curtir uma arte de alguém que não está na mídia, que se eu falar ninguém conhece, não está na Globo? De onde eu tiro essa "sustança" pra falar eu gosto, eu curto, eu vi você ontem, eu tenho este disco. Existem hoje pessoas assim, que tem uma discoteca em casa de artistas que ninguém conhece. Isso acontece graças à facilidade que tem hoje de se gravar um disco.Tem gente que vai em shows de bandas, que a mídia investe muito, e nem sabem por que está indo. Eu pergunto: esta música vai te tocar? É diferente de quem vai num show do Arthur Moreira Lima, que toca piano, que as pessoas muitas vezes vão por uma paixão, porque aquilo vai trazer um resultado para a sua alma, para o seu espírito, para a sua pessoa. É uma injustiça uma falta de democracia no espaço de mostrar os bens culturais, nossas tendências artísticas, principalmente de uma maneira um pouco mais democrática.


PD - A imagem que se tem do Brasil no exterior é um tanto estigmatizada e resumida a curtição e carnaval. Levar a cultura e apresentá-la a um público acostumado a ver somente este lado do brasileiro é um desafio. Como foi a receptividade do público em relação aos seus shows no exterior?
SL -
Esse conceito que se tem do Brasil lá fora aos poucos está mudando. Até mesmo por intermédio do esporte, as pessoas estão tendo mais curiosidade. Ainda há uns problemas, de gente que acha que a capital do Brasil é Buenos Aires, mas acredito que, muito em breve, ela vai de existir. Vai deixar de existir não porque o Brasil leva coisas rotuladas ou foca só num produto artístico para o exterior. E se continuar é por bairrismo. O norte-americano é muito bairrista, ele tem dificuldade em conhecer outros povos, outras culturas, independente daquilo que está sendo informado ou não. Ao mesmo tempo em que está chegando que aqui no Brasil tem muito carnaval, chega também que tem Marisa Monte, Caetano, Gil, Lenine. Isto está começando a ser desmistificado. No meu caso, eu fiz show para as comunidades de brasileiros que vivem lá, ainda não tenho muita história pra contar.


PD - Como é trabalhar em conjunto com as várias vertentes da arte, como a música, poesia, dança e dramatização?
SL -
Quando a coisa acontece de maneira muito natural e espontânea, ela se torna muito fácil. Eu desde criança, na mesma hora em que estava cantando, fazendo serenata, brincando em casa, eu imitava pessoas, imitava velhinhos, fazendo palhaçada, cirquinho em casa, e tudo vai caminhando junto. Quando percebi estava cantando, estava fazendo humor, estava fazendo teatro, estava fazendo cinema. Uma coisa muito natural. Era tudo muito leva pra mim. È tudo muito simples, quando você tem o dom é muito natural. Isso flui com extrema facilidade. Sou especializado no humor, mas me interessa muito o drama, a tragédia. Muitas vezes, por causa do momento histórico, que permite que a música seja mais interessante, ou que o humor seja mais interessante. Essa oscilação no meu trabalho artístico precisa existir, é como uma corda de violão, vibrando, é minha emoção vibrando, é meu propósito artístico, minha jornada, vibrando. Eu faço parte do balanço.


PD - De onde veio a inspiração para o sobrenome artístico Laranjeiras?
SL -
Veio de um centro de cultura que eu tive em São Paulo, chamado "Fulô da Laranjeira", que eu tive de 1975 a 1983. Um point cultural muito conhecido em São Paulo, muito bem freqüentado na época por Geraldo Vandré logo que voltou do exílio. Era um ponto de encontro que ia Xangai, Vital Farias, Almir Sater, Renato Teixeira, Paulinho Pedra Azul... "Fulo da Laranjeira", um nome que vem de um refrão de uma folia de reis aqui de Minas, da minha região, que era assim: "Sinto o cheiro, meus irmão (sic)/ Da fulô da laranjeira/ Quando o vento dá na chácara/ Rescende a chácara inteira.". Eu cantava aquilo muito, e "fulô" é tão bonitinho... Resolvi botar então "Fulô da Laranjeira". O pessoal falava: "vamos lá, no Laranjeira, e aí ficou...

 

 

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