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Gustavo Penna - Julho 2009

  • Arquiteto e professor Gustavo Penna - Divulgação/Ana Valadares

Museu de Congonhas, Expominas, Escola Guignard, Orla da Pampulha, e o Complexo Mineirão/Mineirinho para a Copa de 2014. Esses são apenas alguns dos projetos do arquiteto e professor mineiro Gustavo Penna.


Nas palavras de Drummond:


"Nem tudo está perdido em Belo Horizonte, pois os moços, como Gustavo Penna, apontam o caminho."


Por Isabella Loureiro


Descubraminas: Quais são suas melhores lembranças da Belo Horizonte de sua infância e adolescência?
Gustavo Penna:
Eu nasci na Rua Antônio de Albuquerque 867, eu me lembro até do telefone da minha casa. Essa casa foi projetada por Raffaello Berti e era belíssima, ainda existe hoje um pouco deturpada, mas é uma casa linda.


Eu acho que as lembranças da minha infância são muito ricas, pois foi aquela infância cheia de invenção, porque nós não tínhamos tanto brinquedo. Nessa época, meu pai não estava muito bem financeiramente, então nós inventávamos muita coisa.


Morávamos em uma casa muito grande, que acabamos por perder, pois foi a leilão. Uma casa que tinha terraço, sótão, fundo de quintal, lugar para jogar bola, fazer carro de rolimã. Era um lugar onde eu aprendi a mexer com ferramental de oficina, subia no telhado, fazia luta de boxe, teatro fantasma, banca de revista, vendia batida de cachaça misturada com limão, jogava bandeira na rua e tínhamos um time de futebol que se chamava "Time Mascote". O jardineiro ia cortar a grama e eu ficava ao lado dele com 6, 7 anos de idade, com uma tesourinha ajudando ele a cortar.


A minha infância teve muito disso aí, de brincadeira de rua, de jogar bola, bandeira e bente altas na rua, de fazer papagaio... eu era um especialista em construir papagaio. É uma coisa muito interessante essa história do menino que brinca. Hoje nós vemos os meninos presos dentro dos apartamentos, não têm condição de brincar. Eu tive! Foi uma infância extremamente feliz, colorida e cheia de invenções.


Quando esta casa finalmente foi vendida, eu - que tinha entre 12 e 13 anos - e o meu irmão saímos de lá com uma dor no coração, porque nós perdemos a turma que tínhamos conquistado e fomos morar perto do Mercado Central. Essa despedida da casa foi meio "pesada". Eu me lembro que li uma coisa certa vez, que eu não sei se é de Fernando Pessoa, mas diz um pouco do que eu sinto: "Eu sou o que me venderam a casa". E acho que virei arquiteto porque a casa assumiu aquele sonho.


Hoje, eu nem ouso a entrar naquela casa, de jeito nenhum! A escala daquela casa para um menino de 12 anos é completamente diferente de hoje. Tudo aquilo que eu imagino que era muito grande quando eu era menino, hoje se eu for olhar de novo vou ver que era pequeno. Era diferente, as coisas mudaram, prédios foram construídos em volta da casa, que agora está sufocada, ela era luminosa... então, eu não tenho vontade de voltar lá. Eu passo por ela, mas não entro. A casa em que eu vivi ainda existe idêntica dentro da minha memória, dentro do meu coração, dentro dos meus símbolos.


DM: Nesse período o senhor já observava o espaço urbano e a arquitetura da cidade?
GP:
Arquitetura é o espaço vivenciado. Urbanismo e arquitetura só mudam a escala, mas são dois espaços que são do homem, são para o homem viver, se relacionar, atuar. A cidade e a arquitetura se auto-referem permanentemente. Arquitetura refere à urbanismo e urbanismo refere à arquitetura.


Eu costumo dizer, criando uma provocação: "qual idéia é mais importante? A torre da praça ou a praça da torre?". Então eu acho que não é nem uma nem outra. As duas são importantes porque a torre refere à praça, que sem a torre seria outra praça, e a praça refere à torre, porque se a torre não tivesse uma praça para existir ela seria uma torre perdida no meio do bairro. Então eu mostro a importância do feminino - praça, rua, cidade, plano topográfico, plano orgânico, plano germinal - e os elementos masculinos que são "fincados" no terreno, eles mostram referências. Na época dos Bandeirantes, eles cavavam as bandeiras e as mulheres faziam a cidade. É interessante o caminho e pensar na cidade com esse jogo de referências: arquitetura e urbanismo.


O edifício quando contempla o espaço urbanístico onde ele vai viver, é melhor do que aquele que desconhece, que desrespeita, que não considera. Falta de consideração as nossas mães nos ensinaram que não é bom! Então, eu acho que tudo aquilo desconsideramos é uma maneira mal educada de lidar com a cidade, com as coisas. Estamos considerando as árvores da rua, a declividade, o prédio ao lado, isso é uma maneira de fazer uma cidade gentil. Porque uma maneira de fazer uma cidade infeliz, é quando você desconsidera a casa ao lado, as árvores, as pessoas, a história, as visadas. Você faz uma arquitetura muda, que está olhando só pra ela, que não está olhando para a cidade, para a história da cidade. Uma arquitetura absolutamente auto-referente e narcísica.


Eu acho que quando você ocupa um espaço na cidade, você tem que ter esta percepção: para onde esta arquitetura olha, como ela se relaciona com a natureza, com os horizontes, com a topografia. A doença das cidades contemporâneas é a falta de sensibilidade com que os edifícios vão surgindo. Surgem sem nenhum caráter de dimensão urbana. Eles não incluem na sua configuração o respeito à cidade.


DM: Em um depoimento o senhor falou que "a referência para o projeto de arquitetura é o vem antes de nós, a história". Como a história da arquitetura mineira influência seus projetos arquitetônicos?
GP:
Eu acho que a arquitetura é um depoimento, em determinado tempo, de coisas que pensamos que vêm para o futuro e de coisas que sentimos em nosso passado. Eu costumo dizer que quando você quer fazer uma arquitetura que tenha durabilidade, valor estético, expressivo e significativo no futuro, ela tem que contemplar atrás. Da mesma forma quando você quer saltar um obstáculo, você tem que tomar distância e andar para trás para ter galeio suficiente para ultrapassar o obstáculo. Esse tamanho da arquitetura é exatamente esse percurso que você tem que fazer para que o objeto no futuro tenha validade.


Eu acho que as coisas que fundaram o nosso pensar, que estão presentes na arquitetura dos primórdios da civilização, são fundamentos que estão presentes até hoje. As janelas existem em toda a história da arquitetura, as portas, as escadas, os tetos, as paredes existem. Cada época tratou a mesma coisa de um jeito diferente, com um olhar sobre como essas pessoas se relacionavam.


Tem um livro que eu gosto muito que é do Richard Sennett que se chama "Carne e Pedra". Ele fala exatamente sobre as relações entre os edifícios e os processos sociais que esses edifícios acolhiam, desde os romanos, os gregos e como isso acontecia nas civilizações primitivas, como eram os espaços de convivência, como a democracia gerou os seus próprios espaços. A democracia surge na Grécia, ao mesmo tempo em que surgem os ágoras, que eram espaços de reunião. Espaços consagrados ao encontro, ao debate de idéias. Essa idéia é interessante para mim. Os processos sociais geram uma arquitetura. E quando você analisa a arquitetura você vê perfeitamente quais são os valores que orientavam esta sociedade. Você consegue ler através da arquitetura.


Arquitetura é dizer o seguinte: o espírito precisa de mais espaço que o corpo. Arquitetura não se faz para o corpo. Arquitetura se faz para o espírito, que demanda muito mais espaço. O corpo em termos dimensionais cabe dentro de um caixão e nós para vivermos em sociedade precisamos de mais espaço. Precisamos de espaço não só para viver, mas para conviver, para ter a percepção do nosso lugar no mundo. No mundo somos nós e os espaços em que vivemos, que são as nossas extensões. Por isso que um homem sem casa é um homem tão triste, é um homem sem lugar no planeta. No momento em que ele tem uma casa ele se sente valorizado, melhor como cidadão. Porque sem a casa ele é uma pessoa absolutamente expurgada da convivência, ele não tem lugar. Eu estudo arquitetura. Nós somos profissionais dos lugares do homem, nós estudamos os lugares onde os homens vivem.


DM: O senhor afirma que incorpora em seus traços arquitetônicos os ensinamentos de célebres mineiros como Aleijadinho, Guignard, Guimarães Rosa, Drummond e Amilcar de Castro. Qual são esses ensinamentos?
GP:
Entender o que significa ser "montanhês", ser mineiro, pisar no chão do minério de ferro... essas pessoas foram capazes de interpretar muito bem. Imagine como Aleijadinho trabalhou a nossa pedra, os nossos traços morenos, a nossa espacialidade barroca, torceu as torres das igrejas, não fez a igreja tal como fazem os portugueses, foi muito além, inventou, libertou aquela rigidez portuguesa e criou um estilo com muito mais alegria, com muito mais sensualidade que é o estilo brasileiro.


O Guignard fez a mesma coisa, foi o sujeito que pintou montanha com balão, com bandeira. Pintava as montanhas como se fossem uma orquestra, uma sinfonia de valores para o céu, para o alto. O homem do traço, o homem da linha perfeita, das cores maravilhosas. O sujeito que implantou o olhar moderno em Minas Gerais. Uma abnegação total pela arte, uma entrega completa e absoluta.


Drummond ensinou que "escrever é cortar palavra". Essa concisão que nós somos de mineiros, ela se aplica à arquitetura também. Eu gosto de fazer arquitetura com o mínimo de elementos, uma arquitetura de valor estético. Eu quero que a minha arquitetura passe uma mensagem, não quero uma arquitetura muda, eu quero que ela diga alguma coisa que eu gostaria que fosse uma coisa poética, que não fosse uma coisa vazia. Que não fosse uma materialidade, que fosse uma espiritualidade. Que não fosse um objetivo pragmático, que fosse um sentimento. Interessa-me muito mais.


Com Amilcar de Castro, eu convivi muito de perto na Escola de Artes e Ofícios de Contagem, depois aqui no meu escritório, projetei a casa pra ele que infelizmente ele não construiu, mas é uma casa que tem no meu livro com o maior carinho. Amilcar me ensinou praticamente tudo em relação a espaço. Ele me fez olhar que o espaço a partir do seu gesto gera uma espacialidade. Eu faço gestos. A casa faz gestos. Os meus gestos precisam ter significado para não virarem sestro. Os gestos que a casa faz também precisam ter um significado, e um significado duradouro, porque ela vai ficar ali congelada, é um gesto congelado. Então essa idéia de um edifício fazer um gesto curvo é como se ele te acolhesse, te abraçasse. O acolhimento é curvo. A leveza levanta uma parede do chão. São as palavras que estão fazendo isso. Quando eu digo "leveza", as paredes se levantam, quando eu digo "aconchego", as paredes se curvam, quando eu digo que "o prédio mostra a montanha", ele, com alguma peça, vai em direção àquela montanha e a apresenta, acolhe a rua, acolhe o seu olhar. Então o prédio está ali fazendo aqueles gestos. Se ele for um prédio que não pensou nisso, ele pode ter uma postura agressiva em relação ao seu olhar, como uma ponta de cotovelo, por exemplo, uma coisa que agride o olhar que chega. O Amilcar mostrou que a forma fala.


DM: Muitos dos seus projetos possuem características em comum, como paredes brancas, vidraças e utilização do aço. Qual o motivo dessas preferências?
GP:
Eu acho que eu sou assim desde quando eu entrei para a Escola. A TV Bandeirantes é um projeto de 1979. Eu já tinha feito umas casas na forma de pirâmide, que eu só cortei as janelas, umas coisas muito simples. Eu acho que quando você dá um recado muito profundo, você dá um recado conciso. Ninguém consegue dizer uma coisa que está muito sentida com dois parágrafos. Você tem que ser simples. Então eu acho que a arquitetura tem essa vantagem.


As paredes brancas são os nossos coloniais, as paredes coloniais são brancas. Vidraça é uma invenção do moderno. Nós vamos voltar às janelinhas que sufocam? Temos agora cada vez mais a necessidade de respirar, de vento, pois os dias estão ficando mais quentes. Eu acho que é o momento de abrir janelas, mas saber abrir. Se você abrir para o sol poente, você enche a sua casa de calor. Você tem que abrir para as regiões de onde vem o vento, captar o vento, e as janelas também fazem gestos. As janelas e as portas. Por isso que existe metáfora em relação à janela e porta: "A porta se abriu quando eu te conheci", "você abriu uma janela para esse pensamento". Nós vivemos dessas metáforas.


E o aço, eu acho que fiz de teimosia. O projeto de estruturas em aço não era uma força da Escola de Arquitetura onde eu me formei. A Escola era a "Escola do Concreto". O Niemeyer é o mago, o gênio do concreto. Nós não temos uma produção de aço no Brasil, até hoje, que seja suficiente para baixar os preços da construção metálica, que é aquela que está ainda reduzida às áreas industriais, às coisas muito específicas que exigem vãos imensos. Na arquitetura cotidiana ela não surge. Então a minha idéia era fazer o aço pelo fato do atavismo. Eu piso em um chão de ferro aqui, isso entranha em minha alma, eu percebo as montanhas que são feitas de ferro. Porque então vamos deixar só para o outro lá do exterior pensar em poetar com aço? Porque nós não podemos fazer? Então eu estou nessa tentativa, eu persigo muito um trabalho que tenha essa possibilidade do uso do aço.


Vou participar agora do CBCA - Centro Brasileiro da Construção em Aço no dia 15 de julho, em que eu sou coordenador de uma mesa que vai falar do uso do aço na construção, porque ele não vai ser usado em habitação popular.


DM: O Monumento à Liberdade de Imprensa está na capa do seu livro, "Gustavo Penna - Arquiteto". Recentemente o Supremo Tribunal da Justiça aprovou o fim da exigência do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão, sob a alegação de assegurar a liberdade de expressão a todo cidadão. O senhor acredita que o Monumento à Liberdade de Imprensa traduz esse pensamento?
GP:
Perfeitamente. A liberdade de imprensa não é um privilégio do jornalista. Ela é um direito do cidadão, que tem direito à notícia, à opinião e à interpretação. Para nós conquistarmos, em uma sociedade, o direito de termos acesso a uma notícia, houve muita luta, o jornalista lutou muito. Então eu acho que hoje, o jornalista profissional, que não tem mais a necessidade do diploma, não foi diminuído, ele é um jornalista diplomado, e ele se difere dos demais por isso. Ele tem um tipo de formação que o destaca. Por exemplo, no meu escritório quando eu contrato um arquiteto, eu não o contrato só porque ele é arquiteto. Eu contrato um arquiteto, mais a experiência que ele tem, mais a capacidade que ele tem de realizar as coisas. Então, o jornalista diplomado agora virou uma espécie de "plus", ele é percebido em um patamar acima de quem se propõe jornalista. Eu acho que o Monumento à Liberdade de Imprensa pensa exatamente isso.


Como não sou jornalista, como interpretei a imprensa? Eu interpretei a imprensa pensando que ela tem dois tempos: o tempo da verdade, do fato e o tempo da interpretação do fato. A visão especifica do jornalista sobre o fato é fundamental, porque não é aquilo que aconteceu, é como você viu aquilo acontecer.


Então eu acho que o Monumento tem aquelas duas partes, que é uma parte mais pesada, presa ao solo, que eu digo que é o trecho onde ele relata com fidelidade o que aconteceu, o contato dele com o chão, com a realidade é muito grande. O chão é a realidade. E aquela forma que desloca é a opinião, a interpretação do fato. Então eu acho que nesses dois momentos está o jornalismo. Por isso que a liberdade é necessária. Porque o volume que se liberta mostra que você pode e deve ter uma opinião.


DM: O senhor está trabalhando em um projeto no continente africano, poderia falar sobre ele? Cite para os nossos internautas alguns trabalhos que foram realizados no exterior.
GP:
Eu tenho vários projetos em Angola. Nós começamos fazendo uma Estação de Tratamento de Água. Não somos especialistas nessa área, os projetos geralmente são feitos pelos engenheiros hidráulicos. No entanto, como a água é tão importante para eles, havia a necessidade de uma configuração da área da Estação de Tratamento que fosse uma espécie de espaço com significado dentro da cidade de Lobito. Então nós fizemos o trabalho e ficou muito interessante.


A partir daí muitas coisas vieram: um projeto de prédios na Ilha de Luanda, e agora nós fizemos uma área imensa de 2,5 milhões de metros quadrados, na Baía de Mussulo, ao lado do Museu da Escravatura. Eu acho interessantíssimo ter tido a oportunidade de fazer um projeto na Baía de Mussulo, ao lado de onde partiam os negros para o Brasil. O Museu da Escravatura está exatamente onde os negros se reuniam para embarcarem e serem trazidos para o Brasil. E esse projeto é interessante, pois é um projeto de ocupação cultural, com preservação dos recursos naturais, casas, alguns prédios baixos, também uma área de convenção e escritório, uma universidade, clubes. Uma região de expansão qualitativa da cidade de Luanda.


Fizemos agora o portal da Zona Econômica Especial que é um trabalho interessantíssimo no Museu de Angola, pois é um trabalho estratégico, um plano de industrialização induzida. Como Angola não tem indústria nenhuma, o país compra tudo de fora. Então, para que pudessem crescer sem pagar os preços internacionais de importação, propuseram isso: criar um grande parque industrial, construído com recursos do próprio governo, e abrir licitação para os operadores daquelas estruturas. As naves industriais estarão prontas com toda a infra-estrutura necessária, e alguém vai produzir ladrilhos, por exemplo. Outros irão produzir tecido, automóvel, material cirúrgico, então, eles estão fazendo isso. Dentro desse contexto, há um Portal, um edifício de convenções que forma a porta de entrada desse trabalho, e nós estamos fazendo esse projeto. Fizemos um prédio que passa por cima da estrada e que serve de fiscalização mas também de recepção. É um receptivo com a possibilidade de ter convenções. Já estamos em andamento com esse trabalho e estamos felizes. Parece que foi bem recebido pelo governo e já está em obra.


DM: Construções de museus ou espaços próprios para preservar obras que não suportam mais exposições ao ar livre é uma prática constante em várias cidades do mundo, principalmente na Europa. Porque o mineiro tem tanta resistência em aceitar o projeto do Museu de Congonhas - principalmente na questão sobre a salvaguarda dos profetas?
GP:
A resistência que havia ao Museu de Congonhas era uma resistência política. Também um certo temor da Igreja de criar uma comoção na população mais humilde, achando que tudo aquilo que eles construíram com muito sacrifício foi demolido.


Acredito que as obra irão começar. Não com o projeto inteiro, vamos começar com uma parte. O que será construído agora é uma grande laje encima do Centro de Referência do Barroco e do Centro Estudo da Pedra. Fica faltando, então, o Museu dos Profetas - tanto os Passos das Paixões como os próprios Profetas - e a área dos Romeiros.


A nossa prioridade é aumentar a área do adro da Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, criando uma extensão e retirando aqueles elementos que bloqueiam a visão das outras montanhas. Qual é a proposta da Igreja Católica quando constrói uma igreja no alto do morro? É ficar perto de Deus. Então os morros são lugares naturais de elevação do espírito. Quem bloqueia isso e tapa essa sensação de estar no alto também não está agindo de uma forma assim como era o espírito da época, de usar os pontos mais altos para melhor louvar a Deus. Quando você retira esse anteparo, você estabelece um grande concerto de montanhas, um anfiteatro de montanhas. E estabelece uma outra ligação que seria muito necessária, que é entre as romarias que estão no morro vizinho com o Morro Maranhão, onde está a Igreja de Bom Jesus de Matosinhos. Essa relação iconográfica de torres, de visadas, vai ser reestabelecida. É um trabalho muito sério e muito profundo que nós entramos com um número muito grande de pessoas na área de História, de Conservação e Preservação do Patrimônio Histórico.


Não é necessário substituir os profetas por réplicas, mas desde que aumente a fiscalização sobre eles. Você coloca três públicos que não existem no passo de Bom Jesus de Matosinhos: os Romeiros - de uma forma perene, haverá a igreja, onde serão celebradas as missas permanentemente, além de uma área de apóio ao romeiro. Vai ser o momento em que eles serão recebidos dignamente. O outro público é o público dos visitantes, que chegam em Congonhas, dão uma olhada, tiram duas fotos e não têm um lugar para tomar um refrigerante, nenhuma pessoa que qualifique a sua visita, que explique um pouco daquilo, que dê um pouco de museografia e museologia para a observação. O museu, então, vai fazer isso, qualificar melhor o profeta, vai mostrar como nós gostamos dos profetas. Na realidade, o Museu é a prova visível e tangível do amor nós temos por aquilo que está ali, que é a obra prima de Aleijadinho, o maior artista das Américas. Muitas vezes eu chego em sala de aula e pergunto: "Quem foi à Congonhas?". São pouquíssimas pessoas que foram. Por quê? Porque não chama. E esse Aleijadinho que lá está constrói o nosso caráter. É fundamental que possamos vê-lo e amá-lo, pois ele é um exemplo do que nós podemos fazer. German Bazin acha que Aleijadinho é o maior artista das Américas e várias outras pessoas já disseram isso. Amilcar de Castro era o sujeito que sempre me dizia sobre a devoção que ele tinha ao gênio criador do Aleijadinho.


Eu não acho que o Museu seja realmente um problema. As obras começarão de uma forma extremamente consistente e eu acredito que, neste momento, nós vamos até o final.


DM: A arquitetura colonial mineira é extremamente valorizada e objetos de inúmeros estudos. Como o senhor analisa os projetos arquitetônicos no Estado nos últimos 20 anos. Pode-se falar em uma "escola mineira de arquitetura"?
GP:
A "escola mineira", no meu modo de pensar, não existe e não deve existir. Eu acho que ocorreu isso por causa do Clube da Esquina, que havia uma certa identidade em fazer coletivo. Falavam que existiam arquitetos que faziam pós-moderno. Eu nunca fui um dos pós-modernos, eu nunca fiz nada pós-moderno. Mas eu nunca fui inimigo dos meus colegas que faziam arquitetura assim ou "assado", eu respeito a diferença e eu procuro a pluralidade. Eu não procuro o nivelamento nem a homogeneidade. Eu procuro o contraditório, mas é o contraditório com respeito, o contraditório que democraticamente respeita o outro.


Quando nos reuníamos com Eólo Maia, Veveco e vários outros arquitetos, eram reuniões de muito carinho, amor e respeito. Eu acho que tudo isso serviu para que eu não fosse tão preconceituoso, para me mostrar que há várias maneiras de ver o mundo e são fundamentais de serem várias. E essas maneiras de ver o mundo, quando elas não são conflitantes do ponto de vista do amor ao outro, do respeito ao próximo, elas podem conviver perfeitamente. Quando há estupidez não. Estupidez ninguém quer.


Então eu acho que a arquitetura mineira é valorizada. Éolo Maia foi o mais corajoso dos arquitetos pois, mesmo sabendo que Rio de Janeiro e São Paulo exerciam um poder totalitário na divulgação da produção arquitetônica brasileira, ele fez a revista Pampulha, juntamente com algumas pessoas e lutou. Ele fez uma arquitetura que saiu de Minas, provocou os espíritos conversadores de São Paulo e abriu espaço para os mineiros. Eu sou, inclusive, beneficiário disso. Porque esse trabalho e essa coragem dele é que me deu a chance de ter uma visibilidade, hoje, nacional. Faço palestra no Brasil inteiro, porque várias pessoas conhecem o trabalho que é feio em Minas Gerais. E temos vários jovens arquitetos em Minas Gerais que também estão se beneficiando dessa visão. Saem daqui, dialogam com arquitetos paulistas em pé de igualdade e até internacionalmente. Nós agora acabamos de fazer um trabalho para uma empresa alemã que nos respeita profundamente. Para nós, isto é mostrar que o Brasil saiu daquela posição de baixa auto-estima, de vergonha de ser alguma coisa, para uma posição madura, altiva, adulta e absolutamente contemporânea, porque o mundo hoje é contemporâneo. Não existe mais esse endereço tão obrigatório do saber de primeira linha. As coisas estão dispersas pelo mundo. Você vê um sujeito na Índia com uma proposta sensacional, depois vê outra é descobre que é de alguém da África, do Uruguai, do nordeste do Brasil... Então você vê que o conhecimento circula muito mais no mundo, ele não está concentrado em alguns poucos lugares.


DM: Vamos falar do assunto do momento - Mineirão. Em sua opinião, qual será (ou qual já está sendo) o maior desafio para implementar o projeto do complexo Mineirão-Mineirinho?
GP:
Eu diria que o Mineirão é um projeto que não tem muita autoria, porque o que vale mais é a preservação do Mineirão e do Mineirinho, que já são ícones. Então, o nosso trabalho é absolutamente complementar e secundário, é um trabalho que deixa o Mineirão e o Mineirinho serem tais como eles são e todo mundo os conhece, e faz uma ligação subterrânea para que aquilo funcione para a Copa do Mundo.


O Projeto hoje ainda está em um momento de ser repensado, requalificado de modo que nós não sabemos nem quando teremos a configuração definitiva do que vai ser realizado mesmo na área da Pampulha. Dependemos de muitos acertos de prazo, preço e parceiros.


DM: O senhor acredita que, com o projeto do complexo Mineirão-Mineirinho, Belo Horizonte se tornará uma forte candidata para a abertura da Copa do Mundo de 2014?
GP:
Eu acho que Belo Horizonte tem tudo para ser uma cidade sede da abertura ou da final da Copa, mas tudo é muito político. Se você falar da Copa Verde, que é a Copa que o Joseph Blatter (presidente da Fifa) quer, que as arenas sejam conservativas de energia, que sejam sustentáveis do ponto de vista energético e ambiental, você vai ver que nós temos o lugar mais bonito do mundo. Nós temos a Pampulha que um patrimônio ambiental de Belo Horizonte, patrimônio arquitetônico com o circuito Oscar Niemeyer, um pólo de convergência turística da cidade, que é o nosso cartão postal. Além disso, você tem um estádio, que já é um ícone, fartamente atendido por vias que serão melhoradas nas suas interseções, que serão muito mais eficientes.


Portanto, em relação aos outros, por exemplo, São Paulo com o Morumbi e o Rio de Janeiro com o Maracanã - que são áreas entaladas, de difícil acesso - temos algumas vantagens de ter uma área junto à Universidade Federal de Minas Gerais que é, de qualquer forma, um amplo espaço. Acho interessante.


DM: O senhor é autor de grandes obras como, Expominas, Academia Mineira de Letras, Escola Guignard, Orla da Pampulha, Monumento a Rômulo Paes, Parque Ecológico da Pampulha, Rede Band de BH, Rede Band de Campinas, Rede Globo Minas e Ambientação do 47º BID -2006, mas com o projeto do Mineirão, o nome do arquiteto Gustavo Penna, saiu das esferas acadêmicas e do mundo da arquitetura e passou a ser conhecido por grande parte da população (nem sempre interessada em arte e arquitetura). Com as obras do Mineirão o senhor se tornará o nome máximo da arquitetura mineira?
GP:
Infelizmente a população não é interessada em arquitetura, pois uma cidade feia é uma cidade que atinge você e qualquer outro cidadão. Uma cidade mal planejada, desarmônica, cria desarmonia, da mesma forma que uma cidade harmônica cria um relacionamento feliz entre os seus moradores. Uma cidade feliz é uma cidade bem projetada, limpa, não é cidade de luxo, mas de capricho. É igual aquela frase de caminhão: "arquitetura não é para o luxo. Arquitetura é a qualidade, é saber viver." Ser cidadão é ter auto-estima, gostar de si mesmo e da sua cidade, do seu vizinho. Uma cidade limpa, organizada é uma cidade onde as pessoas estão vivendo em harmonia. Eu acho que é muito importante essa idéia.


E com as obras do Mineirão é claro que eu não me tornarei o nome máximo da arquitetura mineira. Em primeiro lugar eu não quero. Não existe uma cidade de um arquiteto só. Não existe um país de um arquiteto só. Aqui na cidade há várias pessoas que são potencialmente referências. Já tiveram outras que foram fantásticas, e infelizmente nós perdemos. Eu lamento profundamente a morte de Cid Horta, do Eólo Maia, do Veveco - meu amigo - do Rafael Hardy, do Shakespeare Gomes - que projetou a Escola de Arquitetura. E o fato de Humberto Serpa, por exemplo, ter parado de fazer arquitetura, é um excepcional arquiteto, que fez com sua equipe o Banco de Desenvolvimento. São pessoas excepcionais.


Então, eu não sou e não quero ser o nome máximo, eu quero ter um espaço de trabalho, um espaço de proposta. Eu quero é isso: espaço. Já que arquiteto faz espaços para os homens viverem, para as pessoas se encontrarem, espaços gentis, eu quero ter espaço para poder trabalhar. Eu não quero ficar limitado, trabalhando para uma construtora que não me deixa fazer as coisas porque quer me "enforcar". Não quero ficar limitado por um trabalho rotineiro, sem criatividade, que me impeça de inventar. Eu quero ser deixado livre. Eu acho que essa liberdade me dá espaço.


E a relação com os outros eu quero que seja o mais gentil possível e, às vezes, é muito difícil, porque tem muita gente que não compreende, acha que esses seus vários projetos, ao invés de serem valorizados, têm que ser diminuídos. Isso é uma bobagem! Eu sou igual Oscar Niemeyer nesse sentido, eu não gosto de falar mal de colega, tem coisa mais bonita para um arquiteto fazer. Eu acho que se nós queremos construir formas harmônicas, isso tem que começar pelo nosso coração. Você tem que organizar a harmonia interna. Harmonia começa não no projeto, não no desenho, a harmonia começa no seu caráter, na capacidade de valorização do outro e no reconhecimento do valor do outro.


DM: Quais são os ícones da arquitetura mineira?
GP:
Humberto Serpa, Amilcar de Castro, Cid Horta, Eólo Maia, Veveco, Rafael Hardy, Shakespeare Gomes.


Para mais informações sobre Gustavo Penna, clique aqui.

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