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Carlos Felipe - Agosto 2008

Em bate papo com o Portal Descubraminas, no Centro de Tradição Mineira, Carlos Felipe Horta, um dos maiores folcloristas do Brasil, falou sobre seus 14 livros publicados, destacou a importância da tradição cultural para o potencial turístico, citou seus escritores favoritos e deu dicas de passeios para o inverno em Minas Gerais.


Por Juliana Linhares


Descubraminas: Todos os seus livros publicados registram festas, danças, lendas, diversas manifestações folclóricas e valiosas informações culturais do povo brasileiro. O que ganha destaque no estado Minas Gerais?
Carlos Felipe:
Por ser de Minas Gerais tenho mais aceso a materiais sobre o Estado, o que faz meus livros apresentarem o fator mineiro de forma fundamental. Hoje já são 14 livros publicados. O primeiro foi sobre festas juninas em Minas, fizemos uma abordagem das origens de festas e das tradições dos santos juninos. A partir daí passamos para outros tipos de livros, pesquisamos cantigas, músicas brincadeiras, festejos e muitos outros temas. O último foi "O grande livro do folclore", um levantamento feito no Brasil sobre as 5 regiões brasileiras, estudadas sobre todas as angulações folclóricas, desde a origem histórica e social de cada região até fatores sobre sua culinária, artesanato, lendário, mitologia, enfim tudo aquilo que faz parte da cultura popular de cada região.


DM: Para desenvolver os livros quais são as suas principais fontes de pesquisa?
CF:
Sempre tive envolvido com a cultura popular. Com meus pais, tios e avós recebi informações naturais. Todos estavam ligados de alguma forma com essa cultura. Com eles aprendi sobre congado, rezas, cantigas e culinária. Também formei em Filosofia e estudei Sociologia e Política e trabalhei como jornalista e professor. Todos os cursos me proporcionaram maior conhecimento da cultura. Ser editor de pesquisa do Estado de Minas também me abriu campo para muito trabalho nessa área.


Também consulto vários escritores. O mais evidente é Luís da Câmara Cascudo, grande mestre da cultura brasileira. O segundo é Saul Alves Martins, pra mim um gênio da cultura popular. Depois Guimarães Rosa, minha paixão literária. Não posso deixar de citar Fernando Pessoa, Carlos Drummond Andrade e Luís de Camões, mestres na arte de escrever com harmonias nas palavras, e Mario de Andrade, que pra mim abriu espaço para quem se dedica a estudar a cultura popular brasileira.


DM: O Folclore é um segmento da cultura popular brasileira que condensa uma série de ritos e tradições passadas de gerações para gerações. Em uma época de correrias, avanços e tecnologias, você acredita que as localidades vêm perdendo a identidade cultural?
CF:
A cultura de massa faz nascer um novo universo à medida que os meios de comunicação, como TV, rádio e a internet, entram na vida das comunidades e transformam as culturas regionais. Por outro lado, estamos vivendo um momento em que o mundo demonstra uma aversão à cultura de massa. Nunca existiu tantas pessoas procurando manter e preservar a identidade local. Uma tentativa instintiva de manter as tradições. O simples fato de termos um portal como o Descubraminas é um demonstrativo que queremos preservar a cultura.


DM: O que a Comissão Mineira de Folclore faz para manter e resgatar a cultura folclórica?
CF:
Manter a cultura do povo é manter a identidade cultural de cada um. A Comissão Mineira de Folclore, junto com o Centro de tradições mineiras, tem a responsabilidade de formatar projetos, buscar leis de incentivo e auxilio de entidade privadas, além de parcerias com entidades como a Belotur, a Secretaria de Cultura, tudo para manter tradições culturais.


DM: Em agosto, os olhares se voltam para o Folclore. O que o Centro de Tradições Mineiras está preparando para celebrar o mês dedicado às manifestações folclóricas?
CF:
Até o fim do mês de agosto teremos atividades todos os dias. A programação inclui cursos, palestras, exposições, oficinas. Teremos o lançamento de um CD de folia de reis e um livro sobre a cultura popular no norte de minas, tendo como base a guerra do Paraguai no século XIX. Também a celebração da Missa Conga, a introdução na Comissão Mineira do Folclore de 4 novos membros e a comemoração dos 60 anos da comissão. Além de eventos tradicionais como a festa de iemanjá na lagoa da Pampulha, que já ultrapassa 50 anos de tradição ininterrupta.
Confira a programação completa.


DM: Em Vespasiano existe o Museu Folclore Saul Alves Martins, considerado valioso por sua biblioteca de exemplares raros. Em Minas existem políticas de incentivo à criação e manutenção de espaços como este?
CF:
O museu Saul Alves Martins está entre os 5 melhores museus de cultura popular do Brasil. Sobre políticas de incentivo, não posso falar pela secretaria, mas sei que a ela possui uma lei de incentivo. É preciso que cada um se inscreva e corra atrás do apoio. Porém nem o Estado e nem o município tem interresse de criar esses espaços por livre vontade. As políticas partidárias não olham muito o lado cultural. Mas a culpa é nossa, pois não cobramos o suficiente. É preciso exigir e buscar.


DM: Algumas cidades são famosas por suas tradições. Quando foi editor do Caderno de Turismo do Estado de Minas, fez questão de divulgar e destacar os festejos e essas cidades mineiras. O que os outros municípios devem fazer para conquistar o mesmo destaque de cidades como Jequitibá, reconhecida como a Capital Mineira do Folclore?
CF:
São muitos os municípios mineiros com grande importância cultural. Em Oliveira encontramos a folia de reis, Pirapora ganha destaque pelo artesanato, em Dores do Indaiá e Uberaba observamos os ritmos locais e Montes Claros realiza um mês inteiro dedicado ao folclore. Também temos Serro, Diamantina e Conceição do Mato Dentro, todas famosas por suas modinhas, festas dos divinos e serestas. A capital tem riquíssima cultura popular. Belo Horizonte é a única cidade brasileira que tem um dia municipal dedicado a seresta, dia 18 de setembro. Foi em BH que nasceu o projeto Minas ao Luar, e o projeto seresta ao pé da serra, que comemora 25 anos. O que esses municípios precisam é aprender a se valorizar e reconhecer a importância da cultura e identidade de cada cidade. Um exemplo é Salinas.A cidade aprendeu a valorizar a sua cultura e hoje temos um lendário da cachaça, um patrimônio cultural.


Utilizei muito o espaço que o jornal Estado de Minas me ofereceu para realizar muitas pesquisas. Consegui ver Minas como um grande roteiro turístico, porém percebi que a maior parte dos municípios não tem consciência da importância que cada um tem. Os jornalistas têm dever em divulgar os valores de Minas Gerais, mas precisamos da ajuda dos municípios. Quando chegamos em um município e perguntamos o que tem naquele lugar, a resposta quase sempre é que não existe nada. Na medida em que essas regiões se valorizarem, vão ter uma importância no cenário nacional.


DM: Você é detentor de uma grande coleção de discos de músicas brasileiras. Quantos discos possui? A sua coleção é aberta para pesquisadores da música folclórica?
CF:
Tenho 66 mil discos. Todo esse material ainda não é aberto ao público. Não tenho condições, inclusive econômica, de abrir para consulta. Eu teria que dedicar tempo para organizar, catalogar e colocar pessoas capacitadas para atendimento. Tenho a intenção de fazer isso, afinal minha coleção sobre cultura popular provavelmente é uma das maiores de Minas. Consegui fazer com que isso tudo chegue ao publico será uma grande felicidade.


DM: As férias estão chegando e muitos aproveitam para passear por Minas Gerais. Quais municípios você indicaria para aqueles internautas que pretendem conhecer melhor a cultura e as tradições mineiras?
CF:
O inverno mineiro é quentíssimo. Durante o mês de julho a cultura aflora de todos os jeitos e em todos os eventos. É época de muitos festivais; temos o festival da UFMG, festival de música antiga de Juiz de Fora, Festival de São João del-Rei e muitos outros. Também é uma fantástica época para curtir o inverno das montanhas mineiras, onde você vive temperatura que muitos acreditam só encontrar em Santa Catarina. Uma excelente época para conhecer a serra do cipó, do Espinhaço e da Mantiqueira.

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