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Dona Lucinha - Fevereiro 2008

  • Dona Lucinha - Junia Teixeira

Em delicioso bate papo no típico restaurante de comida mineira, Dona Lucinha, fala sobre tradição, simplicidade e cultura gastronômica, conta sobre seus projetos e divulga a fantástica tradição culinária que faz parte da história do Estado.


Por Juliana Linhares


Portal Descubraminas: A culinária mineira é bastante variada. Das delícias de Minas, qual é o seu prato favorito e qual transmite e expressa melhor a cultura mineira?
Dona Lucinha:
Ninguém rejeita um prato mineiro. A aceitação da culinária mineira é internacional, porém existem pratos que chamam mais a atenção. É o caso do meu favorito, o frango com quiabo e angu. Esse é um prato com importância histórica e um trabalho que envolve três etnias. Quando falamos do angu temos uma leitura indígena, quando falamos do quiabo estamos lidando com a cultura africana e o frango é uma leitura de Portugal.


Esse prato também me traz muitas lembranças de preparo. Minha família recebia muito a visita de Juscelino no Serro e ele ficava louco com o sabor do frango com quiabo e angu. É um prato que tem histórica e agrada a todos.


PD: Junto com sua filha, Márcia Nunes, escreveu o livro "Historia da Arte da Cozinha Mineira", obra que registra valiosa informação e pesquisa sobre a culinária em Minas. Quais são suas principais fontes de pesquisa, os livros de consulta, os colaboradores?
DL:
Minhas fontes de pesquisas são as cozinhas antigas, os engenhos, o convívio com as famílias e os cadernos velhos cheios de anotações. Desde criança procuro guardar tudo que vejo e escuto. Nunca fiz um curso especializado e muito menos faculdade, o meu conhecimento é tudo aquilo que guardei durante anos na memória. O meu medo era repassar esses conhecimentos, é ai que entra a minha filha Márcia. Ela é meu suporte. Só me senti segura em escrever o primeiro livro com a aprovação e aceitação de profissionais. Minha filha é muito cautelosa e procurou orientação com uma segunda historiadora. Juntas, pegamos o retalho e costurarmos uma bela colcha.


PD: Já desenvolveu trabalhos como professora, diretora e vereadora. Quando foi que se descobriu uma pesquisadora da culinária mineira?
DL:
Sem dúvida o momento que despertou minha atenção para as pesquisas foi durante os 30 anos como professora. Nesta época tive um grande impacto. Observei que meus alunos escondiam coisas no mato e pegavam no final das aulas. Fiquei preocupada e curiosa a respeito do que eles escondiam e resolvi ir atrás das crianças para descobrir. Para meu espanto o que eles guardavam era comida. O caminho de volta para casa era longo e eles precisavam se alimentar antes de chegar em casa. Enterravam mandiocas com melado, fubá suado, mingau, torresmo e farofas. Quando vi aquilo falei: "meu Deus a cultura desse povo está escondida no mato". Hoje estou trabalhando em um livro sobre essa historia que vai receber o nome de "Merenda Escondida".


PD: A senhora é proprietária de dois tradicionais restaurantes em Belo Horizonte. O que despertou o desejo de ter um restaurante na capital mineira? Qual é o diferencial encontrado em seus restaurantes?
DL:
Tudo começou quando meu marido fez uma parceria com o dono do hotel Serrana Palace, Newton Drumonnd. Em quanto os dois trabalhavam com a mineração eu preparava a comida deles. Um dia o Newton Drumonnd, encantado com o tempero da minha comida, me convidou para cozinhar no seu restaurante e realizar um festival. Fiquei preocupada e com medo, mas acabei aceitando.


O festival fez tanto sucesso que o pessoal do Hilton me convidou para realizar um outro evento no Brazilton Contagem. Pensei que não iria dar conta e que tudo seria uma decepção, mas quando cheguei ao hotel vi tudo decorado como uma casa que tenho no Serro. Eu fiz umas choupanas em volta da piscina e cada uma recebia um pedacinho da cultura da culinária mineira. Mais uma vez o festival foi um sucesso e o diretor geral do Hilton me convidou para realizar o festival em São Paulo. Aos poucos, fui aprendendo a embalar e transportar mercadorias, organizar melhor os festivais e divulgar, além da culinária, artistas, artesanatos e músicos mineiros.


De São Paulo fui direto para o Rio de Janeiro. E foi um festival atrás do outro. Depois de um período de muito trabalho, meu marido resolveu frear esse carro. Pediu para parar com os festivais e sugeriu que abrisse uma casa na capital mineira para mostrar meu trabalho. Comecei a procurar um lugar em Belo Horizonte que transmitisse a cultura e os costumes de Minas. Depois de muita procura, meu filho encontrou uma casa na Savassi. O local era perfeito, porém o antigo dono tinha transformado tudo em uma casa moderna. O jeito foi modificar. O material que tirei daqui, foi doado para construção de uma casa de caridade.


PD: Já realizou e participou de diversos festivais de comida típica. Acredita que os festivais são formas de divulgação da culinária mineira? Qual a importância de eventos como esses para Minas Gerais?
DL:
As pessoas presentes nos festivais que participei, seja na Califórnia, Itália, Portugal ou no Brasil, ficam enlouquecidas pela simplicidade, tradição e história de Minas. Os festivais mostram tudo que a terra produz e são importantes para divulgar não só a culinária mineira, mas também a cultura do Estado.


PD: Apesar de ser cidadã honorária de Belo Horizonte, faz questão de demonstrar sua paixão por sua cidade natal. Do Serro, qual cheiro e sabor não lhe saem da memória?
DL:
Não sai da minha memória o barulho do carro de boi, o moer do engenho, a força do bater do pilão e todas as formas que levam o alimento para cozinha de uma forma variada mesmo com poucos recursos.


PD: A senhora é fundadora do "Instituto Dona Lucinha" que visa contribuir para a melhoria da qualidade na alimentação em nosso estado. Acredita que faltam projetos em Minas para zelar pela segurança alimentar da população?
DL:
Nada que conquistei seria suficiente se o Instituto não existisse. Lá oferecemos alimentação direcionada a idosos e crianças em forma da sopa da tarde, um projeto realizado junto com a Polícia Militar e cursos voltados para jovens, uma parceria com o Senac. As crianças ficam satisfeitas e nutridas, os idosos ganham reforço na saúde e os jovens ganham aprendizado necessário para trabalhar e têm acesso a cursos que eles não poderiam pagar.


Acredito que faltam projetos que façam um entrosamento entre o militar e a comunidade carente. É muito importante criar esse vinculo entre as duas partes para que haja confiança e respeito. Em nossos projetos, os policiais estão sempre presentes e trabalham como mensageiros. São eles que entregam o alimento.


PD: Em tempos de dieta, comida saudável, luta contra a obesidade e cuidados com a diabete, como a culinária mineira sobrevive com seus doces, gorduras e molhos?
DL:
A culinária mineira é saudável. O mineiro sempre teve boa saúde por ser criado com coisas da terra. Em minhas receitas sempre uso o sal em pitadas, pouco açúcar e a gordura só pra untar e não para encharcar o alimento. Não é gordura, sal e açúcar que fazem comida boa.


Meu marido é diabético e mesmo assim faço doces e comidas mineiras adaptadas para ele. O erro é que hoje querem preparar o alimento na correria e acabam usando enlatados. Alguns chefes de São Paulo já me disseram que nunca vou ganhar dinheiro com restaurantes, pois com apenas uma lata eles preparam, decoram e servem o alimento, enquanto tenho que plantar, colher e depois preparar.


PD: A senhora respondeu que o frango com quiabo além de transmitir a cultura da culinária mineira é sua receita favorita. Qual o segredo para preparar esse delicioso prato?
DL:
O segredo é encontrar em tudo motivos de alegria, fazer tudo com boa vontade, higiene e cautela. O pó mágico do preparo é a panela quente, tem que ter muito calor para deixar o prato saboroso.

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