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Celso Adolfo - Abril 2009

  • Belo Horizonte - Cantor e compositor Celso Adolfo - Divulgação/Miguel Aun
  • Cantor e compositor Celso Adolfo - Divulgação/Miguel Aun

Celso Adolfo conversou com o Descubraminas. Falou da importância do seu último disco "Estrada Real de Villa Rica", sua cidade natal, São Domingos do Prata e sobre a originalidade da música mineira.


Por Ednardo Max


Descubraminas: Quais são suas melhores lembranças de São Domingos do Prata?
Celso Adolfo:
As festas populares, todas religiosas, e as marchas e dobrados tocados pela Corporação Musical Santa Cecília sob regência do Maestro Pelágio. Ir aos ensaios da banda era ótimo; as aulas de música do Prof. Tacinho no Ginásio Estadual Marques Afonso; as música sacra que se ouvia nos auto-falantes e missas da igreja antiga; o adro da igreja antiga, parte do conjunto arquitetônico de influência colonial (estamos perto de Mariana e Ouro Preto) que foi derrubado na onda da destruição de tudo que fosse velho; assistir os jogos de futebol do meu glorioso Clube Atlético Pratiano.


DM: O que o motivou a estudar e a compor músicas antes mesmo de sua partida de sua cidade natal?
CA:
Aptidão. No Ginásio Marques Afonso tivemos apenas um ano de iniciação musical, mas isso me bateu forte. O Prof. Tacinho entendeu minha aptidão. Sou filho de gente musical. Meu pai tocava violão, violino, clarinete e foi saxofonista da banda de música de Nova Era, regida por Antonio Gonçalves Dias. Casou-se com a filha do maestro, aquela que viria a ser minha mãe, Dona Daíca. Meu pai sempre me falou que sonhava que fazia música. Sonho dele, eu vim realizando o que ele não realizaria. Mal começando o aprendizado de violão, a partir da tríade de ré maior eu saí compondo e usando os acordes da sequência harmônica de Here, there and every where dos Beatles para acompanhar uma melodia minha.


DM: Quem é o mineiro e compositor Celso Adolfo?
CA:
Estou mais para o mundo do pensamento do que para o prático. Sou um tipo que acredita na força original da aptidão, um reparador das naturezas, a dos homens e aquela palpável: a lua, o mar, as montanhas, o ouro, o cachorro, um boi, uma cerca, a cisterna, um filme. Traduzo o que vejo intermediado pelo violão, palavras e melodias. Sou um interceptador, um achador de coisas e causas dessa vida que vivemos, na média, em pouco tempo. Pago mais caro por passo que dou, mas estou com Paulo Leminski, que dizia: isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.


DM: Como a música "Batuque" de 1992, parceria com Álvaro Apocalypse, trilha da peça "Tiradentes, Uma História de Títeres e Marionetes", do Grupo Giramundo, se tornou em motivação para gravar mais tarde um álbum sobre a Estrada Real?
CA:
Batuque e as outras parcerias com Álvaro Apocalypse para aquela peça nasceram nas trilhas da Estrada Real. A Inconfidência Mineira, assunto da peça, trafegou pela Estrada Real. Quando resolvi a abordar a tal estrada real num disco, o que havíamos feito em 1992 veio à minha lembrança. Natural que alguma coisa daquela peça pudesse entrar no cd. Escolhi o Batuque porque ele descreve um ambiente musical e social. E também por causa da célula rítmica da composição, rítmica dos negros, forte, imponente, dançante, alma africana adaptada ao Brasil daqueles dias de Ouro Preto da Capitania das Minas Geraes. Serginho Silva, o percussionista, foi muito bem na gravação.


Dois assuntos eu não abordei diretamente: A Inconfidência Mineira e o mártir Tiradentes. Estas histórias se passaram na Estrada Real, claro, mas eu não consegui compor sobre isso de modo explícito.


Fiz uma primeira tiragem de 5000 exemplares, já quase esgotada. Agora batalho por patrocínio para fazer uma turnê lançando o cd no roteiro turístico e em mais quatro capitas, via Lei Rouanet.


O CD foi patrocinado pela Cemig (dois terços) e pela Minas Brasil Seguradora (um terço). Foi o primeiro cd que gravei em condições ideais. Só na parte gráfica é que fiz um corte de 50%. Um segundo encarte com imagens raras de época não foi impresso.


DM: A história da Estrada Real era praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros até pouco tempo - como foi contar em seu CD Estrada Real de Villa Rica, por meio de versos e musicalidade mineira, sobre um período tão significativo para a história brasileira?
CA:
O projeto turístico Estrada Real é uma excelente idéia. Eu o acompanho desde que ele começou a ser divulgado. A Fiemg, o Governo de Minas e o ex-ministro Mares Guia compunham a tríade do início do projeto. Depois do que já foi feito há muito que fazer. Divulgar o roteiro e dotá-lo de instrumentos que atraiam o turista é tarefa que requer tempo. Mas temos que apertar o passo para que a coisa não se perca. Quando eu fiz o Projeto Pixinguinha passei pelo Rio, Roraima, Amapá, Amazônia, Pará e Maranhão. Foram muitas as cidades onde nos apresentamos. Em todas elas e para toda imprensa local eu falei da Estrada Real. Cantei músicas do meu CD "Estrada Real de Villa Rica". Pouco se sabia da história, mas ninguém ficou indiferente a ela.


A idéia de compor sobre o tema surgiu em 2002 quando eu percebi que se fazia de tudo com a marca estrada real, mas não se fazia música pelas quais o tema fosse abordado com algum rigor, sem pieguice, sem ser professoral, nem linear, como convinha a assunto tão turbulento e carregado de lances espetaculares. Comecei compondo uma música chamada Terra Altas da Mantiqueira, ambientada no sul de Minas, imaginando viagens de bandeirantes paulistas. Quando pus o pé nas trilhas dos índios lá de 1693, li que o explorador paulista Antonio Rodrigues Arzão sai com a sua bandeira e encontra cascalho aurífero no Rio da Casca. Essa seria a primeira mina de ouro da Colônia. Em 1694, outro paulista, o bandeirante Bartolomeu Bueno de Siqueira tentou, sem sucesso, encontrar as minas referidas por Antonio Rodrigues Arzão. Atingindo os arredores de Itaverava, perto de Conselheiro Lafaiete, encontrou jazidas cujas amostras foram imediatamente enviadas às autoridade no Rio de Janeiro. Em 1698 o bandeirante Antônio Dias de Oliveira chega ao Pico do Itacolomi, onde lançou os fundamentos daquela que viria a se tornar Vila Rica, mais tarde Ouro Preto, capital da província até 1897.


Daí pra frente o meu trabalho foi intenso, delicioso, buscando lances do ciclo do ouro e do diamante e tomando conhecimento do Caminho Velho, do caminho Novo e tudo mais. Num certo momento, já com mais de 20 músicas prontas, eu abandonei muitas delas e busquei amigos para fazer parcerias comigo evitando que o cd ficasse monótono. Deu certo. Os convidados, Juarez Moreira, Leo Minax, Iuri Popoff e Ângelo Oswaldo (este, jornalista, poeta e, hoje, prefeito de Ouro Preto) deram cores diferentes ao trabalho.


DM: Em suas composições há traços marcantes da cultura Mineira e brasileira. Há uma preocupação em utilizar a música como forma de divulgar nossas raízes?
CA:
Não é porque fosse para divulgar, é porque o que faço nasce do que fui ontem e somos hoje. As identidades e brasilidades que estão na minha música estão em milhares de outras. Todos nós temos necessidade de conhecer, reconhecer e anunciar o que somos, o que forma uma cultura. No meu caso, somos música. No caso de uns Paulo Laender, eles são pincéis, anéis, esculturas. Somos palavra no caso de Manoel Bandeira, Drummond, Carpinejar, Pedro Maciel. Somos as brasilidades que só podem ser explicadas e expostas por nós mesmos.


DM: Qual a importância de Milton Nascimento na sua carreira?
CA:
Se ele não tivesse ido ao Teatro da Imprensa Oficial (hoje é Clara Nunes) em 1982, quando eu fazia o meu show Coração Brasileiro, eu não teria tido a chance que eu mais buscava na época: gravar o primeiro disco e sair do amadorismo. Gratidão é um sentimento incompleto para definir o que não pode ser retribuído a Milton Nascimento.


DM: Quais compositores mineiros você costuma ouvir?
CA:
Ouço tudo de todos. Como eu não restrinjo música àquilo que está nas FMs ou na produção atual de CDs, o que vem me interessando presentemente é conhecer a música mineira colonial. Tenho um projeto a ser gravado que se chama Celso Adolfo Colonial. É uma busca poética de um tempo de precursores. Tarefa para a qual eu me convoquei sem ter sido chamado. Sei lá se conseguirei. Mas vou à luta.


DM: Em sua opinião, o que faz uma pessoa ser reconhecida no exterior a partir de um trabalho bem particular como o seu?
CA:
O trabalho particular, o estilo. Só o estilo segura alguém e alguma obra. Há públicos no exterior que enxergam a criação musical brasileira pela seção rítmica e pelas harmonias desdobradas de acordes alterados e também pela sugestão de que temos algo de primitivo e puro a ser mostrado. Todas as sociedades têm os seus gestos particulares e primitivos. Isso, no nosso caso, é atraente até para os japoneses, gente de cultura budista nada parecida com cristianismo. Minha música é carregada de elementos muito básicos, com saltos fáceis, duetos, argumentos inocentes e ingênuos apoiados numa sinceridade até meio sofrida. Ela se resolve ao violão. Quando eu me concentro de verdade, aí é levitação.


DM: Como é ensinar para alunos dinamarqueses e de outros países, a nossa música popular brasileira?
CA:
Ensinar é difícil, eu não sei fazer isso. Mas tocar para eles sabendo que eles estão interessadíssimos é muito bom. É do comportamento deles, nórdicos, encontrar-se com novas culturas. Eles são vikings, são inquietos, buscadores. Buscam no planeta inteiro o que não conhecem. Ouvi por lá lendas da Amazônia, lendas que permeiam a curiosidade e o mito da floresta densa. Sendo o Brasil tão grande, quantos brasis ainda há para eles pisarem? Ouviram uma pitada de Minas Gerais por meu intermédio. Ouviram outro Brasil no violão de Romero Lumambo. Ouviriam muitos brasis com Maria da Inglaterra, com Xangai e Jackson do Pandeiro, com Elomar, com violeiros tipo Ivan Vilela. Gismonti, Milton, o ritmos na Bahia, o boi do Maranhão... País continental é assim, tem incontáveis faces.


DM: Quais lugares em Minas você costuma visitar nos momentos de lazer?
CA:
O interior montanhoso. Como minha terra, São Domingos do Prata. Sempre vou a Ouro Preto. Viajando a caminho de Diamantina a gente vê paisagens belíssimas. Pela Serra do Cipó a paisagem tem prata solta no ar. Já estive três vezes na Fazenda Fonte Limpa, aqui perto de Conselheiro Lafaiete. Penduradas nas paredes lá estão referências históricas de onde viemos. É para isso que serve a história e lugares assim, para comparar o que fomos com o que estamos sendo enquanto descansamos do mundo urbano.


DM: Quais composições / músicas mineiras você recomenda para nossos internautas?
CA:
É muita coisa. Vou resumir. Entre as populares, Paixão e fé, de Fernando Brant e Tavinho Moura. Na música colonial, com um pé em Minas, o cd Ninguém morra de ciúme do Colegium Musicum de Minas. Entre instrumentistas, os CDs de Sylvia Klein cantando e Wagner Sander ao piano. O canto coral do Madrigale. As composições de Juarez Moreira, por ele mesmo ao violão. Toninho Horta, sem dúvida. O repertório do Clube da Esquina. O cd Duo, de Regina Amaral e Arthur Andrés. As execuções recentes da Filarmônica de Minas Gerais para as obras sacras do nosso passado colonial. A viola tocada por Renato Andrade. Os pandeiros mineiros de Danuza Menezes e suas colegas. O samba de Zeuler Miquelina. A saídas melódicas, rítmicas e harmônicas de Leo Minax. O que mais? Difícil parar nisso.


O CD Estrada Real de Villa Rica pode ser encontrado em Belo Horizonte nas seguintes lojas:

- Livraria Quixote - rua Fernandes Tourinho, 274 - tel. (31) 3264-2858/3227-3077

- Livraria Scriptum - rua Fernandes Tourinho, 99 - tel. (31) 3223-7226

- Discomania - rua Paraíba, 1378 - Loja 117 - tel. (31) 3227-6696/3281-4612

- Livraria Leitura - Pátio Savassi

- CD Plus - rua Paraíba, 1399 - tel. 3287-8957

- Loja Acústica - rua Fernandes Tourinho, 300 - tel. (31) 3281-6720

- Discoplay - rua Tupis, 70 - tel. (31) 3222-0046

 

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