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Rodrigo Pederneiras - Abril 2007

  • Rodrigo Pederneiras/ Crédito Cláudia Ribeirog - Divulgação

Fundado em Belo Horizonte, em 1975, o Grupo Corpo é uma companhia de dança contemporânea com a cara do Brasil. Sediado na capital mineira, em Belo Horizonte, a companhia encanta pela criatividade inovadora e leva para o exterior um "pedacinho" da cultura popular brasileira, contribuindo para desmistificar a imagem pejorativa e aculturada do país.


Por Tatiana Pires


Portal Descubraminas - Ao longo dos anos o Grupo Corpo passou por várias transformações em busca de sua identidade nacional. Como foi este processo de transição?
Rodrigo Pederneiras -
Desde o primeiro espetáculo da companhia, há 31 anos, o Grupo Corpo vem se transformando, amadurecendo e aprendendo ao longo do tempo. Os primeiros trabalhos apresentados tinham roteiro e personagem, Maria Maria foi um deles. Na década de 80 houve uma ruptura e o Corpo começou a trabalhar com músicas eruditas e a fazer um trabalho não narrativo. A partir dos anos 90 - período em que o grupo começou a trabalhar com músicas compostas especialmente para os espetáculos - começamos a buscar e desenvolver uma linguagem mais brasileira, com compositores, em sua maioria, brasileiros de música popular. Todas essas fases foram muito importantes para o crescimento pessoal e do Grupo Corpo.


PD - De que forma a nova linguagem do grupo contribuiu para levar um pouco da cultura brasileira para o exterior?
RP -
Essa nova linguagem colaborou para estender a cultura popular brasileira no exterior. Hoje, o Grupo Corpo é uma companhia reconhecida no mundo inteiro por apresentar uma linguagem própria e com a cara do Brasil. Há alguns anos as pessoas de outros países se assustavam muito com o conteúdo da companhia - a imagem criada do Brasil no exterior contribuía para tal espanto. Esperava-se uma coisa mais voltada para o folclore ou com um acabamento e criação artística menos importante e de repente, o que eles viam eram outra coisa. Hoje não, hoje a companhia é convidada a se apresentar nos melhores teatros do mundo inteiro e é super conceituada. Embora o conceito quanto à cultura brasileira permeie até hoje.


PD - Como é feita a seleção para participar do Corpo?
RP -
Por onde nós passamos sempre tem gente pedindo para fazer parte do grupo. As pessoas que apresentam uma boa técnica, nós pegamos o contato. Quando precisamos de alguém, ligamos e convidamos essas pessoas a passar uma temporada com a companhia ,4 ou 5 dias, fazendo testes.


PD - Há algum ritual realizado antes de cada apresentação?
RP -
Não há nem tempo para isso. Cada espetáculo demanda muito treino. Nós chegamos cedo ao local da apresentação, bem antes do espetáculo começar, para ter aulas e ensaios.


PD - Durante 3 décadas o Corpo tem sido embaixador da dança contemporânea brasileira, com várias apresentações internacionais. Fale um pouco da turnê internacional realizada na Ásia.
RP -
A turnê foi maravilhosa, desde a recepção até as críticas. É sempre bom poder abrir mais uma porta importante para mostrar a nossa cultura. Nós cansamos um pouco de sermos vistos como o melhor e repleto de coisas boas, enquanto observamos que há uma desvalorização do povo brasileiro como um todo. Quando ouço que tal coisa é coisa de brasileiro sempre vem acompanhada de uma depreciação e o brasileiro não é assim, não pode ser visto assim. O Brasil tem condições de ter um nível de excelência maravilhoso, melhor do que qualquer outro país, pois temos o privilégio de poder beber em várias fontes culturais.


Essa grandeza não é vista por nós e não é estimulada. Muita coisa tem que ser mudada lá em cima, é preciso que a população participe do outro lado e deixe de ser dócil. O país inteiro é muito rico em cultura popular e se submete a consumir o que vem de fora, supervalorizando produtos estrangeiros cercados de poder econômico. As lojas que você entra hoje só têm nome em inglês, pelo amor de Deus. Pô, a nossa língua é a língua mais bonita que existe.


PD - Há alguma diferença de público entre os vários países que o grupo já visitou?
RP -
Lá fora o grupo tem um público muito grande. Eu destacaria como país estrangeiro de maior público a França, pois foi um país que nos acolheu de uma forma impressionante. Chegamos a receber convites para ser a companhia residente da Maison de La Dance, um dos teatros franceses mais importantes. Durante alguns anos fazíamos nossas estréias mundiais lá, mas acabou que era complicado porque a temporada brasileira ficava um pouco prejudicada.


PD - Talvez a maior dificuldade de um artista seja descobrir formas diferentes durante o processo de criação. Como é trabalhada a temática de cada espetáculo do grupo?
RP -
Isso depende. Desde 1992, com exceção do Lecuona, todas as obras são feitas com músicas especialmente compostas para o espetáculo. Nós convidamos o compositor e damos a ele toda a liberdade para sugerir temas ou acrescentar algo. O interessante é que os convidados são excelentes compositores, e às vezes, nunca tiveram a oportunidade de trabalhar para a dança. Eles fazem o que eles quiserem, e à medida que vão compondo, a gente interfere e conversa com eles também. Uns mais, outros menos.


PD - Qual mensagem o Corpo aspira transmitir através do novo espetáculo - que estréia em setembro em Belo Horizonte - marcado por coreografias intensas e com um uso enfático do chão?
RP -
Quando falamos de disputa, falamos de: situações mais pesadas, de encarar dificuldades, estados e de estar frente a frente com coisas que não são fáceis de resolver. Isso significa um peso bem grande em nossas vidas. O chão não pode ser visto como metáfora, ele é uma forma de resolução e passagem dessa atmosfera pesada.


PD - Recentemente temos acompanhado no noticiário uma série de atos que atentam contra a vida e integridade humana. A temática da peça tem haver com as guerras urbanas?
RP -
Tem haver com todo o tipo de enfrentamento humano, inclusive este. Tem um pouco desse não saber abrir mão do individualismo exagerado. Está cada vez mais difícil conviver em sociedade.


PD - Como vai ser a participação do Lenine junto a este espetáculo?
RP -
A estréia será em São Paulo e vai estar no Palácio das Artes, Belo Horizonte, em setembro. O Lenine tinha acabado de assistir o Lecuona, falei com ele sobre esta participação e ele adorou a idéia. Conversamos e ele sugeriu "uma coisa", a partir da idéia de uns instrumentos que ele tinha, efeitos sonoros e tal. Eu falei que ele poderia fazer o que quisesse e a partir do momento que ele compôs algo, nós começamos a definir a idéia.


PD - E qual vai ser a idéia do espetáculo?
RP -
A idéia na verdade é falar de disputa, embate para tudo. Até no amor você vive uma disputa. A vida em si é uma disputa. Eu achei interessante falar disso e ele também.


PD - Como música e danças são utilizados na representação de uma idéia e estímulo ao questionamento humano?
RP -
A arte por si só vai despertar em cada um aquilo que de mais intrínseco o constitui, isso depende da percepção individual. O que não significa abstração, há sempre uma fundamentação e normalmente um peso. Nós trabalhamos com histórias e temas mais abrangentes.


PD - Estas encenações, marcada por analogias e simbolismos, são compreendidas por todos?
RP -
A dança, do grupo Corpo, não é um tipo de linguagem que se preste à narrativa. Na dança atual, a palavra e a mímica são até muito utilizadas, mas esta não é a linha que o Grupo Corpo segue. Quando você começa a trabalhar temas mais abertos, você pode - através da dança - trazer e despertar todo o tipo de emoção. Às vezes são até muito confusas as emoções despertadas (risos). Diferentemente de como acontece no teatro - em que você cria uma comoção por uma cena determinada - , na dança, você utiliza outras veias e formas mais sutis para comunicar e chegar até a pessoa, muitas vezes de forma mais forte.


PD - Já aconteceu de pessoas ficarem sensibilizadas com algum espetáculo da Companhia?
RP -
No exterior e nas apresentações aqui no Brasil várias pessoas chegaram até algum membro da companhia para relatar a sensibilidade das peças. No Lecuona, por exemplo, aconteceu uma coisa muito engraçada: As pessoas morriam de rir e dois minutos depois elas estavam chorando. Era uma coisa surpreendente. Na dança a mensagem chega, mas a forma como ela chega é diferente, mexe mais com o inconsciente.


PD - Alguns estudiosos vêem na produção artística uma "válvula de escape" do inconsciente humano; utilizada, muitas vezes, para enfrentar desejos, angustias e até mesmo a morte. Como você acha que a sua utilização pode ser útil na busca pela paz espiritual?
RP -
A arte é a maneira pela qual a gente se expressa e coloca para fora pensamentos. É o modo que nós temos de tentar crescer e de andar para frente. Isso não significa paz, falta de conflito e nem só conflito também. Significa isso tudo e um monte de coisas atrás. Acho que tudo é possível através da arte e do conhecimento.


PD - Gostaria que você falasse um pouco sobre o projeto Sambalelê. Como é a organização?
RP -
O projeto desenvolvido pelo Grupo Corpo mantém e capta verba para a Ong que desenvolve o projeto Sambalelê. A partir disso a Ong faz parcerias com pessoas que já trabalham na comunidade, com o objetivo de ajudar os meninos educando-os através da arte. O projeto começou com 60 adolescentes e hoje são mais de 850. Nele são praticadas aulas de música, de criação de cinema, capoeira, percussão, dança e oficinas psicopedagógicas.

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