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Gervásio Horta - Setembro 2007

  • Poeta e compositor Gervásio Horta - Juliana Linhares

Em entrevista embalada por histórias e muita música, Gervásio Horta, fala sobre suas canções e sua paixão por Belo Horizonte. O compositor que para espanto de muitos, diz que já pescou no Ribeirão Arrudas, fez questão de lembrar das ruas, bares e praças da Capital Mineira, deu dicas de roteiro simples para quem quer conhecer a cidade e comentou sobre seu novo disco "Amigos & Canções".


Por Juliana Linhares


Portal Descubraminas - Apesar de ser natural de Teófilo Otoni, em seus discos você canta ruas, praças e bairros da capital mineira. Por que essa preferência por Belo Horizonte?
Gervásio Horta -
Antes de 1954 eu morava em Teófilo Otoni, uma cidade pequena mas que tinha um super carnaval. Naquela época eu ouvia muito rádio, pois na cidade não tinha telefone e essa era a única ligação forte de comunicação. Fui ficando apaixonado pela rádio.


Quando cheguei em Belo Horizonte tinha acabado de acontecer a morte de Francisco Alves, um fato marcante e verdadeira comoção nacional. As rádios só tocavam musicas de Francisco Alves. Eu gostava muito de freqüentar a Rádio Inconfidência, a Rádio Mineira e a Guarani, que pertenciam ao Diário dos Associados. Foi lá que fiquei conhecendo a turma de Rômulo Paes. Pouco depois gravei, em parceria com o Rômulo, a primeira música em Homenagem a cidade, "Rua da Bahia".


Gravamos essa musica em SP e no final da gravação fomos ao Ponto Chic. No lado da nossa mesa estava sentado um dos maiores compositor que conheço, Adoniran Barbosa. Eu e Rômulo começamos a cantar "Rua da Bahia" e Adoniran Barbosa elogiou : Que coisa fantástica! Vocês cantando a sua cidade! Ele ainda completou dizendo que toda música que pode coloca São Paulo. E coloca mesmo, "Moro em Jaçanã; Se eu perder esse trem que sai agora às onze horas; Só amanhã de manhã..." .


A partir daquele dia coloquei Belo Horizonte na minha rotina de músicas e acabei pegando a marca de Menestrel da cidade. Já cantei para o Barro Preto, para Rua da Bahia, Manhãs de Belo Horizonte,Praça Sete, Rua Goiás,diversas escolas de samba e Adeus Lagoinha.


PD - Em "Adeus Lagoinha", um de seus 150 sambas gravados, você faz um desabafo saudosista sobre o crescimento de Belo Horizonte. Como espectador desse crescimento, acredita que a capital mineira perdeu suas principais características?
GH -
Todas as cidades mudam. Belo horizonte está maravilhosa. Mas lugares como a lagoinha não voltam mais. A lagoinha podia ser considerada a sala de espera da boemia mineira. Ali não era preciso dinheiro, cada dia um pagava uma bebida, e sempre tinha um bar por perto para oferecer uma carne de sol. Cachaça da roça, amigos, canções. Mesmo não sendo a mais bela era a que eu mais gostava.


É igual aquela musica que o Tim Maia gravou e que eu considero uma das melhores musicas do Brasil. "Nada do que foi será; De novo do jeito que já foi um dia; Tudo passa, tudo sempre passará..." . No dia da implosão da Praça da Lagoinha foram distribuídos 100.000 lenços com a letra de "Adeus lagoinha".Estava lotado de pessoas. A lagoinha acabou e eu cantei "Um minuto eu peço para ver seu fim..."


PD - Morador da capital desde 1954, você tem uma visão de quem conhece de perto as belezas dos antigos redutos da boemia. Hoje pouquíssimos lugares mantêm a memória desses espaços. Entre os bares e restaurantes que fizeram parte da sua história, ainda é possível encontrar alguns que mantêm a tradição ?
GH -
São dois lugares em Belo Horizonte que mantiveram a colocação antiga.O café Nice que existe desde 1939 e ainda continua com o café coado no pano, com a mesma freqüência de antigamente e o Mercado Central que mantêm aquele cheiro e aquela colocação dos atrativos mineiros. Acredito que o melhor atrativo turístico de BH é o Mercado Central. Lá você encontra gente de todo lugar andando e conversando normalmente. Falei dessa mistura em uma música. "Yes o Americano diz; bonjour diz pra mim o bom Francês; um Argentino com cara de feliz diz pra mim que no mercado todo mundo é freguês; E eu que sou Mineiro por tradição..."


PD - Dos lugares sobre os quais o senhor fez sambas, qual acha o melhor, o mais especial? Por quê?
GH -
Não tem o melhor. São vários. A lagoinha foi uma época, o Barro Preto freqüento e gosto muito. Além de ser um bairro importante para o turismo é onde conseguimos comprar as mesmas blusas do BH Shopping por um preço bem menor.Tem ainda a Praça Sete, música criada a pedido do Prefeito Fernando Pimentel. Essa praça é algo fantástica! Além de fazer parte da historia de Belo Horizonte , dos comícios e encontros políticos, tem quatro quarteirões e quatro tribos diferentes.Você encontra tudo que quer na Praça Sete. Existe o lado das floristas, o lado das turmas jovens e ponto de namoro, tem o lado que eu freqüento, na Rua Carijós e ainda o lado da Rua Rio de Janeiro esquina das pedras preciosas. É impressionante! Passam 650.000 pessoas por dia na praça.


PD - Já participou de muitos carnavais na capital nas décadas de 50 e 60. Hoje, a folia momesca em Belo Horizonte quase desapareceu, com a fuga dos habitantes para as cidades históricas e para o litoral. Como tem sobrevivido a estes carnavais? Acredita que ainda BH recuperará a alegria nos dias de Carnaval?
GH -
Antes a música era dividida em 3 categorias, a música de carnaval, a música junina e a natalina.Com o tempo a de carnaval foi se destacando. O país inteiro se preparava para essa festa, todos os grandes cantores da época e rádios cantavam musicas de carnaval. É como se hoje, Marina, Roberto Carlos e Jota Quest tocassem musica de carnaval.


A sociedade mudou e o carnaval acabou. Pra mim ele não existe mais. Existe apenas uma festa que acontece nos dias de carnaval que acabou virando comércio. Minha surpresa foi a musica junina sobreviver.O carnaval morreu mas as escolas e clubes continuam tocando musica de São João.


PD - Belo Horizonte pode ser considerada o berço de novos talentos da música. O seu quinto disco apresenta suas canções na voz de grandes amigos. Existe também a presença de convidados da nova geração?
GH -
Nesse disco eu tenho duas novidades como cantor. Estou lançando o maior gênio que temos hoje no mercado da música, Marcelo Jiran, 22 anos. Esse garoto toca de tudo e compõe muito bem, mas nunca tinha cantado, então eu dei uma musica para ele, ele criou uma segunda parte e cantou "Deixe Estar". E também lançando como cantor o Valdir Silva,76 anos, que é um dos maiores vendedores de disco que BH já teve e é um dos maiores amigos que eu tenho.


PD - Qual roteiro recomendaria para quem deseja conhecer Belo Horizonte?
GH -
Quem vem em Belo Horizonte deve subir na Praça do Papa ou na Raja e ver uma vista fabulosa. Dizem que BH se conhece pela boca, então a pessoa tem que conhecer o restaurante Quintal - Pampulha e o Kobes - Santa Tereza. E claro não pode deixar de beber uma boa cachaça no Mercado Central e tomar um café no Nice. Pode conhecer também o zoológico que está todo organizado.


PD - Além de Belo Horizonte, quais cidades mineiras já receberam Homenagens através da sua música?
GH -
Já fiz músicas para diversas cidades mineiras .Fiz "Cantigas de São Francisco", homenagem a Pirapora.Compus para Contagem : "Eu já sei o que faço para afastar a tristeza de mim, eu vou lá em contagem trocar uma idéia em qualquer butiquim; Bater papo furado, saber das historias que tem por ali, ver muita gente chegando, trabalhando em contagem assim; Hoje eu vou pra contagem...". Uma muito tocada em Governador Valadares , "Lugarzinho bom, lugarzinho quente, é de coração que eu estou presente; Vou pra pescaria, vou ficar a toa...". Também fiz uma homenagem para a minha terra,Teófilo Otoni, "Rainha do mucuri" e no meu novo disco "Amigos e Canções" tem uma musica que fala sobre Sabará e a Estrada Real: " Jaboticaba, feijão tropeiro, Ora- pro- nobis o ano inteiro, banho de rio na cachoeira, doce de leite na compoteira..." . Ouvindo essas músicas conseguimos descobrir um pouco de Minas.

 

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