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Jota Dangelo - Fevereiro 2009

  • Belo Horizonte - Jota Dangelo - Brenda Lara

Encantado com as tradições de sua terra natal e apaixonado pela arte do teatro, o mineiro de São João del-Rei, Jota Dangelo, conversa com o Portal Descubraminas sobre festividades, cultura, espetáculos teatrais e o jeito mineiro se ser.


Por Brenda Lara e Juliana Linhares.


Descubraminas: Você é mineiro de São João del-Rei, o que mais gosta em sua terra natal?
Jota Dangelo:
São João del-Rei tem uma influência muito grande na minha vida. É uma cidade muito festeira, cheia de rituais religiosos que prevalecem até hoje. Cresci nesse clima ritualista, no meio de festas religiosas, ritos de igrejas e festas profanas. O que me encanta é que o povo de São João tem um instinto festivo, uma enorme vontade de se alegrar e disposição para participar de tudo.


DM: Como surgiu o interesse pela arte do teatro?
JD:
Vim para Belo Horizonte em 1950 para fazer o vestibular de medicina, me formei e fui dar aulas na UFMG. Como professor sempre tive que realizar funções de ator. Um professor tem que ter muitas qualidades de um ator, tem que ter presença, saber comunicar. Eu costumo dizer que se um sujeito que não sabe atuar, fizer uma conferência, é melhor ele imprimir e distribuir a conferência. Porque se ele começar a falar vai ser um horror. Ninguém vai querer ficar ali e escutar um professor que não sabe atuar.


Mas a tradição do teatro já me acompanha desde São João del-Rei. Estudei no colégio Santo Antônio e lá existia uma atividade teatral permanente. Todos os alunos participavam de grupos de teatro e eram ensinados a gostar de cultura e arte. Era um colégio que tinha um tipo de educação muito humanística. O teatro está em tudo que faço desde quando nasci. Está nos rituais da igreja, em jogos de futebol, no carnaval e até mesmo no nosso dia-a-dia.


DM: Como era trabalhar com teatro em Belo Horizonte em 1950? Quais as principais dificuldades enfrentadas?
JD:
Era muito difícil e complicado porque se tratava de uma época sem leis de incentivo ou qualquer outro tipo de apoio oficial. Você tinha que batalhar muito. Só fazia teatro com muita dedicação e entusiasmo. Não tinha recursos do estado para ajudar em nada e por isso contávamos com o apoio das pessoas e lojas para conseguir patrocínio.


Hoje também é difícil. Mesmo com as leis que favorecem a cultura não é nada fácil conseguir dinheiro para uma boa produção. Trabalhar com cultura é sempre muito difícil, afinal a cultura não é a grande prioridade do país. O Brasil é muito pobre e tem sempre muitas coisas pra resolver e investir antes da cultura.

 


DM: A peça "Oh! Oh! Oh! Minas Gerais" completou 40 anos de sucesso. Qual a diferença encontrada nas primeiras montagens e na apresentação atual? Como o grupo reagiu à censura na época da ditadura?
JD:
Essa peça foi o primeiro grande sucesso do teatro mineiro. É um espetáculo que fala sobre o povo de minas e por isso teve uma identificação imediata. A versão atual foi reescrita e modificada. Junto com Jonas Bloch reescrevi algumas coisas da peça que só serviam para aquele período, principalmente a situação política. Mas também tem muita coisa que não foi alterada. Afinal, mineiro é mineiro independente da época.

 

Naquela época o nosso público estava se sentindo perseguido, aterrorizado, sem liberdade de imprensa. A peça retratava esse período e falava de coisas que as pessoas queriam ouvir. A peça foi censurada várias vezes e nós tivemos que cortar alguns trechos. Não tinha o que fazer, tínhamos que cortar.

 


DM: Esse espetáculo retrata a história, hábitos e costumes de Minas. Para desenvolver a peça quais foram as principais fontes de pesquisa?
JD:
Escutamos muitos casos e histórias de personagens mineiros, consultamos vários historiadores e lemos muitos livros, entre eles os de Diogo de Vasconcelos.

 

Para fazer uma peça que retrate Minas, tem que ler muito porque é um estado diferente. O sul de Minas é meio paulista, o norte é baiano, o centro é meio carioca. É uma mistura de grandes tendências.

 


DM: Você já apresentou peças em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Qual a diferença de encenar em Minas e em outros estados?
JD:
Tem uma frase que resume bem essa questão: "Mineiro só é solidário no câncer". Minas não dá valor para as produções mineiras antes que faça sucesso em outros estados. Enquanto você não faz sucesso no Rio ou em São Paulo as pessoas daqui não dão valor. Nos outros estados apresentamos uma novidade e sempre tem público. Em Minas não. Mineiro é desconfiado.

 


DM: Ações como "Campanha de Popularização do Teatro e da Dança" e "Verão Arte Contemporânea", tem por objetivo formar público e conscientizar os mineiros quanto à necessidade de cultura. Como presidente do BDMG Cultural, como você avalia o cenário cultural em Minas?
JD:
O cenário cultural mineiro é ótimo. Se pararmos para analisar vamos ver o tanto de coisas boas que temos. O melhor grupo de teatro de boneco do Brasil é o grupo mineiro Giramundo, o melhor grupo de dança é o Grupo Corpo, um dos melhores grupos de teatro do Brasil é o Galpão. Alguns dos melhores escritores brasileiros são mineiros, basta citar Guimarães Rosa, musicalmente basta lembrar do Clube da Esquina.

 

Nós temos uma nata cultural muito grande e uma política também cheia de valores. Minas não perde em nada para outros estados e muitas vezes sai na frente. A vitalidade cultural e artística de Minas é muito grande. É uma pena que é tão difícil fazer cultura no Brasil. Se pegarmos os editais de projetos de incentivo à cultura, vamos ver que estão cheios de projetos bacanas, só que infelizmente nem todos vão ser desenvolvidos.

 


DM: A "Campanha de Popularização do Teatro e da Dança" tem sido forte instrumento para a divulgação da arte cênica. A cada ano surgem diversas peças e grupos. Qual dica você daria para os novos grupos?
JD:
É importante ter algum tipo de formação. A escola é importante para dominar a técnica. Os novos grupos devem passar por cursos de formação de atores. Em Minas existem diversas escolas e o ideal é que você saia da escola com um grupo já formado. Afinal é muito difícil grupos já consagrados convidarem novos atores sem conhecer o trabalho deles. Esses novos grupos são importantes para o teatro e deveriam ser mais valorizados. É deles que saem novas ideias, linguagens, novidades e inovações que se incorporam na estética do teatro.

 


DM: O carnaval de São João del-Rei é famoso pela tradição e você por muitos anos ajudou a promover essa festa na cidade. Como você avalia atualmente o carnaval em Minas Gerais?
JD:
O carnaval de hoje está completamente deformado. O carnaval em Minas teve uma fase brilhante nos anos 70 e teve exemplo em São João del-Rei. Foi a época que a classe média foi para rua e fez acontecer um carnaval maravilhoso e de qualidade. Atualmente não temos mais pessoas dispostas a ter a disciplina que uma escola de samba precisa. Hoje o carnaval de Minas está descaracterizado, parece mais com o carnaval da Bahia, está cheio de abadá, trio elétrico. Não tem mais bloco de rua, escola de samba, enredo, fantasia e história.

 

Eu prefiro o carnaval de antigamente, o verdadeiro carnaval de Minas Gerais. O turista que vem pra Minas vai encontrar um pouquinho da tradição do carnaval em Juiz de Fora e São João del-Rei. Mas nada com a qualidade de antigamente.

 


DM: Para você quais são as melhores peças do teatro Mineiro?
JD:
Essa pergunta é muito difícil. As peças são muito variadas, Minas tem peças maravilhosas e com boa qualidade. Das mais antigas posso citar "A noite dos assassinos" , " A fábula da hora final" e "Encontro Marcado". Uma mais recente é "A corda e o Livro", de Jair Raso.

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