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Afonso Borges - Março 2009

  • Afonso Borges, idealizador do projeto 'Sempre Um Papo' - Divulgação/Eugênio Sávio

Idealizador do projeto Sempre Um Papo, Afonso Borges mostra para públicos de todas as idades a importância de cultivar o hábito de ler bons livros. Em entrevista ao Portal Descubraminas, ele falou sobre seus projetos, cultura e literatura mineira.


Por Juliana Linhares


Descubraminas: Quem é o mineiro Afonso Borges?
Afonso Borges:
Um sujeito que, aos 16 anos, resolveu viver da literatura e, desde então, não pensa mais em outra coisa. A diferença é que a vida dele se concentra em divulgar os livros dos outros, de pessoas que admira e são, de fato, importantes par a construção de um mundo melhor. Tudo isso para mostrar ao mundo que ler é fundamental. Cada um defende a sua causa; a dele é a do livro e da leitura.


DM: Você é responsável pela criação, coordenação e desenvolvimento do Projeto "Sempre Um Papo". Como surgiu a idéia de desenvolver um projeto como esse?
AB:
Em 1986, eu era estudante de jornalismo e tocava em diversos bares de BH, à noite. Naquela época, o belorizontino não saía de casa nos dias úteis, e eu precisava tocar. Daí resolvi convidar escritores para conversar no intervalo. O primeiro foi Oswaldo França Junior, autor de "Jorge, um Brasileiro". Acabou que o papo fez mais sucesso que a música. Larguei o violão e minha vida passou a ser o "Sempre Um Papo".


DM: Por que o nome "Sempre Um Papo"?
AB:
O nome foi um presente do Frei Betto, que participou das primeiras edições do projeto, em um bar da Savassi. O nome surgiu quase que como um adjetivo. Ao final do evento, Frei Betto bateu em minhas costas, balançou a cabeça e disse "é sempre um papo". Estava batizado o projeto.


DM: O Sempre Um Papo acontece há 20 anos e já é reconhecido em todo Brasil. Quando leva o projeto para outros estados se preocupa em promover a cultura de Minas? Como é a aceitação do público quanto a um projeto mineiro?
AB:
Com o maior orgulho, digo que sou de Minas Gerais. Só ouço elogios quanto à nossa hospitalidade e belezas naturais e arquitetônicas, sem falar na culinária! Quando realizamos o Sempre Um Papo em outras cidades - até hoje foram 25 - fazemos questão de levar o nosso sotaque. Dizer que o projeto acontece aqui, há 23 anos, ininterruptamente. Uma vez, uma convidada reclamou que faltava um fogão à lenha no palco. Um dia ainda vamos fazer isso. Com muito profissionalismo, como sempre.


DM: No Sempre um Papo você discute sobre obras de diversos autores. Já chegou a falar sobre alguns dos seus 4 livros publicados ?
AB:
Depois que comecei com o Sempre Um Papo, minha produção literária diminuiu. Dos quatro livros que escrevi, apenas um teve uma relação direta com o projeto. Foi "Sinal de Contradição", uma grande entrevista com Frei Betto, que começou, justamente, no palco. Mas ainda tenho uns cinco livros de poemas guardado na gaveta.


Livros: Retrato de Época (poemas, 1980), "Bandeiras no Varal" (poema-plaquete, 1983), "Sinal de Contradição - Conversas com Frei Betto" e "Profecia das Minas" (poemas, 1993).


DM: Quais os melhores "papos" que já teve nesses 20 anos de projeto?
AB:
A pergunta é tão difícil quanto perguntar a um pai qual filho ele gosta mais. No meu caso, são mais de 2 mil filhos. Talvez o mais importante foi trazer José Saramago para falar a mais de 1,7 mil pessoas no Grande Teatro do Palácio das Artes. A emoção dele com as palmas da platéia me deixou comovido e orgulhoso.


DM: Belo Horizonte pode ser considerada um pólo cultural em destaque para o país?
AB:
Claro! Somos um celeiro de grandes talentos. Na música, dança, artes plásticas, teatro, culturas populares. Somos muito respeitados por isso. Mas nós, mineiros, não valorizamos nosso potencial. Esse é o nosso defeito.


DM: Quais os maiores desafios para quem se dispõe a promover a cultura em Minas Gerais?
AB:
Paciência e persistência são pré-requisitos para quem quer promover cultura em Minas. Mas é importante destacar a excelência em leis de incentivo. Aqui, tanto a Estadual quanto a Municipal são exemplos para o País inteiro. Basta conferir.


DM: Como Belo-horizontino, o que mais admira na capital mineira?
AB:
Nossa forma cosmopolita de se relacionar com as pessoas. Somos desconfiados, mas atentos. A despeito do desafio de entrar no século 21 como uma metrópole, temos a elegância e a poesia da modernidade. É só lembrar da alegoria do Carlos Drummond de Andrade que, quando morava no Floresta, ia e voltava subindo no arco do Viaduto Santa Tereza.


DM: Seus projetos literários são voltados para pessoas de todas as idades e diferentes interesses pela literatura. Pra você qual é a melhor forma de incentivar a leitura?
AB:
Em nosso trabalho, todos os projetos são voltados para o incentivo à leitura e utilizam o escritor como ponte. Muita gente tem a idéia de que o autor é um ser de outro planeta,"tão culto" que é impossível estabelecer um diálogo amistoso. Bobagem. Os autores são como nós, sentem o que sentimos, e também adoram uma boa conversa. Daí o sucesso do Sempre Um Papo: as pessoas saem de lá tão encantadas com o autor que querem ler o que ele escreveu.


DM: Recomende sete escritores mineiros para os nossos internautas.
AB:
Vou recomendar sete escritores mineiros, que estão por aqui, e enchem de orgulho de ser conterrâneo: Carlos Herculano Lopes, Luis Giffoni, Bartolomeu Campos de Queiroz, Humberto Werneck, Maria Ester Maciel, Jaime Prado Gouvêa e Lucas Figueiredo.

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