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Carlos Nunes - Julho 2010

  • Belo Horizonte - Ator e humorista Carlos Nunes - Arquivo Senac/Pedro Zorzall

Ganhador do Prêmio Multishow do Bom Humor Brasileiro, o ator e humorista, Carlos Nunes é um exemplo de cidadão apaixonado pela sua profissão. Sempre com salas teatrais cheias, sorriso no rosto e arrancando gargalhadas das pessoas, o ator, que adora fazer caretas, ressalta que para tornar-se um bom profissional do teatro é imprescindível dois elementos: talento e estudo.


Na entrevista deste mês leia, sorria e conheça um pouco mais do ator que ensina Como sobreviver em festas e recepções com buffets escassos; que conta uma história inusitada chamada Comi uma galinha e paguei o pato e, mesmo depois de tudo isso, afirma que Lá a vida é uma comédia!


“Desde quando me entendo por gente eu faço teatro, aliás, até antes disso. Sempre brinco que já nasci atuando, pois eu nasci em outubro e, em dezembro fiz o papel de menino Jesus do presépio vivo da minha cidade Serro, e nunca mais parei de fazer teatro. Com sete anos eu recitava poesias nas formaturas. O teatro vem me ajudando ao longo da minha vida. Foi sempre o teatro que me ajudou na escola, que me fez relacionar melhor com as pessoas, e que fez minha vida melhor”. 


Por: Gabriela Sthefânia e Thiago Antunes


Descubraminas: Você é mineiro do Serro, cidade do queijo. Poderia nos contar como foi sua infância?

Carlos Nunes: Minha infância foi muito sofrida lá no Serro. Eu sou de uma família de 19 irmãos, e nós éramos muito pobres. Mas, há uma antítese nisso, pois apesar de ter sido uma infância pobre e sofrida, porque não tínhamos comida e conforto, foi muito prazerosa pela liberdade que a época e a cidade ofereciam. Fomos criados soltos, na rua brincando e, hoje, as crianças não têm mais isso. Além disso, nós, meus irmãos e eu, sempre fomos uma família muito unida, tínhamos carinho de nossos pais, a segurança de poder andar e estar na rua, então era muito gostoso isso.  


DM: Como o teatro surgiu em sua vida? E o reconhecimento de sua carreira?

CN: Desde quando me entendo por gente eu faço teatro, aliás, até antes disso. Sempre brinco que já nasci atuando, pois eu nasci em outubro e, em dezembro fiz o papel de menino Jesus do presépio vivo da minha cidade Serro, e nunca mais parei de fazer teatro. Com sete anos eu recitava poesias nas formaturas. O teatro vem me ajudando ao longo da minha vida. Foi sempre o teatro que me ajudou na escola, que me fez relacionar melhor com as pessoas, e que fez minha vida melhor. Quando eu estava me formando na escola de teatro meus professores estavam amedrontados e diziam que o teatro iria acabar, mas isso não aconteceu. Ao contrário, naquela época a Belo Horizonte tinha seis teatros e, hoje, são trinta.


Quanto ao reconhecimento, no início da minha carreira as pessoas perguntavam para a minha família a minha profissão e eles respondiam: “íiiiii...Carlinhos faz teatro...”, com um tom não muito bacana. Mas com os tempos eu fui conquistando meu espaço e hoje eu digo na minha casa: “Eu sou ator de teatro” e eles também têm orgulho em afirmar isso.


Eu acho maravilhoso, montar uma peça, você não sendo contratado de nenhuma emissora televisiva, e mesmo assim conseguir encher uma sala de teatro. Porque, hoje, tirar as pessoas de casa tornou-se muito mais difícil por causa da violência. As pessoas preferem ir ao cinema, porque não temos teatros em shoppings ou outros locais que atraiam as pessoas por conta da praticidade, segurança e estacionamento, mas mesmo com essas adversidades graças a Deus eu consigo levar as pessoas para me assistir e posso afirmar que sou uma pessoa realizada.


DM: Quais os preceitos fundamentais para um ator?

CN: É muito importante que um ator seja carismático. Eu venho batendo numa tecla há muito tempo, desde quando eu dava aula, tentando colocar na cabeça das pessoas que não é importante só estudar teatro, mas é importante você ser bom, no sentido de ser uma pessoa da paz e honesta. Isto porque quando você está no teatro ou na televisão atuando o público vê a sua alma, não apenas o personagem que você está fazendo. Para ser ator é imprescindível que se tenha a junção do talento com o estudo.


DM: O que você considera que seja a missão de um ator? E de um humorista?

CN: Eu brinco que todos os humoristas amigos meu estão milionários e por isso não sou humorista (risos). Bom, agora respondendo à pergunta, eu não me considero humorista ainda, pois para mim o humorista é aquele que faz piada com todas as coisas que vê, e eu não tenho muito disso ainda, apesar de estar trabalhando para isso. Mas, independentemente de qualquer coisa, creio que a missão de um ator, e também de um humorista, seja fazer as pessoas se descontraírem. Eu acho que o mal do século XXI é a depressão, as pessoas estão ficando muito sérias, e estão precisando reaprender a rir, a soltar gargalhadas. Quando somos crianças rimos de tudo, um palhaçinho que aparece torna-se engraçado, e quando adultos perdemos esta capacidade de rir, de ser mais feliz. Acredito que se a gente aprender a rir dos nossos problemas teremos uma grande chance de ser feliz.


DM: Existe algum palco que você ainda não conhece e que tem o desejo de atuar nele?

CN: Acho que não. Onde tem público eu gosto de me apresentar. Eu só não gosto de fazer teatro se não tem público. O meu objetivo e o meu combustível é a gargalhada do público. Eu faço teatro para três e para trezentas pessoas, mas para três eu faço profissionalmente e para trezentos eu faço com entusiasmo, creio até que isso seja um grande defeito meu, mas eu sou movido a gargalhadas.


DM: Como é a receptividade do público mineiro nas suas peças?

CN: Eu tenho um carinho muito grande pelo público. É ele que paga minhas contas, por isso eu o respeito como meu patrão e gosto dele como meu amigo. Mas o público mineiro, especialmente, é muito generoso comigo. Desde o início da minha carreira que eu estou sempre enchendo as salas de teatro onde me apresento, por isso sou muito grato ao público mineiro.


Eu sou um felizardo na vida, as pessoas ficam desesperadas querendo colocar público no teatro e eu, quase sempre que estou em cartaz, preciso pedir as pessoas que voltem no outro dia que a sala já está lotada. Acho isso maravilhoso e agradeço a Deus todos os dias por poder colocar uma placa na porta do meu teatro dizendo que está esgotado.


DM: Você já fez participações em programas televisivos. Quais as diferenças, qualidades e defeitos que existem entre o teatro e a TV?

CN: Eu não posso falar muito de televisão porque eu fiz poucas coisas para TV. Mas, o que eu sempre escutei é que eu não caibo na televisão, por conta das caretas que são muito grandes e, em mim, é tudo muito intenso e na TV não se pode ser intenso, pois “a lente da câmera é bem pequena e não cabe” tanta careta e intensidade.


Eu fiz alguns programas que eu gosto muito na televisão como um trabalho que eu fiz na Rede Globo, transmitido na hora do almoço, que era um programa que não tinha roteiro; fiz A Diarista com a Cláudia Rodrigues, que é uma pessoa que eu admiro e gosto muito, inclusive nós participamos de um prêmio nacional de humor brasileiro em que ela ficou em primeiro lugar e eu em segundo; fiz oito Zorra Total; Minha Nada Mole Vida com o Luiz Fernando Guimarães que eu acho um ator fantástico, e fiz também Oh! Coitado, com Gorete Milagres. Mas eu não posso falar muito de televisão por que eu nunca fiz, por exemplo, uma novela que você fica muito tempo em cartaz, com texto de uma outra pessoa. Um sonho que carrego comigo é o de fazer cinema, mas eu fico imaginando se na televisão eu já faço careta... (risos), imagina só no cinema, pelo menos a tela é maior (risos).


DM: Existe algum teatrólogo que você admira e tem como ídolo?

CN: Tem um ator que, para mim, é o melhor do mundo, o Marco Nanini. Eu acho que se ele tivesse nascido nos Estados Unidos ele iria ganhar o Oscar todos os anos pelos personagens que ele faz. Marco Nanini faz a mocinha (o), o avô (ó), o bandido, ele faz tudo com tamanha perfeição e beleza que me deixa impressionado. Eu tenho uma paixão pelo trabalho do Marco Nanini, ele é um exemplo a ser seguido.


DM: Você enfrentou algum desafio para se tornar o ator e humorista reconhecido que é hoje? Se sim, quais?

CN: Nós enfrentamos desafios todos os dias, mas um que me marco foi no início da minha carreira. Quando eu fui fazer prova no Palácio das Artes eu fui fardado, na época eu seguia o exército, e as pessoas achavam muito estranho uma pessoa fardada fazendo prova de teatro. Outro desafio nesta mesma época foi quando eu me formei no teatro, pois eu queria ficar aqui em Belo Horizonte, mas as pessoas me incentivaram muito dizendo que eu era a reencarnação do Oscarito e que eu tinha que ir embora para o Rio de Janeiro conquistar meu espaço. Eu fui e esse foi um grande desafio, pois não conhecia nada lá, para se ter uma ideia, o local para eu morar eu fui comprar o jornal para olhar quando eu cheguei lá. Foi uma loucura na minha vida, mas eu venci esse desafio, consegui fazer teatro no Rio.


DM: Esta pergunta foi feita ao humorista Geraldo Magela e será repetida á você: “Personalidades mineiras como você, Gorete Milagres (Filomena), Saulo Laranjeira, e o próprio Geraldo Magela, formam um grupo de destaque no cenário humorístico brasileiro. Você acha que o "jeitinho" mineiro de ser contribui para esse sucesso, permitindo a concorrência com humoristas do eixo Rio - São Paulo?

CN: Sempre quando eu fiz escola, as pessoas se referiam ao teatro mineiro, ninguém nunca falava o teatro paulista, o teatro carioca. O teatro tem que ser universal, tem que ser o teatro. Eu acho que nós, mineiros, temos um sotaque gostoso, que as pessoas vêem como uma coisa engraçada e mais família. Mas voltando a pergunta, acredito que o jeito mineiro de ser nos ajuda a conquistar o espaço teatral, as pessoas olham pra gente com certo carinho. Eu sinto que as pessoas têm admiração pelo meu trabalho pela minha mineiridade e isso me ajuda.


DM: É possível viver de teatro hoje? Qual a dica que você deixa para os que sonham em trabalhar com a arte teatral?

CN: Eu aprendi que vender alegria é muito fácil. Eu vendo alegria e com isso, com a minha profissão, eu pago todas as minhas contas e de algumas pessoas que precisam de mim. Além de fazer o que eu amo e ser realizado pessoal e profissionalmente, posso dizer que o teatro me dá uma situação financeira que me dá conforto, e eu fico muito feliz de poder falar isso de peito aberto.


Eu sempre falo que as pessoas que gostam da arte teatral têm que passar por uma escola, pois é muito importante. Eu vejo muita gente indo para as escolas de teatro para fazer terapia, não pelo talento e vocação pela profissão. Isso acontece porque as pessoas pensam que o fazer teatral é só uma liberalidade, uma coisa legal, descolada para perder a timidez de trocar de roupa na vista dos outros, de beber após o espetáculo, é não ter chefe no pé e não é nada disso. Fazer teatro antes de tudo é ter disciplina ferrenha, tem-se o compromisso com a voz e com o corpo. Então a dica que fica para quem quer fazer teatro é “pense de verdade”!


DM: Na sua opinião, quais as melhores peças do teatro mineiro?

CN: O Ateneu, de Kalu Araújo; Os Sem Vergonhas, na direção de Guilherme Leme; Lua de Cetim, com produção do Pedro Paulo Cava; Mulheres de Holanda e Bela Ciao, de Pedro Paulo Cava. Foram coisas maravilhosas que eu já vi. Nossa cidade produz muitas coisas boas. Agora, peças minhas eu gosto muito e ganhei todos os prêmios foi com Lá a vida é uma comédia, Como sobreviver em festas e recepções com buffet escasso, eu faço há dez anos e Comi uma galinha e tô pagando o pato, que é a peça que eu estou com ela em cartaz.

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