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Franck Caldeira - Janeiro 2009

  • Atleta Franck Caldeira - Divulgação/Nininha Minardi


A dedicação e a vontade de vencer somadas à humildade deste atleta, faz dele um verdadeiro campeão


Por Brenda Lara


Descubraminas: Como foi o início da carreira? Por que optou por atletismo?
Franck Caldeira:
Bom, tudo começou com meu irmão mais velho, que era corredor, nos treinos dele, eu pegava minha bicicleta e enquanto ele corria eu ia entregando água para ele. Isso era uma coisa que irritava muito, fazia a contragosto. Era muito desgastante, chegava em casa morto de cansaço. Mas não tinha escolha. Aos poucos, fui percebendo que tinha jeito para o atletismo, foi neste instante que comecei a treinar também. E com muita dificuldade, aos 16 anos anos comecei minha trajetória no esporte na cidade onde nasci, Sete Lagoas.


DM: Sua primeira corrida foi em Sete Lagoas e você terminou em 5º lugar. Nessa época você treinava por conta própria ou já tinha um treinador?
FC:
Aos 17 anos, saí de Sete Lagoas para treinar em Petrópolis. Fui convidado por um técnico, após meu amigo ter me indicado para um treinador. Era muito jovem, do interior, e pensei que não ia ter coragem, mas acabei colocando a mochila nas costas e fui para o Rio de Janeiro arriscar tudo na vida e acabou dando certo. Antes disso, eu treinava por conta própria, criava os treinos na minha cabeça e executava. Quando comecei a treinar profissionalmente, vi que em meus treinos, eu praticamente corria como um louco. Só isso que eu sabia fazer, não era nada direcionado. Mas sempre fui um cara diferenciado dos meus irmãos pela minha convicção. Sempre abracei de verdade, de coração os meus sonhos.


DM: Como é sua rotina?
FC:
Cansativa e divertida. Procuro descontrair um pouco porque nunca tenho tempo para poder passear e nem curtir o que tenho, o que consegui conquistar com o esporte. É cansativa porque sou um atleta, isso diferencia das demais pessoas que não são atletas, é como se eu fosse uma máquina. Mas ao mesmo tempo, é uma rotina tranqüila, de boa alimentação, não dispenso feijoada, não tem essa que atleta não pode comer feijoada, pode sim. A boca é liberada, tudo na vida é como remédio, tem a receita e as dosagens. O remédio não teria resultado, eficácia se não tivesse as dosagens certas. Com o esporte não é diferente. O restante, levo as coisas na brincadeira. Eu não gosto de encarar muito sério, porque a profissão já requer uma certa seriedade, disciplina.


Para se ter idéia, em véspera de competição, detesto clima de hotel, se pudesse ficar em casa, assistir um filme, procurando movimentar pouco, ou seja, em um ambiente mais familiar seria melhor. Não há uma receita, na verdade, tento manter a tranqüilidade, é difícil, mas eu tento colocar na cabeça que a corrida é mais uma só, porém nunca é mais uma só, sempre parece ser a primeira de todas. Mas manter a tranqüilidade é importante. É como um show, atrás dos bastidores você trabalha e se esforça para deixar tudo pronto e as cortinas estão fechadas, na hora da largada, as cortinas se abrem e começa o show.


DM: Dos títulos que ganhou, qual lhe proporcionou o momento mais emocionante?
FC:
A vitória que mais me motivou, que mais cresci foi a da São Silvestre de 2006, neste dia, tudo deu certo, se eu pudesse voltaria a fita e assistiria minha competição da São Silvestre 2006 toda hora. Mas no geral, gosto de minhas competições, desde a corridinha do bar do Mané, que é a corridinha do butequim, até a São Silvestre. Me sinto satisfeito no meio que estou inserido, e isso não quer dizer pelo dinheiro, faço o que gosto. Apesar de escravizar o corpo, é a profissão que escolhi, eu vivo disso e sou muito feliz.


DM: Infelizmente no Brasil, algumas modalidades esportivas só ganham visibilidade quando há ganhadores de medalhas ou títulos. Como é ser atleta no país do futebol?
FC:
É difícil. Tem que jogar o jogo, deles. O atletismo hoje no Brasil, falo no país, porque o atletismo no mundo, já é grande. Deveria ser mais valorizado, falta um pouco mais de credibilidade para que o atletismo no Brasil cresça e tenha a capacidade de ser igual ao futebol. A questão é muito política, é difícil falar disso no Brasil em que o atleta é medido pelo retorno que ele pode dar ao patrocinador.


No futebol há muitos jogadores estrelas, no atletismo não existe estrelato, existe dedicação de um cara só. Se no dia da competição, você está mal, é você sozinho que está mal e você responde pela responsabilidade de ganhar ou perder sozinho. No futebol, tem você e mais 10 jogadores, se no dia você não estiver bem, o seu nome vai ser mantido como artilheiro, porque vão fazer por você e se seu time ganha, você ganha também. No atletismo não. É você e nada mais.


Até que a situação do atletismo tem melhorado no país, tem provas, por exemplo, que você ganha bons prêmios. Isso demonstra que as pessoas estão começando a acreditar nesse esporte. Mas ainda assim, fico triste em saber que temos potencial para ganhar mais títulos se compararmos ao Quênia que é uma potência mundial no atletismo e é um país de terceiro mundo, um país pobre, que passa fome. A situação do Brasil é bem melhor do que a deles. É difícil mudar a história do Brasil no atletismo.


DM: Em Minas existe políticas de Incentivo e patrocínio para atletas?
FC:
Eu ainda não ouvi falar, existe uma lei fiscal de incentivo ao esporte para esse tipo de modalidade que foi montada, em alguns lugares já está sendo aplicada. Isso, de certa forma, incentiva o atleta. Eu tenho uma parceria montada para ensinar às crianças através do esporte o que eu aprendi de melhor. O projeto chama Projeto Social Franck Caldeira e começou com 15 crianças carentes e hoje são 500.


Consegui resgatar crianças que usavam drogas e portavam armas, e hoje vão à pista de atletismo. Ali você vê que conseguiu salvar mais uma vida, contribuiu para um futuro talento. Para mim não tem prêmio melhor do que chegar nos encontros que tenho com as crianças para levar alguma palavra de incentivo e chegar lá ouvir da boca delas uma palavra de incentivo. Elas chegam para mim e diz "Tio, para gente você é pai e mãe, você não é só o Franck Caldeira, mas a maior pessoa da nossa vida", é a melhor coisa que posso escutar. Não há prêmio melhor.


Esse projeto é um sonho que consegui realizar junto aos meus parceiros como a Nike que é minha patrocinadora há seis anos, e que cede os materiais para eu levar às crianças. Estou lutando para que esse projeto cresça mais, para que pelo menos trace para a criança um futuro voltado a ajudar as pessoas.


O projeto ensina salto à distância, arremesso, mas o que mais sai na verdade, são canelas secas correndo. São crianças e adolescentes de 12 a 18 anos que participam do Descobertas de Talentos. O legal de tudo é que jogamos aberto com os adolescentes e com os pais, mostrando no teste se o jovem tem futuro promissor ou não, para o atletismo. Os que não têm, a gente descarta e tenta ajudar de outras maneiras. Ser realista é importante no esporte, porque no esporte não há ilusão, ou você é ou não é, graças a Deus, todos os jovens que procuram o projeto foram aceitos.


DM: Na maratona dos Jogos Pan-Americanos do ano passado nos últimos 4 Km, você conseguiu uma vantagem surpreendente em relação aos outros atletas. Como foi a emoção de completar e vencer essa importante prova?
FC:
Jogos pan-americanos, acabei vencendo a corrida e o atleta invejável Vanderlei Cordeiro. A arrancada foi um traçado, eu não me preocupei em momento algum com nenhum adversário, procurei fazer a minha prova. Eu sou assim, costumo dizer que eu não corro contra adversários mas contra meus limites. Pensei no que podia conseguir de melhor pra mim e não me preocupei com o Vanderlei Cordeiro, o favorito e que é um atleta e uma pessoa invejável.


O grande resultado acabou sendo o ouro. Fiquei feliz, na verdade, não sei explicar até hoje, o momento da arrancada. Isso foi fruto de minha preparação, concentração e vontade de vencer. Não tem como descrever, não foi simplesmente uma arrancada, por detrás daquela arrancada houve muito trabalho pesado, dedicação. Foi o momento final para tentar passar, ultrapassar e conseguir mostrar para o Brasil que eu tinha potencial. Foi o que aconteceu.


DM: Em 2004, Vanderlei Cordeiro de Lima, foi derrubado na maratona de Atenas e acabou levando o bronze. Para você que é um atleta, a frase "o importante é competir" funciona?
FC:
Funciona. A frustração acontece. No futebol, como já citei, há estrelismo, no atletismo há força de vontade. Várias vezes tive frustrações de não completar algumas provas que participei, mas sempre acreditei que poderia vir algo melhor depois.


As coisas não acontecem com as pessoas erradas, aconteceu com a pessoa certa, o Vanderlei Cordeiro é um atleta centrado. O homem, ao meu ver, não escolheu o Vanderlei em si para agarrar. Poderia ser outro atleta, aconteceu porque foi o nosso brasileiro, e o Brasil ficou frustrado. Mas já pensou se fosse um italiano? A Itália ficaria revoltada também.


Volto a dizer, aconteceu com o cara certo, o Vanderlei é uma pessoa carismática que teve capacidade de suportar tudo isso no momento certo, e nosso Pai do Céu, o agraciou com o mesmo ouro. Para mim, o Vanderlei fez uma prova vitoriosa. Hoje se pergunta quem realmente venceu as olimpíadas de 2004. Se perguntar uma pessoa na rua, vai dizer que não sabe quem venceu, mas sabe que teve um brasileiro, Vanderlei Cordeiro de Lima, que foi agarrado. Mas ninguém vai se lembrar do nosso amigo Stefano Baldini que foi o italiano que ganhou a competição. A força de vontade, a determinação e a dedicação, fez de Vanderlei Cordeiro, um vencedor, isso porque ele conseguiu o seu resultado e não o ouro.


DM: O que o esporte significa para você?
FC:
Ser um cara grande. Viajei dezenove países, coisa que nunca imaginei fazer em tão pouco tempo. O esporte me surpreende a cada dia e com o passar do tempo, percebo o quanto significo para a sociedade. Não é simplesmente ser um campeão da volta internacional da Pampulha mas, um exemplo para muitas crianças, para as pessoas que vão às competições ou que me assistem pela televisão. É uma responsabilidade muito grande, porque são pessoas que nunca vi e que tem uma foto minha em casa, recortada do jornal. O esporte é minha vida!


DM: Para você quais são os principais nomes do esporte em Minas Gerais ?
FC:
Tem vários. Minas é um círculo de talentos que não tem como você separar, mas tem uma pessoa que não me esqueço nunca, que vai ficar na minha cabeça para sempre e que já venceu a São Silvestre há muitos anos atrás: João da Mata. Um atleta que fez história.


O atletismo em Minas, começou com ele. O exemplo dele, é o que a gente faz: deixar plantada uma semente para que ela dê bons frutos. O João da Mata me marcou pelo seu esforço, determinação e por querer ser um cara grande. Na verdade, temos que parabenizar todos os atletas mineiros que se esforçam para trazer vitórias para Minas Gerais, este lugar fantástico.

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