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Eunice Bráulio - Novembro 2010

  • Atriz mineira Eunice Bráulio - Arquivo Pessoal
  • Eunice Bráulio em cena - Guto Muniz
  • Atriz Eunice Bráulio em peça de Pedro Paulo Cava - Guto Muniz
  • Guto Muniz
  • Atriz Eunice Bráulio - Arquivo Pessoal

O Descubraminas traz este mês a atriz do teatro mineiro e que recentemente participou da minissérie "A Cura", da Rede Globo, Eunice Bráulio. Entre outras coisas, ela fala de sua primeira experiência na TV e da facilidade de interpretar os personagens devido à sua baixa estatura.


Minha altura sempre me ajudou em tudo, em todos os sentidos, na vida pessoal, amorosa e na carreira. Com esse tamanho eu posso interpretar qualquer papel, no teatro principalmente. [...] Com a minha altura no palco, eu convenço as pessoas interpretando qualquer personagem. Eu já fiz homem, já fiz vovó, madame, criança. Teve uma peça que eu fiz, com 35 anos, que fui uma criança de oito anos de idade. Se eu mostrar a foto ninguém acredita, parecia uma criancinha mesmo.


Por Gabriela Sthefânia, Jéssica Andrade e Thiago Antunes


Descubraminas - Como foi a sua infância em Estrela do Indaiá?
Eunice Bráulio
- Eu tive aquela infância de criança do interior, solta, numa casa que ocupava o quarteirão inteiro e que tinha um quintal imenso. Eu e meus cinco irmãos, do qual eu sou a caçula, a mais paparicada, fazíamos muita arte. Ficávamos pulando de galho em galho, falando que éramos macacos [risos]. Tive uma infância maravilhosa.


Desde os meus quatro anos de idade que eu já tinha essa veia artística. O pessoal reunia, fazia uma rodinha e eu cantava e dançava. Quando eu fui crescendo, na verdade eu não cresci né?! [risos]. Eu fui amadurecendo a ideia, porque crescer eu não cresci [risos].


DM - Você exerceu várias atividades paralelas ao teatro durante anos, como por exemplo, a costura. Como você conciliava essas atividades com os ensaios e apresentações?
EB
- Eu tinha uma filha pra criar e eu queria dar o melhor pra ela. Quando eu me separei a pensão que eu recebia não era suficiente para tudo. Então, eu tinha que fazer mil coisas. Eu fiz quadro em espelhos na Feira Hippie, fiz pão de queijo pra vender, fiz trabalhos manuais e costurei mais de 20 anos, consertando roupas. O que aparecia na minha mão eu procurava vender para ganhar um dinheirinho.


Na verdade, na época eu trabalhava mais do que fazia teatro. Eu trabalhei com teatro por uns 10, 15 anos sem ganhar nada, por prazer mesmo. Porque o teatro pra mim é muito mais um prazer, se eu tivesse uma condição financeira muito boa, eu nem cobraria. Eu faria para agradar as pessoas, para elas rirem um pouco. Então eu trabalhava mais do que fazia teatro. Teve uma época até que parei, porque trabalhei em uma loja no centro, de segunda-feira a sábado, onde eu chegava 7h da manhã e não tinha hora pra sair. E eu não tinha condição de fazer teatro. Fiquei por dez meses nessa loja e fui definhando literalmente. Foi quando eu olhei no espelho e disse "Meu Deus! Eu tenho que parar com isso!". Aí eu larguei tudo, meu pai quase morreu porque eu tinha carteira assinada, ganhava bem. Só que eu falei com ele que não dava mais, não sou feliz. Quero estar pobre, mas feliz. Eu prefiro não ter dinheiro, mas estar bem, fazendo o que eu gosto. Claro que, graças a Deus, eu vivo do teatro e agora também da televisão, mas foi com luta e persistência, que é uma característica minha de não desistir, independente de ganhar dinheiro ou não. É o teatro que eu quero pra minha vida. Eu não quero mais nada, além disso.


DM - Como e quando você decidiu entrar no teatro? E de onde veio esse talento para a comédia?
EB
- Meu pai é músico, mas ele não toca mais. Meu nome inclusive vem de uma música que ele gostava de tocar: Eunice. A minha mãe era atriz, do interior também. Ela se apresentava de uma cidade pra outra, mas era sem fins lucrativos, apenas pra se divertir. A minha irmã é uma atriz nata, ela escreve peças, dirige, também no interior e ela ama teatro.


Eu tinha um irmão que tocava violão e fez parte de um conjunto. Na minha família tem muita gente que é da arte, mais da música do que do teatro, meus tios, por exemplo, tocam bandolim e violão. Com nove anos de idade eu era presidente do Clube de Leitura, pegava as revistas em quadrinho, como a da Luluzinha, e adaptava. Eu dirigia, produzia, atuava. Adorava, eu era líder na escola da parte de teatro.


Com sete anos eu fiz a minha primeira peça que chamava "A Rosa Juvenil". Tinha a "musiquinha" da princesa que ficava presa no castelo e o rei vinha pra tirá-la. Era um minimusical. Minha mãe fez um vestido lindo pra mim, todo rosinha e eu encantava com tudo aquilo. Na escola eu sempre me sobressaí muito e sempre queria ser a melhor aluna da sala, mas na verdade eu queria aparecer. Acredito que para ser artista, a pessoa tem que aparecer. Tem gente que fala: "Eu sou tímida, não quero aparecer". Então eu digo que está na profissão errada, porque todo artista quer isso.


DM - O fato de ser "baixinha" ajuda ou atrapalha na hora de interpretar os personagens?
EB
- Só ajuda. Minha altura sempre me ajudou em tudo, em todos os sentidos, na vida pessoal, amorosa e na carreira. Com esse tamanho eu posso interpretar qualquer papel, no teatro principalmente. Na televisão nem tanto, porque eles querem a pessoa de acordo com a idade mesmo. Mas, no teatro eu com 42 anos de idade fiz a peça "Chapeuzinho Vermelho" e eu era a Chapeuzinho. Já com 50 anos eu fiz "Lampiãozinho e Maria Bonitinha". O meu papel era o da Maria Bonitinha que é uma adolescente apaixonada pelo Lampião.


Com a minha altura no palco, eu convenço as pessoas interpretando qualquer personagem. Eu já fiz homem, já fiz vovó, madame, criança. Teve uma peça que eu fiz, com 35 anos, que fui uma criança de oito anos de idade. Se eu mostrar a foto ninguém acredita, parecia uma criancinha mesmo. Tudo o que eu fazia na época de escola tinha uma repercussão maior. As pessoas falavam: "Como você tão pequenininha já consegue fazer um monte de coisas". Nas paradas de 7 de setembro, eu sempre ficava na frente puxando o pelotão, senão eu sumia no meio da fila [risos].


DM - Nesses 30 anos de carreira, qual foi o maior desafio que você enfrentou?
EB
- O maior desafio pra mim foi à televisão. Um mundo novo, uma experiência nova. Eu não tinha experiência nenhuma a não ser em comerciais, que é uma coisa totalmente diferente, pois você não é um personagem, está apenas passando uma mensagem. Então realmente foi meu maior desafio, porque eu não sabia como fazer e tinha que me virar. Fazer teatro pra mim sempre foi mais fácil do que televisão. Na TV é tudo muito certinho, não pode sair um milímetro do foco. Não tem a espontaneidade do teatro. Mas ao mesmo tempo você tem que ser natural, o que é muito mais difícil.


Posso incluir também como desafio na minha carreira interpretar um monólogo em Barão de Cocais. Em termos de teatro acredito que tenha sido um dos maiores. Porque você sozinha, desse tamanho, num palco enorme, com 1.200 pessoas te assistindo... Eu imaginei: acabou, esse povo vai embora, quem vai querer ficar aqui me assistindo sozinha?


Ainda mais no interior, que eles gostam de muita gente no palco. Foi maravilhoso porque ficaram quietinhos, inclusive tinha pessoas em pé, e eles assistiram, riram muito e no final eles gritavam, aplaudiram, pediram autógrafo. Foi bem legal.


DM - O que significa para você a arte de atuar nos palcos?
EB
- Prazer. Tem um amigo meu que fala que fica contando as pessoas na plateia pra ver quanto é que ele vai ganhar. Eu nunca fiz isso, porque não me interessa. Eu quero fazer e agradar o público. Claro que eu preciso ganhar dinheiro com isso, afinal eu vivo do teatro, mas se eu não ganho muito, isso não tira o meu prazer. E não é demagogia, quem me conhece sabe que eu sou assim. Apresento uma peça pra duas ou três pessoas com o mesmo prazer que eu apresento pra mil.


DM - Como foi trabalhar pela primeira vez na TV, na minissérie "A Cura"? Qual a diferença de atuar nos palcos e na TV?
EB
- A minissérie "A Cura" foi o meu primeiro trabalho na TV. Eu decorei os nove capítulos de cor e salteado e pensei: "Eles não devem gravar na sequência, como no teatro". Então eu imaginava, terceiro capítulo, vai até a parte tal... Nono capítulo, vai até a cena tal... Estava tudo na minha cabeça e alternado. Mas, a gente chegou a gravar sete capítulos em um dia só. Eu imaginei que se não tivesse com tudo afiado na ponta da língua, eu iria dar trabalho pra eles. E se eu der trabalho pra eles eu estou fora. Mas foi muito legal, o diretor gostou muito, ele começou a me tomar o texto, achando que eu não sabia tanto, até os offs eu decorei. Teve um dia que foi tão rápida a minha gravação que o diretor saiu do lugar dele onde coordena tudo e foi me aplaudir e ainda pediu para que todos me aplaudissem.


Fiquei muito satisfeita com a repercussão que "A Cura" teve. Pelos elogios que eu recebi dos diretores e técnicos, pois como não me conheciam ficavam na dúvida com relação ao meu trabalho. O diretor de elenco, Luciano Rabelo, falou comigo no dia do último capítulo: "Eunice, eu volto as suas cenas só para poder te assistir de novo". Então, isso é muito gostoso e prazeroso ouvir de pessoas que não te conheciam. É a primeira vez que eles viram o meu trabalho e todo mundo gostou muito. O Mário Jorge, que é o produtor geral, também me elogiou muito. Até o Vídeo Show fez duas matérias comigo mostrando o lado engraçado da Nonoca, meu personagem.


Tudo o que vem acontecendo desde a gravação da minissérie tem sido muito bacana. Esperei 40 anos para estrear na TV, mas fui recompensada com uma personagem que me identifiquei logo de cara. No dia do teste, eu já fui caracterizada de Nonoca. Quando li o texto já sabia que esse papel ia ser meu. E não deu outra. Conquistei a vaga e consegui realizar o meu trabalho. O que eu sempre digo para as pessoas é que nunca desistam dos seus sonhos.


A espontaneidade do palco é o principal fator diferencial. No palco tem tudo marcado, mas eu fico a vontade. Eu não tenho essa preocupação com milímetros para um lado ou para o outro que se tem na TV. É tudo muito certinho. Principalmente na minissérie que foi filmada com equipamento de cinema. Se eu estava na janela posicionada de um jeito, por exemplo, eu tinha que ficar parada naquela posição. Tinha que ser natural e sem sair do foco da câmera. Então essa é a grande diferença. Porque o prazer de atuar é o mesmo, tanto no teatro quanto na TV.


DM - Quais foram os prêmios mais importantes que você ganhou ao longo de sua carreira?
EB
- Ganhei quatro prêmios. O primeiro deles foi com uma peça infantil, a "Bela Adormecida". Eu fazia uma das fadinhas e foi aí que eu descobri que as pessoas riam muito de mim. Eu pensei: sou uma pessoa engraçada. Mas, era um papel secundário. Quando eles me deram o prêmio eles disseram que eu transformei um papel secundário em um papel principal.


Com o "Tango, Bolero e Cha Cha Cha" ganhei o prêmio de melhor comediante e humorista e o de melhor atriz coadjuvante. Há pouco tempo, também ganhei o prêmio de melhor atriz com a peça "Bonitinha e Lampiãozinho".


DM -  Como é a receptividade do público mineiro com seu trabalho?
EB
- No interior é melhor. Principalmente quando é de graça. Quando a prefeitura compra, ou quando tem a lei de incentivo, patrocínio, todo mundo comparece. Mas eu não sei se o mineiro tem dó de gastar com teatro, porque eles falam que é muito caro. Mas teatro é 10, 12 reais. O cinema é até mais caro, 14, 16 reais. Acredito que seja por falta de costume, hábito. Por isso que eu gosto de fazer teatro para criança. Porque ali é formação de público.


De uns tempos pra cá foi que começou a se vender espetáculo pra escola. Tem uma escola que compra todos os espetáculos, ela destina uma verba pra isso. Eu acho isso maravilhoso. Porque não levar as crianças para o teatro? Acho que o público mineiro tem que aprender bastante. Está muito longe de chegar a um percentual aceitável.


DM - Qual profissional das artes cênicas você se inspira para realizar seu trabalho?
EB
- Uma das pessoas que mais me ensinou, que mais me inspirou foi a Andréa Garavello. Ela está afastada do teatro, mas pra mim é uma das melhores atrizes do teatro mineiro. Ela tem uma capacidade de dominar o texto, de dominar a plateia e improvisar. Além dela, tem o Carlos Nunes que é fantástico pela capacidade de improvisação. Ele não precisa fazer força pra ser engraçado, só olhar pra ele você já ri. Tem um ator novo no teatro que eu sou fã dele, que tem um domínio de platéia sensacional, que é o Cristiano Junqueira. É tão bom que já ganhou dois prêmios como melhor ator em comédia, que é a coisa mais difícil.


Esses que eu citei são atores que foram muito importantes para mim. Inês Peixoto é outra pessoa que eu não posso deixar de falar. Trabalhar com ela, vocês não fazem idéia da pessoa que ela é. Ela é um exemplo de simplicidade, humildade e de talento. A Inês age como se fosse ninguém. Trabalhar com ela, conviver com ela, foi uma das melhores coisas que já me aconteceram.


DM - Ao longo da sua carreira qual a peça que te marcou ou a que você mais gostou?
EB
- "Sou pequena, mas não sou pedaço", por ser um monólogo, por falar da minha vida, das minhas experiências de vida como "baixinha". As situações às vezes embaraçosas que uma baixinha enfrenta, falar disso e mostrar para as pessoas o quanto eu gosto de ser baixinha e falar de auto-estima, de persistência, de otimismo, que são características minhas e que eu gosto de passar no teatro.


DM - Quais são seus projetos para 2011?
EB
- Eu já tenho a campanha de popularização do teatro que eu vou estar em cartaz com o "Sou pequena, mas não sou pedaço", no Teatro Imaculada, em janeiro, e em fevereiro estarei no Teatro Alterosa. E quero muito mesmo voltar a fazer televisão, atuando numa possível segunda temporada de "A Cura" ou em uma novela. Esse é o meu maior objetivo para o ano que vem. Inclusive já deixei claro com eles que se tiver que mudar para o Rio de Janeiro, eu mudo a hora que quiserem. Porque foi uma experiência maravilhosa. Parece que eu trabalhei com isso a vida inteira.

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