Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  • Hotel Grogotó
  •  

Flávio de Lemos Carsalade - novembro 2008

  • Arquiteto, professor e escritor Flávio Carsalade - Divulgação

O arquiteto urbanístico, professor doutor e escritor Flávio Carsalade conversou com o Descubraminas. Entre os assuntos, ele citou a Pampulha e a importância dos bens matérias, imateriais e tombamentos.


Por Ednardo Oliveira Maximiano


DM - Minas Gerais possui um riquíssimo patrimônio material e imaterial. Quais os aspectos relevantes que uma obra precisa para ser tombada ou registrada por um órgão competente?
FC -
Os bens patrimoniais são aqueles que as sociedades reconhecem como sendo importantes para referenciar sua memória e identidade. Assim, os bens por si só não são "automaticamente" patrimoniáveis por sua excepcionalidade ou presença, mas dependem do reconhecimento social e da sua importância referencial. Há poucos anos atrás, só eram reconhecidos como patrimônio aqueles bens de caráter excepcional, ligados à excelência estilística ou a determinados períodos históricos e ligados à história política ou religiosa. Assistimos hoje a um alargamento desse conceito, voltando-nos também para os bens.


DM - O Queijo Minas é sinônimo de qualidade em todo o país. E o modo artesanal de se fazer o Queijo Serro foi o primeiro bem no país a ser registrado como patrimônio imaterial, em 2002, pelo IEPHA - Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais. Conte para nós, em reflexão particular, a importância do patrimônio imaterial.
FC -
Temos assistido ao longo dos anos a uma verdadeira transformação nas relações das comunidades com seu patrimônio cultural, tornando clara a função social da cultura. Essas transformações mostram a importância do patrimônio cultural na construção de uma verdadeira nação, não apenas no sentido estrito do sentimento de pátria, mas também como alternativa de inclusão social, democratização dos bens culturais e geração de emprego e renda. A base dessa maior importância da cultura está no entendimento de que o patrimônio cultural, como herança comum, vai muito além das belas letras e das belas artes, se tornando uma verdadeira carteira de identidade dos povos, aquilo que os caracteriza e os personaliza como habitantes de um dado lugar e os coloca como elos de uma corrente histórica, conferindo-lhes a sensação de pertencimento e singularidade. Para que esta unicidade se marque de forma mais integral é preciso que os bens culturais sejam identificados amplamente quer nas suas manifestações materiais (edifícios, cidades, artefatos artísticos) quer naquelas manifestações de caráter imaterial ou intangível (aquelas que existem de forma latente e se materializam quando são "evocadas").


DM - O projeto de transferência dos profetas do Aleijadinho em Congonhas para um museu é polêmico. A população quando soube foi contra a transferência. Como você analisa essa questão?
FC -
Um dos maiores problemas técnicos quanto ao patrimônio cultural é exatamente o da sua conservação com relação aos desgastes produzidos pela passagem do tempo e pela sua exposição pública (sujeito a vandalismos, toques constantes, etc.), fatores esses minimizados quando o bem se encontra em ambientes controlados. Os que defendem a sua permanência evocam questões ligadas a uma autenticidade e uma suposta falsificação que ocorreria se eles fossem substituídos por réplicas. São posições irreconciliáveis, pois baseadas em valores diferentes, pragmáticos uns, idealistas, outros. A meu ver, uma falsificação só ocorre quando ela tem a intenção de enganar: réplicas não são falsificações se apresentadas como réplicas. A Europa já superou essa questão com a vertente pragmática: em Florença, por exemplo, muitas das obras espalhadas pela cidade são réplicas.


DM - Existe em Minas uma política de educação patrimonial eficiente? Qual a melhor forma de conscientizar uma comunidade?
FC -
Uma política de educação patrimonial se faz sobre diversos eixos de ação. Um deles: junto à formação escolar, não como disciplina autônoma, a meu ver, mas paralelo aos conteúdos de geografia, história, português. Outro: junto aos agentes e comunidades que lidam diariamente com os bens culturais (padres, gerentes, até mesmo encarregados de limpeza). Outro eixo, ainda: o grande público, a sociedade difusa, através de campanhas e esforços de conscientização. Apesar de todo o esforço e o trabalho muito bom do IEPHA/MG nesse campo, parece-me que em Minas essas ações não se dão ainda de forma sistêmica, abrangente e articulada, pois isso é uma tarefa em que deveriam estar engajados todos os setores do Governo de Estado, Secretaria de Educação, Secretarias de Desenvolvimento Social, etc. o que não sei se está ocorrendo de fato, embora difusamente, a sociedade esteja exposta a uma crescente conscientização e valorização de seu patrimônio. O desafio é, portanto, criar estratégias multiplicadoras, não se restringindo a ações isoladas.


DM - As cidades crescem cada vez mais em números de habitantes e o espaço vago fica cada vez mais raro. Você acredita que através da arquitetura é possível melhorar a qualidade de vida no meio urbano?
FC -
Costumo dizer que não é que o espaço esteja cada vez mais raro, mas a natureza do espaço é que deve ser repensada. Temos uma infinidade de espaços intersticiais, fragmentados, residuais, ociosos ou vagos com utilização inconsistente ou subutilizados. Não acredito que uma cidade que permita construir tanto como BH (até 3 vezes a sua área territorial, dentro dos limites da avenida do Contorno, por exemplo) tenha problemas de espaço. Acresce-se a isso, a pouca democratização do espaço urbano e a dificuldade de acesso da população à própria cidade e suas potencialidades. Claro que o arquiteto pode ajudar muito nessa questão: o espaço é nossa matéria e a melhoria da qualidade de vida nesse espaço é nossa missão.


DM - Várias construções em Belo Horizonte resistem à especulação imobiliária e ao tempo. O que na capital merece ser tombado?
FC -
A capital mineira tem uma bela política de proteção de seu patrimônio, hoje. Pena que demorou tanto a surgir, há apenas quinze anos atrás, o que levou a muita destruição lamentável. A questão do merecimento não é avaliada apenas do ponto de vista individual (mas dentro de conjuntos urbanos significativos) e nem só material (liga-se o objeto à suas apropriações sociais, de apropriação e uso). Nosso desafio é melhorar sempre essa política e, agora, começarmos a nos dirigir também para os bens imateriais.


DM: A Pampulha, obra-prima de Niemeyer, é um dos cartões postais da cidade. Como você percebe a beleza das obras arquitetônicas da Lagoa.
FC -
Não só bela, mas muito importante historicamente: a Pampulha é o berço da Arquitetura Moderna Brasileira e absolutamente diferenciada do modernismo europeu ou americano. Do ponto de vista urbano, é a grande referência e destino de usuários de toda a Região Metropolitana de Belo Horizonte, unindo as agendas cultural, ambiental e social. Não sei se por minha forte ligação com a Pampulha, mas considero os edifícios aí projetados por Niemeyer como o melhor de sua obra.


DM - As peças sacras setecentistas mineiras são alvo das quadrilhas especializadas em roubo de obra de arte. Existem maneiras de se prevenir esse tipo de roubo?
FC -
Sim e o IEPHA/ MG tem se desdobrado nessa missão, utilizando desde a instalação de alarmes, quanto a conscientização de populações e gestores e a ferramenta da INTERNET, muito útil para esse objetivo. Mas as pessoas que compram esses objetos - e que, imagina-se, compram-os porque sabem seu valor - deveriam também ser alvo de conscientização e investigação.


DM - Entre as obras do patrimônio cultural de Minas Gerais quais as suas 10 preferidas.
FC -
Não tenho preferências por esta ou aquela. Tenho relações sentimentais como uma ou com outra, mas como novas relações estão sempre sendo criadas, prefiro dizer que tenho preferência por todo o patrimônio mineiro.

 

Enviar link

Outras entrevistas