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Yara Tupynambá - Junho 2008

  • Yara Tupinambá - Junia Teixeira

Uma visão lírica de Minas Gerais. É assim que a artista plástica Yara Tupynambá traduz o envolvimento com seus trabalhos. Cada um deles retrata um pedaço do Estado - seja em uma bandeirinha de São João ou em um grande painel retratando a Inconfidência Mineira. Nessa entrevista ao portal Descubraminas, ela fala de políticas públicas para a arte, novos artistas e lugares para exposições e alfineta: "Aqui, a arte não é feita para a população comum".


Por Junia Teixeira.


Descubraminas - A senhora utiliza diversos suportes para arte - tela, madeira, mural e escultura. Existe um preferido? É a criação que escolhe o suporte ou o artista?
Yara Tupynambá -
A tela é, para todo artista, o principal suporte para a realização de obras de arte. Há artistas que trabalham em madeira - o que exige uma certa habilidade, uma camada mais fina de tinta, que demanda maior cuidado e menores possibilidades de correções. Quanto à escolha do suporte, é o artista quem escolhe que suporte que irá utilizar para cada obra.


DM - É quase impossível não falar da senhora e de sua obra e não citar Guignard. Como foi sua relação de aprendizado com este mestre?
YT -
Botticelli é uma das referências de Guignard. Deste artista ele aprendeu a superposição de camadas para criar um terceiro tom, dando transparência. Essa foi uma das técnicas que Guignard trouxe para Belo Horizonte e seus alunos, desde Maria Helena Andrés - que é uma artista abstrata, mas usa a transparência - todos nós adquirimos esta "qualidade".


De outro lado, ele trouxe o desenho declarativo de Fra Angelico, que é a linha em cima da superfície. Chanina e Santa são algumas das alunas que ficaram com esta característica. Eu às vezes também utilizo esta técnica.


A pintura, se eu disser que é apenas técnica, se torna pobre. E não é só isso. A pintura é principalmente espírito, conceito. Guignard nos passou o conceito foi de uma poética com relação à vida, o olhar sobre Minas. Essa foi a grande herança que ele nos deixou; cada qual em seu caminho, na sua própria maneira de pensar, mas todos com uma visão lírica de Minas.


Hoje, acredito que essa visão lírica já não seria possível. A vida endureceu, complicou, ficou urbana. Então não vejo a possibilidade de um jovem de 25 anos ter uma visão lírica da vida. A minha geração ainda tem, porque fomos acostumados com isso e temos de certa forma, uma vida transcorrida entre plantas, amigos. Mas isso é algo que termina com nossa geração.


O jovem pintor será urbano, com certeza, mas é difícil saber onde ele vai chegar. Nós acompanhamos e vivenciamos as grandes festas populares. Esperávamos todos os anos a festa do Rosário, em torno da igreja, das barraquinhas. E era muito mais que uma admiração, era vivência. Qual é o jovem que acompanha e vive isso hoje em dia?


Uma visão lírica de Minas Gerais. É assim que a artista plástica Yara Tupynambá traduz o envolvimento com seus trabalhos.  Eu posso falar que tenho uma saga em torno de Minas Gerais. Começando pelo desbravamento do rio São Francisco - que foi uma das vias pelas quais Minas se civilizou, com os baianos entrando pelo norte do Estado à procura de terras para os grandes currais e gado, como Montes Claros e Grão Mogol, cidade que foram criadas antes do ciclo do ouro.


Sobre a Inconfidência Mineira - movimento político mais importante que Minas teve - há, na UFMG, meu mural de 40 metros, que ainda considero meu principal mural.


Sobre entradas e bandeiras, com toda a saga dos bandeirantes entrando em Minas. O mural do Tribunal de Contas que é a descoberta da terra até a indústria do ferro. Tenho toda a história do ferro no mural da Açominas. Tenho a história do comércio na Federação do Comércio. Tenho a história da tecelagem no Sindicato de Tecelagem. O ciclo do diamante no Ministério da Fazenda.


São vários ciclos. Meu mais novo trabalho é sobre Santos Dumont - importante figura mineira - e os ciclos geográficos como Serra do Cipó, Vale do Rio Doce, Jambreiro. Eu praticamente rodeei a história de Minas toda, da história à geografia.


Os murais políticos eu considero como os mais interessantes, pois falam da liberdade humana. Vou fazer o da Câmera Municipal que vai focar a luta do homem pela liberdade e, depois, a paz. São duas faces do ser humano com enfoque político. Esses murais correspondem ao conceito do artista mexicano Diego Rivera, quando ele diz que "o mural é um livro aberto onde lê o povo." Todo mural tem que ter um significado. Não há sentido em fazer um mural de flores meramente decorativo.


DM - O Instituto Yara Tupynambá trabalha com a formação e qualificação de artesãos. De onde veio a preocupação com o artesanato?
YT -
Foi criado em 1987. Sempre achei que muitos têm mais força que um só. Era hora dos artistas se reunirem para expor juntos, o que também facilita pra gente. Congreguei vários artistas e nós começamos a ter trabalhos conjuntos em exposições, edições de álbuns e atividades.


Fui designada gerente cultural do Centro de Artesanato Mineiro. Sempre gostei muito do artesanato mineiro e conheço bastante desse artesanato. Havia um trabalho burocrático, mas também uma preocupação com o artesanato. Percebi que a qualidade era muito ruim. O mercado se abria para a exportação do artesanato e não dava para segurar um centro com uma qualidade ruim.


Buscamos recursos para realizar cursos de artesanato. O primeiro foi direcionado para a tecelagem em Resende Costa. Trabalhamos dando noções de cor, melhoria de gestão. É hoje este é o principal centro de tear mineiro, na minha opinião.


Depois quis melhorar a cerâmica mineira. Posteriormente, já sob a direção do professor Antônio Machado, ofícios de pedreiro, bombeiro, eletricista passaram a ser considerados por serem realizados manualmente de maneira artesanal.


Hoje, o Instituto Yara Tupynambá trabalha na linha artesanal com diversos cursos e com linha da construção civil de trabalhos manuais. Mais de 4 mil alunos foram beneficiados pelos cursos. No ano de 2007, trinta mulheres que nunca haviam pregado um botão e nem sabiam pegar numa agulha, aprenderam bainha, corte, costura e no final de nove meses elas realizaram um desfile criando moda. E dentro de sua comunidade elas continuam exercendo a profissão. É muito gratificante. Agora, estamos preparando para elas um curso de alta costura.


Não queremos um artesanato repetitivo, mas criativo. Há um artesanato de carregação - chaveiros, bonecas de geladeira, canetinha - que é uma grande produção associada à industrialização com preço baixo. Há o artesanato de tradição, que conservam o passado, como o tear mineiro, o trabalho em estanho de São João del-Rei. A produção e o preço são médios. Um artesanato de todo é a criação, o que é mais difícil. O fio que divide este artesão do artista é finíssimo, pois a diferença está apenas na repetição de determinados trabalhos. Exemplos desse artesanato criativo é Arthur Pereira, Gentio Diniz que são criadores. O preço é alto e a produção é pequena. Estes não precisam de auxilio.


DM - A falta de políticas de incentivo às artes em Belo Horizonte é clara. Ao mesmo tempo, um novo prédio será construído para a Escola de Belas Artes da UFMG, visando atender ao público dessa escola. Se há pouco incentivo, o que é responsável pelo crescimento, ainda que espacial, de um dos principais núcleos de produção de artes em BH?
YT -
Fazer arte aqui está cada vez mais complicado. O aprendizado básico não está sendo feito nas escolas de Belas Artes que é, a meu ver, o desenho. Ficou-se muito nas teorias, nos conceitos exóticos, mas na verdade não tenho visto sair gente jovem com muita qualidade. Não há, efetivamente, a relação entre público e artista. Poucas exposições têm caráter didático. O sujeito entra e sai sem perceber nada, apenas fala se é bonito ou feio. Onde estão os grandes colecionadores, as grandes exposições de coleções. Não tem em Belo Horizonte. É raro uma exposição, como a de Petônio Bax, no Palácio das Artes.


Os lugares como o Palácio das Artes tem sido usado apenas como aluguel. Se eu quiser expor pneu é possível. Não há uma programação cultural permanente. Falta apoio a estas fundações, falta o artista que conhece história da arte profundamente para delimitar esta situação, falta o governo entender que é preciso verba e gente com qualidade para fazer, pois uma boa exposição tem alto custo, envolve montagem, livro, produção.


As pessoas que dirigem os grandes espaços não percebem que o mundo mudou. Se quiserem fazer uma exposição com quadros originais de Guignard não é possível, pois os colecionadores não emprestam, fica caro. É preciso o processo de reprodução, de plotagem, que se aproxime do real. Exposições didáticas têm que usar os recursos tecnológicos de hoje. A falta de planejamento é outro fator, pois se trabalho com reprodução, esta mesma exposição pode corres dez cidades, pois há espaço para isso e aí o preço cai pois se divide em dez.


A reprodução deve ser uma parceria de secretarias de governos e empresas que investem em cultura e artesanato como Sesc, Senac, que serão detentores desse material que vai circular. Mas, essencialmente, deve ser uma iniciativa das secretarias de cultura. É preciso pessoas da área e com vontade de fazer acontecer.


DM - Como a senhora avalia os novos espaços que se abrem para as artes, como o Museu Inimá de Paula e o Centro de Arte Contemporânea Inhotim?
YT -
Acho ótimo. Hoje um espaço de coleção parada quase não existe mais. É preciso uma idéia de um museu dinâmico. Uma pequena galeria aberta com bom gosto e com gente boa será sempre um estímulo. Não importa se é um espaço maior, como o Museu Inimá de Paula ou um espaço pequeno, como o da Assembléia Legislativa. O Inhotim tem uma proposta muito contemporânea que ainda não definiu no que vai ser. Algumas coisas são interessantes e outras eu acho que não, mas tudo é história e o tempo em que vai selecionar e veremos o que vai ficar como amostragem do tempo que peneira.


DM - A senhora acredita que a arte á para todos?
YT -
Ela, no momento, não é. Poderá ser, desde que haja um trabalho didático de profundidade como existe na Europa, onde os grandes museus levam crianças desde os seis anos de idade com professoras especializadas que ensinam, qualquer chofer de táxi tem uma formação cultural e acesso aos grandes museus.

Aqui, a arte não é feita para a população comum. Não há acesso. Não basta abrir a porta, é preciso uma formação didática. Não adianta ir ao Inhotim se não se tem um conhecimento de história da arte, vai achar a paisagem maravilhosa, mas vai ficar perdido quanto às exposições, vai achar esquisito e fica por isso mesmo, pois a pessoa não tem uma formação básica, que tem que começar nas escolas. Sem essa formação não se faz cultura.

Esse processo didático é uma política cultural. A parte musical da arte tem sido feita, como as bandas das cidades de Minas, mas a parte de artes plásticas não tem sido feita. Talvez por ser mais complexo, pois um quadro não circula mais.


DM - Da nova geração de artistas quais poderia citar como promovedores da essência mineira?
YT -
Vou dizer da arte e não apenas de Minas. Leo Brizola é um artista que considero importante. Ele trabalha sobre os mitos e as angústias do homem. Luiz Vieira; Leonora Weissmann, que trabalha sobre o mundo urbano que ela vive; Marcelo Albuquerque, com uma visão muito interessante. Tem gente jovem com bons trabalhos.


Hoje, muita gente começou a pintar sem um preparo, sem passar por escolas ou passando "mal, mal". Todo mundo se dá ao luxo de pintar. Eu agora vou ser médica sem estudar. Mas é preciso preparo. Esses que citei, jovens na faixa de 30, 35 anos, passaram por escolas e são muito bons artistas


DM - A série Signo de Minas é um exemplo da presença do Estado em suas obras. Cite sete signos que melhor representa Minas Gerais.
YT -
O casario das cidades históricas, festas populares - festa do Divino, bandeirinhas de São João, os santos, os oratórios, velhos bules da roça, os dourados das igrejas, os arabescos, as flores do campo, as coisas do artesanato mineiro, da nossa cultura. Esses signos eu procuro incluir em meus trabalhos.

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