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Ana Tunes - Abril 2008

  • Belo Horizonte - Ana Tunes - Junia Teixeira

Inimá de Paula foi um dos modernistas mineiros mais influentes. De traços e cores marcantes, há quem o considere o mais autêntico intérprete da chamada "sensibilidade tropical". Natural da cidade de Itanhomi, no Vale do Rio Doce, faleceu em 1999 em Belo Horizonte.


Deixou importantes contribuições para a arte brasileira e para reconhecimento de sua obra: ele próprio catalogou parte de seu trabalho e foi o primeiro artista ainda em vida a ter sua própria fundação.


Apesar de sua morte, seu trabalho não parou. Neste mês, a Fundação Inimá de Paula abre as portas do Museu Inimá de Paula, um espaço novo e moderno para receber grandes exposições e abrigar as obras do mestre Inimá. O portal Descubraminas conversou com Ana Tunes, diretora de Planejamento da Fundação Inimá de Paula.


Por Janaina Oliveira


Portal Descubraminas - A Fundação Inimá de Paula abre, em abril de 2008, o museu Inimá de Paula. Esse espaço, que foi sede do Clube Belo Horizonte, foi readaptado para a nova função?
Ana Tunes -
Começamos com uma reforma completa. Primeiro, pensamos no projeto arquitetônico elaborado pelo Saul Vilela. Na reforma constava as adaptações e os reparos de pisos, janelas, paredes. Foi pensada toda a adaptação necessária para receber um museu, como a iluminação especial para as obras de arte. Teve a parte de segurança que atendeu todas as exigências do Corpo de Bombeiros. Projetamos o cinema, que é um espaço novo. Tem o espaço da cafeteria, que vai convergir com a aura de arte do museu: os uniformes, o menu, os talheres e xícaras serão inspirados em obras de arte de Inimá. Esse espaço, que ficará aberto nas quintas-feiras, receberá apresentações musicais e funcionará num horário até mais tarde.


PD - Quando vocês pensaram na concepção do projeto, como foi aproveitado o espaço? O que de novo foi incluído?
AT -
O projetista pensou mais em recuperar e conservar o espaço como ele era antes, o que foi uma exigência do Iphan. Os pisos e as janelas são originais, foram todos restaurados. O elevador, da época em que o prédio pertencia ao Clube Belo Horizonte, está sendo todo restaurado, e vai servir às pessoas idosas e com necessidades especiais. Todos os espaços foram redesenhados. O que há de realmente novo são as escadas, que foram feitas de um modo que permite que seja visto todo o museu, e uma clarabóia que permite a entrada de luz natural, em formato de pirâmide.


PD - O que representa o museu Inimá de Paula para Belo Horizonte?
AT -
É a abertura de um novo espaço moderno e exclusivo para receber grandes artistas e artistas iniciantes, além de todo tipo de arte, como esculturas, instalações, performances, pinturas, que vai inserir Belo Horizonte no circuito brasileiro para receber grandes exposições. Todas as grandes mostras não passam por Belo Horizonte porque não tem um espaço estruturado como esse. A partir de agora tem um espaço todo adaptado, com iluminação especial, salas climatizadas, perfeito para receber qualquer exposição de nível internacional. Belo Horizonte agora está no roteiro das artes moderna e contemporânea no Brasil.


PD - Inimá está inserido numa fase Modernista da arte brasileira. O museu seguirá esta linha modernista ou estará aberta a outros estilos?
AT -
Vamos seguir um perfil híbrido, como é próprio da arte brasileira. Inimá é um mestre moderno, mas aqui o espaço paralelo vai ser uma plataforma para a arte contemporânea. Por ser um museu de Inimá, vamos sempre trazer mestres modernos, mas a arte contemporânea também vai ter seu espaço para instalações, vídeo-arte, todos os tipos de manifestações artísticas que tem hoje no espaço contemporâneo.


PD - A Fundação Inimá de Paula tem por objetivo preservar a memória e a obra de Inimá. Como é composto o acervo que ficará exposto no museu?
AT -
Haverá um espaço específico para o acervo de obras do Inimá, que será o espaço ateliê. Lá estarão expostos todos os objetos que ele usava nas pinturas. Todo o acervo pessoal dele estará neste espaço. O acervo da Fundação Inimá de Paula é a documentação e o mobiliário do antigo ateliê do pintor, sua coleção de livros que contém exemplares do mundo inteiro. Esse ateliê será remontado fielmente como era na casa dele. Os objetos desta galeria foram doados pelo próprio Inimá para a Fundação antes dele morrer.


A Fundação foi fundada pelo próprio Inimá. Esta, aliás, é um marco, pois é a única fundação criada com o artista ainda em vida.


A outra parte do acervo são as obras. Vamos ter aproximadamente cem obras que vão ser expostas em programas diferentes. Essas obras ficarão conosco por empréstimo comodato de colecionadores particulares.


Pretendemos também construir um acervo com obras de artistas que vão expor aqui. O foco desse acervo será arte contemporânea mineira.


PD - Outra importante iniciativa da Fundação é a catalogação das obras do artista. Qual a importância desta catalogação ?
AT -
É muito importante, porque é isso que preserva, conserva é dá credibilidade às obras do Inimá no mercado, pois a pessoa tem a segurança de que está comprando uma peça verdadeira, sabe que se vender daqui a um ano, dez, cem anos, gerações posteriores, vai poder estar com um certificado de garantia e autenticidade. Todos os colecionadores que tem obras do Inimá de Paula têm a garantia da veracidade.


O processo de catalogação reúne expertises, fotógrafos, o presidente da Fundação, toda uma equipe pronta para avaliar a obra, se ela é realmente verdadeira. Tira-se uma foto, que é colocada no certificado, assinado pelo presidente da Fundação Inimá de Paula. Depois, essa obra vai para o site (http://www.inima.org.br), que é o maior site da América Latina de um artista e suas obras.


De 1998 a 2008 nós catalogamos aproximadamente 2 mil obras, e estima-se que ele tenha pintado 3 mil. Então, já temos um número muito consistente do que é a obra do Inimá. Esse trabalho de catalogação está reunido em dois volumes de uma publicação da Fundação Inimá de Paula. No volume um, são obras catalogadas pelo próprio Inimá, juntamente com expertises. Já o volume dois, foi publicado após sua morte, só com os expertises.


As obras passam por um processo muito grande antes de entrar para os catálogos. É uma avaliação bem crítica, em que são avaliados o objeto, cores, ano... Todos os detalhes são avaliados pelos expertises, que foram treinados pelo próprio Inimá de Paula.


PD - O próprio Inimá de Paula analisou e autenticou mais de mil obras. Qual a importância da participação do próprio artista nesse processo?
AT -
Ele passou uma segurança enorme para os expertises. Foi tudo registrado em cartório. Eles são os únicos que podem avaliar a obra e provar a sua autenticidade, pois foram preparados pelo próprio Inimá, que lhes falava todos os detalhes. Eles foram treinados de uma forma bem prática. Viram, várias vezes, o Inimá quebrar quadros na frente do proprietário, porque era falso, e ele não admitia obras falsificadas. Os expertises são o Murilo de Castro, ex-presidente da Fundação Inimá de Paula, o Romero Pimenta e Eduardo Pacheco, que avaliaram as primeiras mil obras na presença do Inimá.


PD - No site da Fundação, quando vocês se referem ao museu, está escrito: "Museu Inimá - Um sonho se tornando realidade". Qual é o próximo "sonho" da Fundação?
AT -
Era um sonho ter um espaço, poder expor estas obras a todos, de senhores contemporâneos de Inimá a crianças, começando aí uma educação cultural, ter desde já essa visão artística, cultural. O presidente da Fundação, Mauro Tunes, criou uma base de aliados, que inclui o governo estadual, que cedeu o espaço para o museu. Mesmo achando difícil a reforma do local, acreditamos que a cidade merece este lugar.


O próximo sonho da Fundação seria ver isso funcionando de uma maneira que as pessoas aproveitassem da melhor maneira possível, principalmente as crianças, pois o Inimá falava que o sonho dele era vê-las tendo acesso à cultura. Para isso teremos a visita de escolas, aproveitando o espaço não só culturalmente, mas educacionalmente. As crianças de escola pública e privada terão aqui um espaço de convivência com a arte. O sonho é este: concretizar, aqui, na cidade, esse espaço para aprender sobre arte e expor arte de uma forma educacional.

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