Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  •  
  • Hotel Grogotó

Lúcia Camargo - Agosto 2007

  • Belo Horizonte - Lúcia Camargo - Paulo Lacerda/Divulgação

Referência cultural em Minas e no país, a Fundação Clóvis Salgado completa 36 anos em 2007. Apenas no ano passado, 800 mil pessoas foram até o Palácio das artes para visitar uma exposição, ver um bom filme ou assistir a uma peça de teatro. Grandes shows também marcaram a Casa, assim com o "Sempre um Papo", as "Terças Poéticas", e mais outras tantas apresentações. Para que tudo funcione bem e a Fundação continue a formar talentos no Cefar, na Orquestra Sinfônica e nos corais, Lúcia Camargo, presidente da Fundação Clóvis Salgado desde janeiro deste ano, batalha para levar arte e cultura ao maior número possível de mineiros. E também de estrangeiros. Um de seus principais projetos é a internacionalização do Palácio das Artes. "Vamos mostrar o que a gente tem aqui".


Por Janaina Oliveira


Portal Descubraminas - Raul Belém Machado (ex-diretor artístico do Palácio das Artes) disse que "Não existe no Brasil outra instituição com tanto espaço e tempo ofertados e ocupados pela cultura como o Palácio das Artes". Quantos são os espaços culturais reunidos e administrados pela Fundação Clóvis Salgado?
Lúcia Camargo -
Sem dúvida nenhuma que a Fundação Clóvis Salgado é uma das instituições que mais tem e que mais abrange atividades. Ela tem uma escola, o Cefar, o cinema, quatro salas de exposição, dois teatros de câmara e o Grande Teatro, a sala de cinema recém-reformada. Se for falar de teatros, só o Teatro Guaíra (de Curitiba, no Paraná) é maior, o dobro. Mas o que importa não é o tamanho, o metro quadrado, e sim o que acontece aqui dentro. Cada hora que você se vira há um lugar ocupado. Tem o projeto "Terças Poéticas" nos jardins internos, nos teatros menores você vai encontrar outras atividades, no Grande Teatro você vai encontrar a orquestra, se você sai no foyer há alguém fazendo alguma coisa, o cinema está sempre funcionando . Acontece tudo e mais um pouco aqui dentro.


(Outro espaço que também é administrado pela Fundação Clóvis Salgado é a Serraria Souza Pinto).


PD - O palácio das artes é considerado uma das maiores instituições culturais de Minas Gerais, tanto com relação à formação de novos artistas quanto à presença de público e recepção de grandes espetáculos. Qual é a importância de um espaço como este para o turismo em Belo Horizonte?
LC -
È muito importante que as pessoas saibam o que está acontecendo aqui e que as pessoas se sintam motivadas pelo que acontece aqui também. È um espaço importante para não fazer de Belo Horizonte uma cidade que você passa e saia de avião, e que as pessoas vão para Ouro Preto. Nossas atividades seriam uma opção para firmar o turismo aqui, a opção cultural. E temos que oferecer coisas que suscitem você a vir até aqui, a entrar aqui. Venha tomar um café, compre um livro, observe o verde ali. Se colocarmos tudo isto no prato da balança, temos muitas coisas para agradar o turista, pois queremos que ele venha até aqui também para conhecer o Palácio das Artes. O turista tem que saber também que aqui, nesta Casa, ele pode passar horas muito alegres vendo coisas que, talvez, até tenham em São Paulo, mas aqui ele vai estar mais calmo. Além do mais tem até uma loja de artesanato mineiro que a Fundação abriga no Palácio das Artes pela importância que damos a agregar muitas manifestações artísticas.


PD - Ao assumir a direção do Palácio das Artes substituindo Chico Pelúcio, você afirmou que um dos projetos a internacionalização do Palácio e com isso viabilizar a saída de artistas mineiros para participação e intercâmbio em eventos internacionais. Quais ações já foram feitas nesta área?
LC -
Como o Raul (Belém Machado) falou, "vamos mostrar o que a gente tem aqui". Veio uma companhia italiana de dança, vieram músicos de várias nacionalidades, veio a companhia holandesa, a Nederlands, agora em agosto vem uma companhia russa de dança. Isto é importante porque estas companhias eles não só vêm aqui, pois poderíamos alugar qualquer espaço, mas não somos uma agenda de aluguel de espaços. Quando essas companhias vêm elas nos conhecem. Nós nos mostramos para eles, e artista reconhece artista. Estamos nos abrindo na tentativa de abrir portas. Por exemplo, o balé foi dançar em Ramala (Cisjordânia) por uma indicação da Adriana Banana (bailarina, coreógrafa e compositora). Tivemos que nos virar, pois não existia isso no orçamento e, da companhia toda, pudemos propiciar a viagem a cinco bailarinos. Eles foram para lá vivenciaram uma outra realidade. Isto tem que acontecer. Ás vezes vai apenas um, mas que nos leva junto.


Estas ações foram imediatistas. Agora estamos com um número enorme de contatos, e pretendemos fazer uma via de mão dupla. Temos dado oportunidade também a músicos de se mostrarem para maestros, ou mesmo para professores americanos. Temos feito muitos relacionamentos, convidado para vir ao Palácio, tanto para vir quanto para nós irmos até eles. Isso tem que acontecer também dentro do país, porque, às vezes, nem se sabe o que se faz aqui. Temos que propiciar estas costuras. Isso, às vezes, dá até casamento.


Minas é referência. Referência em teatro de grupo: aqui, temos o Galpão, o Giramundo, a companhia Espanca!. Referência também em dança, em rock, fora a herança artística, barroca, musical e arquitetônica que Minas deu ao Brasil.


PD - Outro importante ponto da Fundação é a interação com produtores mineiros. Como tem sido esta experiência?
LC -
Muito boa. As pessoas são muito generosas aqui, extremamente competentes. Você não cai na mão de um ou de dois apenas, você tem vários... Um faz mais dança, outro mais música. Tenho tido experiências ótimas com estas pessoas. E eles vêem a Fundação como parceira deles. Eles sabem que há interesse em que o serviço que eles prestam dê certo aqui.


PD - Eleonora Santa Rosa, secretária de Estado de Cultura, anunciou um projeto que prevê a inclusão cultural de pessoas completamente sem acesso a cultura, como hospícios, presídios, casas de menores infratores e asilos. Qual é a participação e contribuição do Palácio das Artes nesse projeto?
LC -
Este pedido foi gestado aqui a pedido da secretária para levar cultura a quem não tem como vir até aqui. Levar atividades culturais como a dança e mais a música. Quem vai receber a visita são entidades como orfanatos. A circulação dos corpos (de música, dança e teatro) este ano atinge um terço do Estado. Vamos com música sinfônica, balé, coro, a orquestra jovem, a big band. Vamos fazer também, pela primeira vez, uma circulação de artes plásticas de um acervo da Fundação, que vai em 20 cidades. Temos duas vertentes: uma é mostrar a gravura, algo que tem muito a ver com Minas, e ao mesmo tempo, disseminar esta técnica, ensinando as pessoas como criar uma exposição, como se faz a curadoria.


PD - Em 2006 o Palácio das Artes recebeu cerca de 800 mil pessoas. Falando em público, numa entrevista você disse que uma das tarefas seria investir na formação do público e na popularização dos conteúdos. Que ações estão sendo feitas para esta área?
LC -
Uma das primeiras coisas que fizemos foi no dia 1º de maio, quando fizemos espetáculos, convidamos a orquestra de Ouro Branco, convidamos o Coro Madrigale e o Grupo Primeiro Ato. Cada um deles se apresentou num dia, com a programação gratuita. Foi sábado, domingo, segunda e terça, quatro dias de programação para o trabalhador. Foi um sucesso,teve fila de espera, esperando sobrar ingresso. Casa lotada, tudo correndo às mil maravilhas... O comparativo de público nestes seis meses (desde que Lúcia assumiu a presidência da Fundação Clóvis Salgado) é bastante alto... talvez chegamos nesta marca e até possamos ultrapassá-la.


Vamos popularizar o espaço do Palácio das Artes. Muitas pessoas não vêm aqui porque ficam receosas. Quando você abre, as pessoas começam a se apropriar disso. E aos se apropriar, elas vão estar sempre antenadas pra ver, pra poder assistir ao que vem. Não é mágica. É um ftor de nós procurarmos espetáculos, ir atrás, conversar com as pessoas, oferecer o Palácio, porque o que nos interessa não é estar com a grade cheia, mas com a grade cheia de coisas boas. Não adianta você colocar um monte de coisas que ninguém quer ver. Que tenham coisas experimentais, mas o importante é você equilibrar a experiência.


Todas as oficinas são abertas para o público, mais a públicos dirigidos. Temos uma série de encontros culturais que enchem. E sempre têm fila. Temos também programas infanto-juvenis. Vamos abrir para os ensaios gerais da orquestra, da companhia de dança e temos um grande projeto que será abrir aos domingos. Estamos esperando só terminar os projetos de segurança para abrir aos domingos para integrar com o público com a feira de artesanato da Afonso Pena.


PD - A Fundação Clóvis Salgado tem um compromisso com a formação de artistas nas áreas de artes cênicas, dança, música... Quais os novos projetos para o Cefar?
LC -
O Cefar passou por uma grande transformação, porque ele era um centro que pertencia à diretoria artística. Hoje ele é uma diretoria, passou a ter outro status. E nessa diretoria foi acoplada uma outra coisa. Estes cursos (teatro, dança, música) hoje só são possíveis também cursos de extensão, com alguém que realmente monte, vá atrás, demonstre todo o interesse em fazer um intercâmbio cultural com muitas escolas nacionais e internacionais.


PD - Na sua posse, você anunciou que a Fundação tinha R$ 8 milhões para investimentos. Quais áreas têm mais recursos?
LC -
A área de circulação e a área artística. Temos conseguido trazer bons solistas, orquestras, convidamos maestros pra vir reger aqui. A circulação nas cidades que fazemos não é barata. Temos feito alguma coisa específica na área de dança, convidado mais pessoas para virem aqui, as Terças Poéticas todas com nova roupagem... A maior parte deste dinheiro é gasto em música e nos corpos artísticos, para que eles tenham mais suporte, porque para a Secretária de Cultura era muito importante que a orquestra, a companhia de dança e o coral fossem também viajar, porque o Palácio das Artes não é só Belo Horizonte. É Minas Gerais. E é o que a gente tem feito. Este dinheiro também possibilita alguns convites, paga cachê para, dá condições técnicas para as pessoas virem se apresentar.

 

Enviar link

Outras entrevistas