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Inês Peixoto - Abril 2011

  • Inês Peixoto - Divulgação/Adalberto Lima

O descubraminas.com traz em abril, um ótimo bate-papo com a atriz do grupo Galpão, Inês Peixoto. Mineira de BH, Inês conta como decidiu entrar para o teatro, além de suas experiências pelos palcos Brasil à fora. Confira abaixo a íntegra da entrevista.


Foi uma paixão a primeira vista pelo teatro. Eu me apaixonei e a partir daquele momento, eu transformava todas as brincadeiras em teatro, assim como os trabalhos de escola eu transformava em representações.


Por Jéssica Andrade e Thiago Fernandes


Descubraminas - Como foi sua infância em Belo Horizonte?
Inês Peixoto -
Minha infância em Belo Horizonte foi ótima. Nasci nos anos 60, morei perto da praça da Liberdade e andava de bicicleta perto da praça. Era uma cidade ainda tranquila para uma criança brincar na rua. Depois, eu morei na Pampulha e também era um bairro onde eu tinha muita liberdade. Eu tive uma infância assim de brincar muito na rua com turmas, eu ia muito ao cinema. Desde pequena que eu sempre gostei de ir ao cinema. A gente ia ao cinema sozinhos, era sempre uma turminha de colegas e tive uma infância muito boa. Tenho uma recordação muito bacana da minha infância em Belo Horizonte.


DM - Como e quando você decidiu entrar para o teatro?
IP -
Foi na minha infância. A primeira peça que eu assisti eu tinha sete anos. Assisti no Teatro Marília a peça: "Liderato, o rato que era líder". Fui levada ao teatro por uma amiga de uma das minhas irmãs mais velhas. E quando eu assisti ao teatro ela depois me levou para ver outra peça e assistindo tudo aquilo eu sabia que eu queria fazer aquilo um dia. Foi uma paixão a primeira vista pelo teatro. Eu me apaixonei e a partir daquele momento, eu transformava todas as brincadeiras em teatro, assim como os trabalhos de escola eu transformava em representações. A gente tinha aquela coisa de apresentar trabalho sempre em formato de um roteiro, tudo instintivamente. Eu sempre falo que foi o teatro que me escolheu e foi uma coisa que fui perseguindo, na medida do possível, até eu conseguir entrar mesmo.


DM - No início da sua carreira você conciliou trabalhos artesanais com o teatro. Como foi essa experiência?
IP -
Nessa minha época mais artesanal foi quando tive meu primeiro filho. Eu fiquei grávida com 22 anos e fui morar em Arraial do Cabo, cidade da região dos Lagos. Eu tinha uma paixão por essa cidade, um recanto muito bacana e achei que seria bom passar a gravidez lá. Arraial do Cabo era uma cidade que tinha muitos hippies, pessoas ligadas à contra cultura. Eles desenvolviam muitos trabalhos de estamparia, de prata e jóias e eu me envolvi, fiquei amiga dessas pessoas e nessa época aprendi a trabalhar com isso. Eu fazia muita estamparia de roupa e em madeiras também.


DM - Depois da atuação na comédia musical "Cais do Corpo", juntamente com Walmir José, vocês fundaram uma banda. Conte-nos como foi essa experiência?
IP -
O elenco dessa banda estava nesse espetáculo, o Cais do Corpo. Estava o Parara, o Caverna, o André Garavelo, vários músicos, Tchelo, André, Chiló, Flávio, Piula, e eu e a Amaziles fazíamos esse espetáculo. Aí eles já tinham esse projeto do Veludo Cotelê e iam fazer o primeiro show no Cabaré Mineiro. Era uma banda performática, uma banda de rock brega. Então eu e a Amaziles nos oferecemos para poder dançar, fazer tipo "veludete". Era tudo muito irônico, algo muito cômico.


Era uma brincadeira em cima dos hits bregas da época e aí a gente se ofereceu para integrar esse trabalho e nós continuamos. Porque no primeiro show duas pessoas compraram o ingresso. Aí acabamos que fomos obrigados a ficar, aí desenvolvemos o "Veludo Cotelê". Foi muito interessante porque começou com uma brincadeira e a gente desenvolveu uma técnica de criar clipes ao vivo das músicas. Era muito dinâmico, o repertório mudava e tínhamos que criar figurino, coreografias e uma abordagem daquela música. Foi um trabalho muito criativo, eu adorava. Eu fiquei de 1987 a 1992, que foi quando eu entrei para o grupo Galpão.


DM - Como é o dia a dia do grupo Galpão? (Escolha de peças, ensaios, preparação)
IP -
Eu entrei no Galpão quando eles promoveram uns workshops, eles iam fazer uma nova montagem, escolher um texto e eu fui convidada para participar desses workshops. No primeiro momento eu fui para uma reciclagem mesmo. Depois que a gente realizou esse trabalho que era para mostrar para o Gabriel Vilela, que iria dirigir a próxima montagem, aí fui convidada para participar do próximo trabalho que foi "Romeu e Julieta".


No dia a dia do Galpão nós temos algumas práticas em conjunto, fazemos pilates e preparação vocal. Os processos de montagem são obtidos coletivamente através de reuniões. Se o grupo está precisando trabalhar alguma coisa naquele momento a gente se reúne e decide. A partir disso começamos a pensar quem é a pessoa ideal para dirigir essa montagem. O grupo trabalha muito com atores participantes, já tivemos vários projetos colaborativos onde ajudamos a escrever o texto e já tivemos direções internas.


É um grupo que se caracteriza por ser formado por 13 atores e não temos uma figura central de um diretor. São atores que estão em constante movimento de experimentar, de procurar trabalhar com diretores diferentes, promover encontros com pessoas que tragam novas maneiras de pensar o teatro para dentro do grupo. Eu acho que poderíamos caracterizar a experiência artística do Galpão com a palavra experimentação. É um grupo que está sempre buscando experiências com novas pessoas e até por ser um grupo formado por atores tem essa necessidade de estar ligado a várias maneiras de ver o teatro, de trabalhar o teatro.


DM - Ao longo do seu trabalho com o grupo Galpão, qual foi o espetáculo que você mais gostou de atuar?
IP -
Eu acho essa pergunta muito difícil. Eu gosto de todos os espetáculos, acho que cada espetáculo que você realiza, que o ator trabalha, ele vai colocando um tijolo a mais. É como uma catedral, você constrói ela eternamente. Durante toda a sua vida aquelas catedrais que demoram séculos para serem construídas, você vai colocando um tijolo, um trabalho, vai sedimentando o outro.


Eu atualmente estou muito envolvida com o Till, que é o último espetáculo do Galpão e gosto muito do texto, do personagem que eu to fazendo. Interpreto Till Eulenspiegel, que é um anti-herói, um menino que é abandonado na Idade Média e ele nasce a partir de uma disputa entre Deus e o Diabo. Ele nasce completamente desvalido, despossuído de inteligência útil, de ideais e ele perambula pela Idade Média tentando sobreviver. A gente está fazendo esse espetáculo e eu to envolvida com esse personagem. Mas eu tenho um carinho muito grande por todas as minhas personagens, todas as minhas participações.


DM - Qual o novo projeto do grupo Galpão?
IP -
Agora em 2011 o Galpão vai lançar um projeto que se chama "Viagem a Chekhov". Nós vamos fazer um trabalho dividido. Uma parte do grupo vai fazer o primeiro trabalho, que é uma montagem do grupo que se chama "Tio Vânia", com direção da Yara Novaes e que estréia agora em abril. Já a segunda montagem faz um trabalho a partir dos contos de Chekhov, com a direção de um diretor russo chamado Jurij Alschitz, que vai estrear em dezembro desse ano.


DM - Seu último trabalho na TV foi na minissérie "A Cura". Como foi essa participação?
IP -
Foi maravilhosa. Foi um convite super bacana. Eu estava chegando de férias e o Luciano, que fez o elenco de "A Cura", me ligou me perguntando se eu topava fazer um teste de um personagem para uma minissérie e tal. Eu disse: "Claro que topo! To chegando de viagem, to aqui em Belo Horizonte e quero fazer sim." Depois ele me mandou um e-mail com o texto para fazer o teste, aí eu cheguei de viagem, fiz o teste e foi muito bacana.


Ele conduziu o teste muito bem, gostei muito da condução dele, fiquei muito feliz. Ele me deu um fragmento do texto e eu poderia intuir alguma coisa da história, mas ele não quis falar nada. A gente tinha que fazer o teste só com aquelas palavras e aquele pedacinho que ele tinha dado eu não sabia o que era. Eu sabia mais ou menos que era alguma coisa ligada à cura, mas nem sabia que chamava "A Cura". Sabia que tinha um médico que conseguia fazer curas. Quando foi em março, ele entrou em contato falando que eu ia fazer a Edelweiss e eu fiquei muito feliz. Eu adorei trabalhar esse personagem com uma equipe maravilhosa, atores maravilhosos, trabalhar com pessoas bem preparadas tanto na técnica quanto os atores que são o Selton Mello, Ary Fontoura, Caco Ciocler, Nívia Maria, Juca de Oliveira, pessoas que a gente passou a vida vendo na televisão, que são ídolos pra a gente, e de repente você está trabalhando com eles. Foi uma sensação boa e foi uma experiência maravilhosa. Além dos mineiros que estavam lá né, a Eunice, a Dayse, o Ferrucio, Eu, o Tino, foi super bacana. Conheci a Andréia Horta, que eu não conhecia, então foi uma experiência ótima. O Ricardo Waddington e Gustavo Fernandez foram os diretores e eu pude fazer cenas com os dois que eles tinham um esquema de interna e externa. O Ricardo ficava com as internas e o Gustavo com as externas e foram dois diretores maravilhosos comigo.


DM - Na minissérie você atuou com outros mineiros, como a atriz Eunice Bráulio e o ator Tino Gomes. Como é o reconhecimento do trabalho dos atores mineiros?
IP -
Eu acho que os atores mineiros ainda estão muito fora desse eixo do áudio visual que é Rio - São Paulo. A gente tem uma produção teatral aqui, alguns grupos conseguem transitar pelo Brasil, pelo mundo. Estamos muito a parte do eixo áudio visual que se estabelece entre Rio e São Paulo. A Bahia também conseguiu colocar muita gente, mas a produção áudio visual brasileira ela acontece no eixo Rio - São Paulo. Então a gente ainda é muito à parte disso tudo. Somos afastados desse movimento. Um trabalho como esse, que deram papéis significativos, importantes, dentro da história para os atores mineiros eu acho que é muito bom, porque desperta o olhar das novas produções, dos diretores, para essa coisa de buscar mesmo, abrir mais espaço, uma variedade de atores no ar, abrir o leque. Mas ficamos bem fora. Acho que temos que abraçar bem as oportunidades que aparecem porque elas não são muitas.


DM - Como é para você, uma atriz de teatro, fazer sucesso na TV?
IP -
Eu tenho paixão pela atuação, seja ela no teatro, na TV ou no cinema, que eu adoro muito. Agora eu acho que o teatro é fundador do nosso trabalho, acho que a experiência do teatro em colocá-lo em um espaço onde ele não tem a proteção, o ator no teatro ele está completamente entregue ao aqui e agora, no embate direto com o público. Acho que essa experiência do teatro é fundadora.


Tem muita gente que não passa por ela e que se dá bem no áudio visual, mas eu acho que ela é fundadora e necessária para o ator, ela alimenta o ator.Agora o sucesso na TV, acho mais que a experiência no cinema e na televisão ela é muito importante para o ator, porque ele lida com outros registros, ele tem que construir outros caminhos, é tudo fragmentado, às vezes você tem que usar sua emoção, no teatro você tem seu corpo todo, no cinema e na televisão você tem que concentrar em outras partes que é mais o rosto. Eu acho que tanto no áudio visual quanto no teatro o ator tem que estar preenchido, não existe o vazio. Mas eu acho que a exploração do seu corpo do ator é diferente. E na televisão e no cinema existe essa mediação que é muito importante você está transmitindo alguma coisa através de um objeto, que é a câmera. Ela é manipulada pelo diretor, então é um exercício muito grande do ator. No teatro a cena é do ator. Agora, na televisão e no cinema você tem que estar completamente ligado no seu diretor, naquela pessoa que está conduzindo através da cena. Acho que é uma ligação muito forte entre o ator e o diretor.


DM - Como é a aceitação do público mineiro com relação ao seu trabalho?
IP -
Eu tenho recebido muito carinho do público tanto no teatro quanto na televisão. E esse trabalho é espantoso o alcance que a televisão tem. É super bacana, às vezes você está em lugares que você não está nem pensando que alguém está sabendo quem você é e de repente chega alguém e fala que me viu na rua, no teatro, te vi lá na praça do Papa e fala que me viu na minissérie. Você vê que as pessoas estão ligadas, elas querem ver os atores mineiros no teatro, querem ver também a gente ganhando um público maior em um veículo de expressão nacional. Me sinto muito acolhida pelo público, pelo trabalho no Galpão e também pelo trabalho que a gente desenvolve em outros veículos.


DM - Atualmente, é possível um ator ou atriz viver do teatro? O que você pode falar para os jovens que estão ingressando na profissão?
IP -
Eu vivo de teatro. Então, a partir da minha experiência, eu digo que é possível. Agora, não é fácil. Eu trabalho muito e eu acho que quem quer ingressar e quer viver você tem que estar antenado em tudo, trabalhar muito, estudar muito, se interar de todos esses projetos de leis de incentivo porque são eles que proporcionam essa circulação do ator. Por exemplo, o Galpão é um grupo patrocinado pela Petrobrás e isso não quer dizer que estamos acomodados. Nós temos que fazer um projeto anual para a Petrobrás. Todo ano a gente apresenta um projeto para a empresa. Esse projeto tem que ser aprovado, a gente tem sempre um planejamento, projetos interessantes para apresentar para ela. Como a gente sempre teve essa ligação com a circulação, por ser um grupo de teatro de rua, a gente já trabalhava com a circulação antes de um patrocínio.


Então agora isso potencializou que a gente possa planejar as regiões do Brasil que a gente vai. Então essa profissionalização do ator, a exigência está cada dia maior, tanto no que diz respeito à preparação do ator, a habilitação do ator de corpo, voz, canto, de conhecimento, de abrir o olhar para tudo o que diz respeito ao teatro e também a profissionalização da produção. Você pode até conseguir viver de teatro de uma maneira do tipo colocar as coisas dentro de um carro e sair viajando. Se for uma pessoa, duas, até dá, mas se você tem um projeto teatral você tem que pensar no artístico e no administrativo também. Ligado a produção, ao planejamento, a um entendimento com essas leis de incentivo, como corre esses projetos de hoje. Então é arte e é trabalho. O artístico e o trabalho andam juntos. Não dá mais para olhar de uma maneira amadorística o teatro.


DM - Quais as peças mais representativas do teatro mineiro?
IP -
Nossa! Tem tanta coisa bacana no teatro mineiro. Por exemplo, quando eu estava começando Vilma Henriques, que é uma atriz que está fazendo 80 anos hoje, sempre trouxe trabalhos bacanas. O grupo do Pedro Paulo Cava também sempre produziu grandes trabalhos. O Eid Ribeiro e suas propostas de um teatro mais experimental, sempre foram trabalhos que eu assisti e que foram me formando. A gente tem grupos atuais que são bem interessantes como o Luna Lunera, o Espanca, uma geração de grupos novos que sempre servirão de inspiração pra a gente. Eu faço parte do Galpão, mas acompanho a trajetória dos outros grupos. É muito bacana ver como eles trabalham nessa nova dramaturgia. Gosto muito dos trabalhos do Kalluh Araújo, um diretor que eu admiro muito aqui em Belo Horizonte. O kalluh tem um olhar muito bonito para o ator, muito forte e ele tem um acabamento estético que eu gosto muito.


Poxa, teve tantos trabalhos mineiros que marcaram muito. O "Bella Ciao". Vou pescar lá desde o começo. Teve o "Bésame Mucho", um dos últimos trabalhos que eu gostei foi o "Aqueles Dois". Eu achei a leitura deles muito interessante, a partir do conto do Fernando Caio de Abreu. Foram muitos, tem tanta coisa pra ser dita é difícil dizer um só. Gosto muito do trabalho do Amauri Reis, acho ele um grande comediante. Dirigi com ele "O Vexame", que é um trabalho que eu gosto muito, não é porque eu dirigi, mas acho muito bonito. Ele trabalha muito bem entre o trágico e cômico. São tantos trabalhos.


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