Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  • Hotel Grogotó
  •  

Olavo Romano - Outubro 2007

  • Olavo Romano - Janaina Oliveira

Histórias, causos, contos. O ser humano tem a necessidade de contar sua história, suas tradições, seus hábitos e seus costumes. Resguardar que os descendentes tenham acesso ao modo de vida das antigas gerações é uma das preocupações do escritor mineiro Olavo Romano. O que começou meio de repente, despreocupadamente, hoje faz parte da sua vida: contar a todos um pedacinho desse mundo velho sem porteira, a história de uma Minas Gerais encantada, contada e cantada.


Por Janaina Oliveira


Portal Descubraminas - O prazer em ler veio desde a infância. Mas o senhor não se contentou só em ler: passou a escrever também. Como começaram essas paixões?
Olavo Romano -
A paixão de ler começou muito cedo. Há pouco tempo comecei a reconstruir isto, e minha mãe disse que desde muito cedo eu aprendi a ler. Naquela época não existia pré-escolar, você entrava com no mínimo sete anos no primeiro ano primário. Entrei para a escola já semi-alfabetizado. Tinha um ambiente muito favorável em casa: pelo fato de morarmos muito isolados, meu pai assinava jornal do Rio de Janeiro. Não tinha rádio nem televisão nesta época, mas tinha um ambiente estimulante. Eu sempre gostei, é uma coisa que você nasce com isto.


Escrever, eu sempre gostei, eu sempre quis, mas comecei a escrever sistematicamente com mais de 40 anos, tive que dar uma volta muito longa até chegar na possibilidade de começar a escrever. Quando fiz 40 anos, tive um susto, pois as coisas passaram tão depressa e eu não fiz o que eu queria fazer. Foi um susto muito grande. Eu estava fazendo um curso nos EUA e, de longe, eu acho que a gente consegue ver a vida de uma outra perspectiva. Eu nunca tinha feito um esforço de escrever. Tinha um projeto de escrever um romance, ainda tenho, contando os cem anos de história de uma família numa região. Eu nunca tinha escrito nada, e descobri que isto poderia ser uma armadilha. Se você nunca escreveu nada e tem um projeto imenso, você fica paralisado. Li ou ouvi uma coisa: que toda caminhada começa com o primeiro passo e eu não sabia o primeiro passo.


Então eu resolvi que queria falar de Minas, deixei para depois o projeto do romance e focalizei casos que eu sempre ouvi contando nas solenidades que tem no interior, nos serões, os contadores de caso, os contadores de história, etc. E disse: bom, vou coletar estas histórias e vou escrever estas histórias. Foi onde eu comecei. Meu primeiro texto era o caso mais pronto que eu tinha. Quando eu acabei de escrever o texto, ele tinha oito linhas! Pensei: nunca vou escrever um romance. Mas aí, no outro dia, fiz um de doze, no outro fiz um de quinze... Descobri que precisava ter persistência. Criei um horário, uma disciplina, e escrevia todo dia, todo dia e, no final de um ano, eu tinha uma pasta com uma média de 30 linhas cada texto. Então eu comecei a publicar. Durante oito anos tive uma coluna semanal no jornal "Estado de Minas", e a coisa foi caminhando. Terminei o meu trabalho e me aposentei. Hoje só cuido disso: ou falando, ou escrevendo, ou dando palestra, que era onde eu queria chegar.


PD - O senhor é um pesquisador, folclorista e "contador de causo". Conte um pouco sobre seu trabalho como pesquisador.
OR -
A partir do momento em que eu resolvi focalizar os contadores de casos, um dos fatos que me marcou foi a chegada da televisão no lugar onde eu nasci, Morro do Ferro, um distrito de Oliveira. Eu pensei: os velhos morrem, os jovens vão embora atrás de trabalho, a televisão está aqui e estes saraus nas portas das casas à tardinha, no início da noite iam acabar. Quando aconteciam reuniões com minha turma de conhecidos e contavam histórias, eu comecei a listar isto.


Nessas reuniões semanais sempre chegavam com tios, avôs... Eu não sei se eu seria bem um pesquisador. Eu "toco de ouvido" as coisas. Eu fui atrás de contador de histórias na minha terra. Depois que comecei a publicar os casos no jornal, as pessoas me convidavam para visitá-los, para ver outros contadores de histórias. E teve um momento em que me convidaram para contar casos. Eu nunca tinha contado, acabei entrando no esquema. Contei numa república de Ouro Preto, depois no Palácio das Artes e hoje eu acabei assumindo isso. Trabalho de todos os lados: animando rodas de histórias, pondo gente para contar histórias.


Tudo é um processo muito intuitivo. Eu estudei Direito, inglês, algumas coisas de planejamento educacional... Andei ciscando em muitos terreiros, mas isto eu faço por intuição. Acho que não sou folclorista nem pesquisador. Eu costumo brincar, sobre um provérbio antigo, que fala que "em festa de inhambu, jacu não entra". Mas eu sou um jacu em festa de inhambu, ciscando no terreiro do outro e vendo como funcionam as coisas do lado de lá.


PD - Seus causos e suas pesquisas falam de Minas, dos mineiros. O senhor conta histórias que ouvia quando menino na roça, os causos do Brasil rural. Porque este interesse no interior de Minas Gerais?
OR -
Eu fui atrás da minha trajetória. Eu saí de um lugar pequeno, no interior de Minas, que hoje você vai lá com duas horas e poucos minutos... Eu saí de Morro do Ferro e fui estudar em Oliveira e só voltava nas férias. Hoje são 30 km de estrada asfaltada, em menos de meia hora você vai. Se você volta no tempo, podemos ver uma região isolada, sem telefone, sem asfalto, sem luz. As pessoas viviam na zona rural, 80%. Eu assisti essa passagem do rural para o urbano.


Eu saí de Morro do Ferro e tinha só grupo escolar. Hoje tem colegial lá, um exemplo da mudança. E, de certa maneira, eu percebi este processo de mudança, e eu tentei registrar um pouco deste momento, ao mesmo tempo numa questão pessoal, num processo de recuperação da memória de família, dos casos com amigos, da infância. Então, por que Minas Gerais? Porque é o meu caminho... No início nem era Minas Gerais, era Morro do Ferro e adjacências. Depois eu fui vendo que o que acontecia em Morro do Ferro é o que acontecia em todo o Estado, em todo o Brasil da época.


PD - No seu trabalho de registro de casos do interior do Estado há uma preocupação em preservar seus contos, causos, pequenas histórias. Qual sua preocupação com o patrimônio imaterial?
OR -
Ao mesmo tempo em que tento acompanhar a tecnologia, as coisas de que falo são coisas muito antigas. Um menino de dez, quinze anos deste Brasil no qual eu vivia, no qual eu fui criado, é uma coisa muito louca. A rapidez da mudança nas duas últimas gerações é uma coisa extraordinária. Quando eu era menino, meu avô e meu pai viviam no mesmo mundo, a cabeça era a mesma. As coisas mudavam muito pouco e muito lentamente. De repente, você vê com a internet todo o processo de modernização das comunicações, o mundo mudou muito.


Você não tem mais tempo nem espaço. Tudo é instantâneo, tudo é simultâneo, tudo acaba na mesma hora. Essa coisa da modernidade, tudo é supérfluo. E eu venho de um tempo e de um lugar em que estas coisas tinham noção da história do avô, da ancestralidade, da herança cultural. É inevitável, acho até que é um processo natural, de conviver com a mudança que você preserva o passado que, de certa maneira, tente deixar um pouco desta herança para quem vem depois. Você sabe quem você é? Você é muito do que você herdou. Cada um de nós carrega em si as mesmas lembranças, as mesmas memórias... o DNA mostra isso. O primeiro ser humano da Terra está presente em cada um de nós até hoje. Também a cultura tem que seguir este processo. Pode ser uma coisa inconsciente esta coisa de se preservar, de se deixar registrado para quem vem depois de você.


PD - Quem é o mineiro para o senhor? Como o senhor tenta passá-lo através de seus contos?
OR -
Nosso Estado se chama Minas Gerais. Eu já vi alguém traduzir para os americanos como "general mines", como se fosse Minas Gerais no sentido de que estas minas existiriam em todo o Estado. Apesar de, quando estamos falando de Minas Gerais, estamos falando das minas e de um território das gerais ou dos gerais. O geral de Guimarães Rosa é uma região que, geograficamente, é demarcada na topografia, etc, etc... Tem o cerrado, a grande característica do geral, onde não tem cerca, não tem fecho, não tem limite. É um mundo velho sem porteira. Então, você tem o mineiro e o geralista. O geralista, que é o habitante dos gerais, é um sertanejo, é o homem do sertão, é o homem do campo, o homem da pecuária. O mineiro, historicamente, é o homem criado nas minas, no lugar de mineração. Eu acho que é possível, isto não é uma afirmativa, mas eu acho que é possível, assim como se tem uma distinção entre o habitante da montanha e o habitante do litoral, nessas muitas Minas que existem aqui..


Nós temos uma Minas mais baiana, uma mais paulista, outra mais capixaba, outra mais carioca, goiana... Assim como temos estes segmentos aqui, estes cortes, a região da mineração e a região da pecuária. O que era a região da mineração? Uma região de desconfiança, de tudo ou nada, que o sujeito vinha pra cá para fazer fortuna. Houve um momento na história de Minas que a população de Ouro Preto era maior que a de Paris. Então, era um salve-se quem puder! O governo fiscalizava, a polícia estava aqui. A existência das minas acelerou o processo de instituição do governo aqui. Com o aumento da população tinha que ter Justiça, Polícia, Fisco, as Casas de Fundição para se evitar o contrabando. Um aparelho de governo se montou aqui. A desconfiança também imperava. Esse caráter de desconfiado, matreiro, meio negocista do mineiro, é mais fortemente presente na região das minas. É claro que isso não é uma coisa que apareceu de uma hora para outra. Esta esperteza veio também junto com os ladinos, os judeus portugueses, das minas. Era a vida e a morte de repente. Saía-se com pedras de diamantes, de ouro, saíam por um caminho que não era a Estrada Real, que era também a estrada dos assaltos, da bandidagem. Era provavelmente uma defesa. Era uma situação agreste.


PD - O senhor é fã da obra de Guimarães Rosa "Grande Sertão: Veredas". Qual a importância desta obra para o senhor? Há influência dos livros de Guimarães Rosa em sua obra?
OR -
Guimarães Rosa é um marco, é um furacão na minha vida. Li Machado de Assis, Olavo Bilac, Humberto de Campos, Gonçalves Dias e outros escritores, e antes do Guimarães Rosa, li o Mário Palmério, que tem semelhanças com estes confins. Tem alguns paulistas uns gaúchos que, nessa história de contar caso, que já tinham uma tradição, como Simões Lopes Filho, no Rio Grande do Sul, o cordel no Nordeste, que é uma forma de contar histórias. Um dia, você pega "Chapadão dos Bugres" e "Vila dos Confins" e vê que existe uma possibilidade de contar uma história de uma maneira muito próxima do mundo que você vive ou que você conhece. Dei "Vila dos Confins" para meu avô, que era um homem que lia pouco, fazendeiro que tinha estudado muito pouco, dizia que "é isso mesmo, esse cara sabe". Era como se a realidade do interior de Minas tivesse merecido chegar a virar livro.


Na verdade não cheguei ao "Grande Sertão" de cara. Dei muito com a cara na parede com a obra. Custei muito a achar o caminho. É curioso pensar que García Márquez, que foi um autor que marcou a minha vida, E Guimarães Rosa que tem livros maravilhosos, romances importantíssimos, nenhum dos dois começou por aí. Eles vieram pela beirada, com livros menores, com textos menores. Quando bati com a cara em "O Grande Sertão" pela segunda, terceira vez, eu voltei a "Sagarana", mas com a vantagem de que, como ele morou em Itaguara, que é no meio do caminho entre Oliveira e Belo Horizonte, eu comecei a reconhecer situações, paisagens, lugares, etc. esse mundo aqui eu conheço. Esse acara está falando uma coisa que eu sei o que é. E você vem vindo, e passa por "Sagarana", faz uma viagem Minas agreste, antiga, meio arcaica, para você poder entrar em "O Grande Sertão".


Para ler o "Grande Sertão", você precisa se despir de muitas coisas, esquecer muitas coisas, e entrar de peito aberto, se propor um salto no desconhecido. Eu acho que vale a viagem. E cada vez que você lê, você lê outra coisa, você vê outra música, você descobre outro detalhe. E quando você anda pelo interior de Minas, você encontra muita gente que merecia estar no "Grande Sertão". Andei pelo Rio São Francisco, por lugares que ele andou e é uma coisa muito forte. Ele pegou uma coisa que é muito nossa, essencialmente, muito intimamente, e falou por nós coisas muito significativas. È uma marca que, quantas vezes você se animar a ler, sempre vem uma realidade ali.


PD - Em um certo relato seu, voltando a Morro do Ferro, o senhor se deparou com a chegada da TV àquela localidade e temeu que as novas tecnologias pudessem colocar em risco a tradição e a cultura. O senhor acredita que este impacto dos novos meios prejudica e até mesmo acabando com algumas tradições mineiras?
OR -
Aquilo foi uma coisa que eu acho benéfica para mim, porque me impulsionou. Estava cheio de compromisso, e ia adiando, adiando o projeto, e aquilo me pôs um limite, me obrigou a fazer tudo o que eu quis fazer. Mas as novas tecnologias, primeiro, vieram para ficar. Não adianta você querer brigar com elas. Pelo contrário, acho que são muito úteis, muito importantes. E estou experimentando hoje o outro lado. Tem um texto meu que virou um curta, chamado "Negócio Fechado", que foi selecionado para Gramado entre cento e tantos curtas do Brasil inteiro. Em outubro sai um DVD com 30 casos que foram encenados: o projeto "Eta Mineiro, Jeito de Ser", que durou cinco anos, mobilizou mais de 500 pessoas, entre jovens atores e amadores, que foram para interior, indo em pequenas fazendas. Quando começou o projeto, pensou-se em fitas, e cinco anos depois virou DVD, mudou o suporte. Isso vai para as escolas, e espero que isso possa ajudar as pessoas a se ver ali, ver o avô, ver o tio, e valorizar isto.


E no interior, ajudar as pessoas reavaliar porque, geralmente, se subestima muito. A colonização é um processo muito atroz. Ás vezes você é depreciado, "desidentificado". Nesse mundo globalizado que nós vivemos, para você entrar em contato com outro e mergulhar nesse mar que está aí, você tem que saber quem você é primeiro, ter auto-estima, autoconhecimento, sentir o seu próprio valor para depois você entrarem contato com isso tudo, senão você vai ser engolido! Isso é uma coisa importante: saber qual é sua identidade, qual é o nosso jeito de falar, de pensar, de negociar, de passar o tempo, de se divertir. Nós temos uma personalidade. Esta tecnologia, esta mídia, pode ser uma aliada poderosa. Se por um lado, foi bom porque levei um susto, e me moveu em direção a um objetivo que, talvez, eu não cumprisse se não fosse aquilo.

Enviar link

Outras entrevistas