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Carlos Bracher - Maio 2011

  • Artista Plástico Carlos Bracher - Cristiano Quintino
  • Igreja São Francisco em Ouro Preto de Carlos Bracher - Arquivo Pessoal
  • Museu dos Inconfidentes por Carlos Bracher - Arquivo Pessoal

O Descubraminas.com traz no mês de maio o artista plástico Carlos Bracher. Famoso nacional e internacionalmente por suas obras, o mineiro de Juiz de Fora conversou sobre suas origens e falou do seu amor pela pintura. Confira abaixo a íntegra da entrevista!


O Brasil é uma maravilha. Que país fantástico! É um país inacreditável, extraordinariamente inacreditável. A força criadora do país. Ô país maravilhoso! Gente criadora, gente criativa, todo tipo de arte, arte popular, arte erudita, arte dos loucos, todas as facetas artísticas que temos é de primeiríssima categoria.


Por Maria Lucia Dornas e Thiago Fernandes


Descubraminas - Como foi a infância do menino Carlos em Juiz de Fora?
Carlos Bracher -
Eu sou de uma família que há várias gerações mexeu com arte. Sou de uma família de músicos, de pintores, principalmente músicos. O meu avô era violonista, tinha uma pequena orquestra de cinema mudo na época. Meu tio Frederico também era violonista e pintor. Tinha várias [tias] que eram cantoras e pianistas. Meu pai também era pianista, minha mãe também era cantora. Então a minha infância era toda modulada pela questão artística. Arte pra mim, desde que eu nasci, era uma palavra muito falada, muito sonorizada na minha alma, na minha entidade, no meu ser. Foi uma infância, vamos dizer, muito artística, no sentido da ambientação familiar, isso lá em Juiz de Fora.


DM - Na adolescência, o senhor trabalhava decorando louças produzidas na fábrica do seu pai. Os irmãos Décio e Nívia se dedicavam a pintura. A opção pelas artes fluiu naturalmente ou em algum momento o senhor pensou em se dedicar a outra atividade?
CB -
Há um fator muito importante na minha formação, que é o meu irmão Décio. Ele nasceu em 1932, eu sou de 40. E o Décio foi uma pessoa muito importante pra mim, pra todos nós, os irmãos, porque o Décio era uma pessoa muito culta, era artista, pintor, músico, cantor da Madrigal Renascentista, na época do Isaac Karabtchevsky. Então ele foi uma espécie de guru, no sentido intelectual, na nossa formação. Ele foi muito importante, foi uma pessoa que deu um assentamento, um vislumbre importante para que eu pudesse me virar na questão artística como algo fundamental na minha vida. Inclusive, há um momento na minha vida que o meu pai resolve ter uma fábrica de louças, louças pintadas à mão, muito bonitas, cada louça com uma pintura diferente da outra, uma coisa extremamente artesanal. Então, eu fui trabalhar nessa fábrica com meu pai, mas não trabalhei como pintor, trabalhei em sessões de formação das louças. Eu tinha uns 13, 14 anos e lá tinha vários pintores, eu me aproximei deles, mas ainda não pintava.


Outro fator muito importante na minha vida é a minha irmã Nívia. Ela é uma belíssima artista, uma pessoa de um talento incrível e ela têm um ano e meio a mais que eu. Pelo fato dela ter um talento inato muito grande, ela veio a ser também uma outra pessoa muito forte na minha condição de evoluir, de materializar a arte em mim. A gente pintava junto, a Nívia e eu, onde ela ia eu estava junto e vice-versa. Então ela foi a condutora do meu despertar, da minha evolução direta.


DM - Fayga Ostrower, Frederico Morais, Orlandino Fernandes são grandes teóricos da história da arte brasileira com os quais o senhor teve o privilégio de conviver. Quais foram os momentos marcantes dessa convivência? O que se tornou inesquecível?
CB -
É impressionante como nós somos permeáveis aos contatos. Como as pessoas são importantes para a gente. É uma coisa fantástica. Principalmente seres iluminados como esses três aí. Fayga era a própria arte, o encantamento da arte, a poesia da arte, não só como artista, mas como teórica. Uma das pessoas mais fantásticas que eu já vi. Eu diria duas pessoas que foram fantásticas de que eu já ouvi falar de arte que era Fayga e Moacyr Laterza. Duas pessoas mais lindas que eu ouvi falarem sobre a arte. Porque não é fácil falar sobre arte. É uma coisa muito imaterial. No fundo a arte não é nada, ela é uma coisa muito invisível. Por isso que ela é essa coisa extraordinária que está desafiando a gente há milênios. Porque ela é muito intraduzível. E a Fayga sabia como poucas falar sobre arte.


O Orlandino era um amor de pessoa humana. Era um grande artista, um grande historiador, uma pessoa que sabia tudo sobre o barroco no século 18, um dos homens mais profundos do Brasil, foi diretor do Museu da Inconfidência durante muitos anos. E era uma pessoa, como ser humano, maravilhosa, nunca vi uma pessoa tão fraterna. Poderia ser uma prostituta que ele tratava com a mesma dignidade como se fosse um nobre.


E o Frederico é um grande intelectual. Um dos maiores intelectuais do Brasil. Então com cada um a gente vai aprendendo alguma coisa. E a vida é um aprendizado, a gente tá aqui pra aprender mesmo. Temos que ter a humildade de aprender e apreender. São valores diferentes. Não só aprender teoricamente as coisas. A gente tem que apreender sensivelmente.


A questão da arte, aí é que está a grande diferença entre arte e ciência. A ciência é uma coisa teórica, fria, analítica, uma coisa calculável. Portanto ela é meio destituída de aspectos emocionais de certa maneira. O cientista é um homem frio. Vai projetar coisas e teorizar tudo, tem que ser um pensamento lógico sobre tudo. O artista não, ele tem que ser ilógico. O artista é um poeta, é um cara que vai para as galáxias sempre. Isso que é importante, o artista é um ser que tem ver no encantamento o verbo da sua saída, da sua realização. A mente e alma de um artista elas são completamente flutuantes. Não tem um designo, um ponto de chegada. Para o cientista não, ele tem um objetivo, uma meta e cada vez descobrindo coisas. Mas está certo. Os cientistas são cada vez mais importantes para as culturas humanas, para a evolução, tem que ter de tudo. Nem todo mundo pode ser técnico, e nem todo mundo pode ser teórico. Se não ia ser uma bagunça danada. Cada um tem que exercer seu exercício, o seu fazer.


DM - Quando e como aconteceu a escolha por viver em Ouro Preto?
CB -
Em 1964 fomos para Ouro Preto, onde aí foi um impacto incrível, tanto para mim quanto para a Nívia, porque é uma cidade realmente contagiante, mágica e absolutamente emocionante e quando nós chegamos ali a gente realmente se debruçou em mundo muito forte, muito especial. E desde então eu comecei a fazer temporadas seguida em Ouro Preto e até que quando eu ganhei o prêmio de Viagem ao Estrangeiro, que era o maior prêmio de pintura do Brasil, no Salão de Belas Artes no Rio de Janeiro, em 1967, aí eu fui viajar para a Europa. Eu viajei diversas vezes e foi uma temporada importantíssima na minha vida. Com essa condição de ir para a Europa e ficar dois anos lá, foi uma coisa mágica na minha alma, na minha estrutura humana. Aí eu comecei a me dedicar a pintar Ouro Preto. Grande série no ano de 1968, que eu considero a maior série de toda a minha vida, foi a série de 1968. Aí fiquei dois lá na Europa, e ao voltar de lá eu fui morar em Ouro Preto. Foi exatamente no carnaval de 1971 que fui pra lá. São exatos 40 anos. Mudou a minha vida.


DM - Por quais escolas artísticas o senhor se sentiu mais influenciado na criação de suas obras?
CB
- O classicismo, o clássico, digamos o renascimento, com Rembrant, com Goya, com El Greco, tudo aquilo é um grande fascínio. A pintura daquela época, a perfeição absoluta que eles chegaram. Michelangelo, Leonardo Da Vinci, Rafael, então realmente aquilo tudo toca muito a gente. Aquele foi um primeiro momento mágico que existe ali algo extraordinário. E eles são realmente extraordinários e para sempre eles serão grandes artistas. Esse então foi o primeiro momento. Depois quando se descobre o impressionismo, esse momento revolucionário da pintura. Uma pintura mais simples, mais lenta, mais coloquial, então isso tudo é muito bonito também.


Então quando eu começo a ter uma ligação com o impressionismo vou me descobrindo com o próprio fazer meu, eu fui me descobrindo um pintor de uma origem mais expressionista. Eu tenho uma certa dualidade. Eu sou às vezes impressionista e outras vezes expressionista. Isso depende muito de estados momentâneos a cada dia. Às vezes eu tenho uma tendência impressionista, ou às vezes eu tenho um dia muito forte, mais nervoso, mais impactante aí eu tendo a uma pintura mais expressionista. Então eu sou mais ou menos isso. Como estilo eu utilizo essas duas formas.


DM - Em 1968, o senhor ganhou o Prêmio Revelação do Ano, concedido pelo Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro. Desta data até hoje o senhor construiu uma trajetória de sucesso. Quais trabalhos ou séries o senhor destaca em toda a sua carreira?
CB
- Essa série de 1968 foi uma grande série, foi uma das mais importantes. Essa que eu fiz de Ouro Preto, sem dúvida foi uma das mais importantes. Quando eu fiquei na Europa, eu comecei a fazer uma pintura mais diluída, com transparência, foi uma fase também interessante. Quando eu volto para Ouro Preto, que eu faço muito as montanhas de Minas dentro de uma linha de transparências, mais suaves, foi bem interessante. A série Van Gogh, em 1990, uma das mais importantes séries da minha vida. Foi quando eu fui homenagear o primeiro centenário de morte do Van Gogh. Eu fiz 100 quadros para homenagear e dar a ele o meu tributo de gratidão. Van Gogh pra mim é um pintor muito importante. Não só como pintor, mas como homem.


A figura do Van Gogh, não é só pra mim o pintor, mas a figura do artista. Um homem que se entrega, que se doa, que se mata inclusive pela arte. A própria tragédia humana dele, a própria loucura. A abordagem literária que ele tinha, o aspecto da palavra, ele escrevia muito bem, foi um belíssimo escritor. Na verdade, ele queria ser era escritor. Tinha essa dualidade entre a literatura e a pintura. Pra mim é a maior figura de artista é o Van Gogh. Esse lado das tormentas, esse lado dele de uma profunda entrega para a arte, é uma coisa muito linda, um grande ensinamento. Pra mim ele encerra o que espírito do que seja um artista. Ele é o espírito da arte. Mais do que qualquer outro artista. É nesse sentido da humanização do homem artista.


Depois eu fiz a série siderúrgica, depois foi a série Brasília. Eu diria também uma série que estou em andamento que é a série retratos. Eu já fiz mais de 300 quadros. Isso aí eu vou fazer um livro sobre retratos muito lindos, retratos maravilhosos, retratos muito comoventes, então essa é uma outra série que eu estou desenvolvendo.


DM - O poeta Ferreira Gullart um dia disse que Carlos Bracher é um artista raro, cuja obra apresenta notável continuidade e coerência. Como foi resistir aos modismos?
CB
- Pois é, é difícil, não é fácil não. Porque são os cantos, os vários cantos. A gente sempre está ouvindo cantares, para todo lado. E os cantos nos seduzem, eles são sedutores, são lindos. Eu acho que a gente tem que ter uma certa serenidade em ouvir os cânticos, os acenos, as vozes, porque elas são todas muito lindas. Mas a gente tem uma coisa que parece ser importante, é que seguir um cântico nesse trilhar os vários cantares, a gente tem que seguir um cântico. A gente tem que seguir mais ou menos a intuição pessoal, porque senão a gente começa a fazer as coisas alheias que não nos pertence. A gente tem que, óbvio, aí que é difícil esse trilhar. O próprio trilhar não é fácil. É evidente que a gente vai se marcar pelo que a gente é. A arte, por exemplo, ela tem a importância pelo fator pessoal, como uma expressão e como uma identidade, como se fosse uma digital. Por exemplo, no caso Van Gogh. Ele seguiu a si próprio, quando ele deixa Paris e vai para o sul da França para fazer a sua pintura, ele foi atrás de si próprio. Isso eu acho muito importante. A gente tem que ir atrás de si próprio, dos seus valores próprios, as suas configurações próprias, do seu próprio estilo. A gente tem que correr atrás da gente mesmo. É mais difícil correr atrás da gente mesmo do que atrás dos outros. É mais fácil a gente pegar um barco andando, mas não é o certo, não me parece ser isso o certo. Parece que a gente tá fazendo uma pintura alheia. E eu não acho isso correto. Isso é muito importante, porque é muito difícil a gente construir a nossa casa, a gente quer a casa pronta às vezes. Mas não é por aí. Ela não tem valor, né.


DM - Em vários momentos da história da arte aconteceu o embate entre linha e cor. Suas telas já foram chamadas de sinfonias pictóricas. Como aconteceu a sua paixão pela cor?
CB
- A cor basicamente é o eixo da pintura. A pintura basicamente é feita de forma e cor. Parece que essa é a definição de pintura. Eu diria que é muito mais do que isso. Os historiadores falam que é isso. Acho que é isso, mas penso que vai além disso. Não concordo com esses historiadores que reduzem a pintura à forma e cor. Acho que é forma e cor e tantas outras coisas. E a cor é um meio que o sentido prospectivo, o sentido mágico da pintura. A pintura praticamente é a cor, a sensação da cor. É igual se pode dizer que a música está atrelada ao som, a sonoridade. E a literatura está ligada a palavra. O verbo da literatura é a palavra. E o verbo da pintura é a cor. Essa condição do pintor traduzir a sua vida, as suas modulações íntimas, manifestar toda a sua pujança no interior através desse fato extraordinário que é a cor. Porque tudo é cor, o mundo é cor, o mundo é inundado de cores, desde que se abre os olhos você começa a ver cor, a se aprofundar nas cores, tudo é colorido, até a noite é colorida. A capacidade de abrir os olhos e ver cor, cor, cor, cor... Toda hora, todo dia, todo segundo, toda a vida inteira, a gente está inundado de cor. Isso é muito lindo. Essa condição nossa de termos a cor como uma companheira, a vida humana é a cor, ela é colorida. A gente trafega numa vida que é toda ela feita de cor. É uma coisa muito forte.


DM - Como senhor enxerga o cenário das artes no Brasil hoje?
CB
- O Brasil é uma maravilha. Que país fantástico! É um país inacreditável, extraordinariamente inacreditável. A força criadora do país. Ô país maravilhoso! Gente criadora, gente criativa, todo tipo de arte, arte popular, arte erudita, arte dos loucos, todas as facetas artísticas que temos é de primeiríssima categoria. Se quisermos uma coisa mais de vanguarda, tem artistas geniais, de força internacional. O Brasil é um país surpreendente. Isso é uma condição do brasileiro. Brasileiro talvez seja o povo mais criativo do mundo, haja vista, por exemplo, na música. Não é só nas artes plásticas, mas a música brasileira é a prova cabal do caráter criativo do Brasil, do artista brasileiro. São várias coisas que influenciam. Primeiro, que eu acho o clima brasileiro, esse clima tropical, é um clima propício. Você pega a Bahia, por exemplo, aquele povo cheio de sol. E outra coisa importante são as etnias. Que é outra coisa muito importante. As etnias aqui no Brasil é uma questão fundamental. Aqui tem o branco, tem o índio, tem o negro, o amarelo, aqui tem de tudo, tem o árabe, o judeu. É uma miscelânea universal. Então é muito difícil de explicar a criatividade do brasileiro. Isso tem que ser analisado, porque é muito real e verdadeiro e é muito complexo se analisar as razões que faz do brasileiro esse povo que se traduz nas artes. É o povo das artes, das artes em geral. Você pega o cinema, o teatro brasileiro, você pega as novelas brasileiras, são as melhores do mundo. Hoje, praticamente, muitas dessas novelas, é cinema. A propaganda brasileira é outra coisa maravilhosa. O brasileiro é surpreendente, essa capacidade de inventar, de criar, é uma das coisas boas que nós temos.


DM - Ouro Preto, no ano em que comemora 300 anos de sua elevação à vila, recebe um belo presente: o livro "Ouro Preto - Olhar Poético". Esse projeto era antigo?
CB
- Esse livro nasceu por um convite da editora Abril para que eu fizesse um guia de Ouro Preto e que fosse escrito e ilustrado por mim. Só que fui escrevendo, escrevendo e deixou de ser um guia. Portanto anulou-se a ideia de um guia. Ai eu fui fazer um livro. Eu acho que um guia é uma coisa mais simples. Então fui aprofundando valores, sentidos, sensações e foi ficando uma coisa mais profunda, mais bela. Então virou livro. Foi em 2006 que eu escrevi. Foi uma coisa muito linda, porque esse livro ficou uma espécie de minha homenagem à cidade, homenagem de encanto, digamos que uma homenagem de gratidão. Como eu fiz uma homenagem ao Van Gogh, em 1990, esse livro com as ilustrações é também a minha homenagem a Ouro Preto, desses 40 anos que eu vivo lá. É um livro que ficou muito bonito, muito bacana, e ali fui tecendo muitas ideias, trocas particulares. Esse livro tem uma coisa curiosa que ele tem a minha própria experiência na cidade, essa coisa particular da vivência. Não é uma coisa teórica, é a vida da gente e são 40 anos de vivência. Esse foi o meu segundo trabalho em forma de livro, o primeiro foi sobre aquela série que eu fiz de Brasília. O livro é basicamente como ele o título dele diz, um olhar poético de Ouro Preto.


Papo de mineiro


DM - Quem é (ou foi) verdadeiramente mineiro.
CB
- Drummond.


DM - Aquela música que tem a alma de Minas.
CB
- Travessia


DM - Adoro um bom prato de...
CB
- Frango ao molho pardo


DM - Para quem vem a Minas o que você diz ser imperdível?
CB -
A Igreja de São Francisco de Assis


DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
CB - Meu amor por Minas


DM - Qual escritor melhor representa Minas?
CB
- Novamente Drummond


DM - A paisagem que te inspira
CB
- Do adro da Igreja do Carmo


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
CB
- Atlético


DM - Quando estou fora morro de saudades...
CB -
De Juiz de Fora


DM - Minas Gerais é...
CB -
Um grande universo.

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