Cultura

Entrevistas

Senac
  • Logo Senac Minas
  • Hotel Grogotó
  •  

Pedro Morais - Agosto 2011

  • Pedro Morais - Rafael Motta

O descubraminas.com traz no mês de agosto o cantor e compositor Pedro Morais. O belo-horizontino nos conta sobre sua infância em Minas Novas e sua trajetória ao longo dos quinze anos de carreira. Confira abaixo a íntegra da entrevista!


"A música é uma coisa de muito prazer, sempre, e a gente tem que pensar na música como trabalho. Quem trabalha com música tem que gostar muito, muito mesmo, porque a tendência é perder o pique em meio às dificuldades."


Por Caroline Melo e Jéssica Andrade


Descubraminas - Você nasceu em Belo Horizonte, mas se mudou ainda criança para Minas Novas. Como foi sua infância em uma cidade do interior?
Pedro Morais -
Foi boa. Foi muito boa. Na verdade acho que se eu não tivesse vivido no interior, as coisas não seriam como são hoje, em relação à minha compreensão de mundo e entender que as coisas tem um tempo para acontecer. No interior tudo é bem lento, então pude vivenciar algumas coisas de maneira bem intensa, como a cultura local, ainda mais por ser o Vale do Jequitinhonha, uma região que tem muitas manifestações culturais, e isso foi um baque muito forte para mim, eu cresci com essa referência.


Quando vim para BH tudo mudou, mas foi maravilhoso morar em Minas Novas. Foi mais importante porque tinha na casa dos meus pais uma influência musical muito bem definida, de tudo o que eles ouviam e grupos de amigos que eles encontravam para tocar, para fazer seresta. Tinha uma certa ingenuidade nas atitudes, de viver aquela vida no interior de uma maneira bem simples. 


Tive contato com pessoas modestas, gente da zona rural. Meu pai é engenheiro agrônomo, e sempre chegava alguém lá em casa querendo semente para plantar na roça. É muito legal viajar para o interior, para municípios próximos, e eu ia com ele, porque ele ia a trabalho. Pude conviver com o povo local e isso foi muito importante até mesmo para a minha formação humana.


DM - Como foi seu primeiro contato com o mundo musical?
PM -
Desde muito cedo. Desde o período que eu morava em Minas Novas, fui ouvindo meu pai tocar, porque ele é músico amador há muitos anos, tocava e compunha músicas, participava de festivais e tive a oportunidade de conviver com isso também, que foi uma influência muito grande.


Tive a possibilidade de aprender a tocar instrumento muito novo, tinha 7 anos quando comecei a tocar o cavaquinho, aliás, comecei a tocar violão, mas eu era tão pequeno, que com a minha mão não dava para fazer os acordes, então comecei a tocar esse instrumento que é menor. Depois passei para o bandolim, porque os dedos já cabiam nas casas, aí passei a tocar choro. Quando tinha 11 anos, cheguei a tocar com caras de 70 anos.


Tocava choro e tocava muito. Vivia acompanhando inauguração de policlínicas e em tudo que a prefeitura promovia ia o grupo de choro e eu, menino, e foi muito legal.


Isso me deu uma sensibilidade a mais com relação à música brasileira, de conviver com a música feita no Vale, música regional, de meu pai compor música em casa e minha mãe cantar, tinha todo um clima.


Ouvia muito Caetano Veloso, Elis Regina e Chico Buarque. Isso era o que mais tocava lá em casa e a música brasileira passou a ser a coisa mais importante. Desde sempre foi uma influência bem definida.


DM - Quais são as dificuldades que você vem enfrentando na sua carreira?
PM -
A dificuldade maior é comercializar, vender show particular, parcerias com artistas é difícil se fazer valer numa cidade grande como BH, se fazer conhecido, eu acho muito difícil é um processo muito lento. Já toco profissionalmente há 15 anos e nada acontece da noite para o dia, nada cai do céu. Já toquei em shopping, em bares por muitos anos, em festa particular, já fiz de tudo com relação à música, até hoje gravo jingle para a TV, rádio. Então, é um trabalho como qualquer outro, mas o reconhecimento profissional é uma coisa um pouco mais ampla que depende de outros fatores que eu não tenho como construir, por exemplo, sorte.


Tem que coincidir a qualidade do trabalho em si, tanto musical quanto visual, encarte, quanto estrutura técnica e produção para fazer isso caminhar. Acho que tem uma dificuldade maior que é esse momento que a gente vive, que é a quebra de paradigmas das gravadoras, o fato delas não serem o porto firme de nenhum artista, a gente mesmo tem que se virar e providenciar uma maneira de vender show e fazer discos.


Em contrapartida, tem as leis de incentivo, que são um atalho para conseguir produzir, não só shows e discos, mas alavancar a carreira, conseguir firmar um público. A Internet também está a favor, mas existem diversas dificuldades.


DM - Dentre as músicas que você já compôs, qual é a mais especial?
PM -
Não existe a mais especial. São todas muito especiais e cada uma delas tem necessidade para existir. Na hora que compomos, até pensando em músicas mais recentes como uma que eu fiz há algumas semanas atrás, tudo depende do momento, a gente começa a pensar em coisas de vivência, coisas de amor, existir, explicação do porque a gente está aqui, qual é a minha função, para quê que você precisa de mim, essas coisas. A gente começa a refletir sobre essas questões voltadas para a existência e, certamente, vem ideias de letras e melodias que dão para criar música.


Eu tenho uma música que eu gosto muito, que eu tenho um carinho especial, não sei se é porque eu fiquei satisfeito em ter feito essa música, "A Fúria do Infinito", do meu novo disco Sob o Sol. Ela tem um significado muito forte para mim e é uma música que toca em outras questões, que é mais abrangente, vai além do amor, da vivência. Fala da questão do espaço, de existir, de acreditar que há vida além do homem, da Terra, então é uma música um pouco menos palpável, que viaja um pouco mais.


DM - A música "Pedro Vai", uma das favoritas dos fãs, tem alguma relação com a sua história de vida?
PM -
Não. A música "Pedro Vai" descreve a história de um personagem que sai do interior para tentar a vida na cidade, muito parecido comigo, mas não sou eu, é só uma história. Antes de eu me mudar para BH, alguns amigos se mudaram, foram para Diamantina, outros foram morar em São Paulo e aí pude ver isso de perto, como é viver o êxodo rural.


Depois, fui eu mesmo quem saiu de lá (Minas Novas), então, quando eu comecei a compor com o Magno, estava com 18 anos, eu já tinha uma melhor compreensão do mundo e de como é essa dinâmica de viver no interior e também na cidade grande, e foi fácil escrever uma música sobre uma pessoa que sai do interior.


"Pedro Vai" é uma música que sempre está no meu repertório, o que é impressionante, porque o público gosta muito. Não sei se é a coincidência do personagem ter o mesmo nome que o meu.


DM - Recentemente você fez um show com o cantor Lô Borges e já tocou com outros renomados artistas como Vander Lee, Marina Machado e Jorge Vercilo. Como surgem essas parcerias e qual a importância delas?
PM -
Isso é o resultado do tempo de trabalho, de lançar os discos e conseguir com que esses sejam divulgados na imprensa, conseguir notas de críticos especializados, isso tudo fortalece a ideia de que o trabalho existe e ele tem o seu lugar, inclusive na questão do reconhecimento do passo a passo.


Aí surgem essas articulações de fazer coisas com outros artistas, ou por convite que parte deles, ou através da articulação do meu produtor que é um cara que já está há muito tempo no meio musical, que tem bons contatos. Ele apresenta o meu trabalho para alguns artistas e essas parcerias aconteceram a partir daí. Mas isso tudo é com o tempo.


Já conhecia o Lô Borges, já tinha encontrado com ele participando de eventos, e antes de participar do show dele, já tinha participado de shows em que ele estava, com o Clube da Esquina, então a gente se vê nos lugares, em ambientes sociais que tem músicos ou artistas e a gente se fala. Chega lá na frente e já não é uma pessoa qualquer, já não é um estranho.


Quando tem um show, por exemplo, na proposta do Natura Musical, um artista como o Lô que é um cara mais velho fazendo o show do disco dele, convida um artista da nova geração. Isso é muito comum hoje, ainda mais em projetos como o Natura Musical.


DM - Tem algum artista, cantor ou banda que você tem vontade de tocar, mas ainda não conseguiu?
PM -
Queria muito compor uma música com o Rodrigo Amarante, sou muito fã de Los Hermanos, porque desde sempre admirei a maneira dele cantar, a maneira dele compor especialmente.


Mesmo tendo saído do Los Hermanos, com o Little Joy, que foi a última banda que ele participou, mostra uma personalidade musical muito forte, muito bem definida e todo o trabalho que faz, inclusive na Orquestra Imperial, ele imprime essa marca, então sou fã e admiro muito a maneira dele criar as músicas, dele compor e construir.


Tem o Caetano também, que é indizível. Dei uma entrevista no mês de julho para um blog carioca que eu postei no Facebook, Banda Desenhada, que fala desta questão do Caetano ser um cara aglutinador e um dos poucos caras da música brasileira, desses grandes nomes da MPB, que olha para o que é novo com carinho, dando o aval, e isso é muito interessante porque de certa forma ele ajuda a criar uma nova cena em torno dele também.


Tem a própria Nina Becker e o pessoal da banda do Caetano, e agora um DVD que ele fez com a Maria Gadú. Isso tudo alimenta a ideia de que existem novos artistas que precisam ocupar os espaços que vão ser deixados por esses.


DM - Como você consegue conciliar o seu trabalho solo com o projeto paralelo da banda Cobra Coral, que conta com a participação de Flávio Henrique, Kadu Vianna e Mariana Nunes?
PM -
 É bem tranquilo. É de acordo com a demanda. Se o Cobra Coral tem um multishow e vai pintando os shows meus eu vou fazendo, e, obviamente, o meu objetivo é a minha carreira solo. Por exemplo, os shows que fiz no Espírito Santo no fim de julho já estavam marcados e eu deixei de fazer dois shows com o Cobra Coral nos festivais de inverno aqui em Minas, mas, como meu objetivo é a carreira solo, eles entendem também.


Eles também estão com a carreira solo andando, eles acabaram de lançar discos, a Mariana está para lançar o disco dela, o Flávio tem oito discos nas costas e eles, inclusive, fizeram shows solo na França, foram para a Espanha e ficaram na Europa até a última semana de julho, praticamente um mês, tocando quase todos os dias e cada dia em um lugar.


O Cobra Coral é muito legal porque a gente vai exclusivamente pelo prazer de tocar, é um acústico, somos só nós e não tem banda, logo, é mais barato e mais fácil de vender os shows e além disso, a gente estabeleceu que faremos enquanto der vontade de fazer. 


Temos as carreiras solo e ele é um projeto paralelo, que é importante, levamos a sério, mas não é a prioridade número um, ele caminha por si só. O fato de nós já termos um público nas carreiras solos fez com que o Cobra Coral expandisse de repente, em dois meses estavamos tocando todo o dia na cidade, todos os shows lotados e, para gente é um fenômeno.


O projeto paralelo em alguns aspectos, faz até mais sucesso do que as carreiras solos porque são quatro falando por um só, tem um peso maior e um apelo maior, é diferente. O Cobra Coral está caminhando muito bem e a carreira solo também.


DM - O que você acha que falta no espaço musical em Minas?
PM -
 Nadamos na contramão tantos anos, e pelo fato do eixo Rio - São Paulo absorver a maior parte da produção tocada no Brasil, os artistas mineiros pressionaram a política pública de uma maneira tão incisiva que conseguiram fazer as leis de incentivo funcionar aqui no Estado.


Em São Paulo, apesar de existir e de funcionar para alguns artistas, não é para a maioria. De certa forma, a lei de incentivo no Estado hoje, contempla a maioria porque quando você pega um edital de circulação, um edital da Secretaria de Cultura e vê a lista de aprovados é uma penca de gente variada, são bandas novas, discos, artistas em carreira solo, projetos de turnê, CD, DVD, gente grande e gente pequena, música variada, música instrumental. 


A lei de incentivo mineira contempla uma diversidade tão grande que ela hoje é o maior braço de incentivo, além dos artistas que se mexem, que vão atrás, que produzem seus discos em casa, em estúdios de amigos. Tem esse recurso da lei e também da tecnologia que facilitou muito a vida.


Outra questão que acho que ajuda muito a funcionar e a fazer a cena ser fomentada, é a existência de produtores que tenham vontade de fazer um movimento coletivo. Tem aí o Conexão Vivo, que é um projeto que inclusive faço parte há alguns anos e sou patrocinado por ele. É um projeto que pode ilustrar bastante essa diversidade musical, cultural local e que está expandindo para o resto do Brasil está trazendo artistas de fora para cá, e a gente está indo para lá.


No final de julho eu fiz show no Espírito Santo, pelo Conexão Vivo, junto com a Nina Becker. Na primeira semana de agosto em Salvador, com artistas de lá, então está rolando uma velocidade, uma movimentação muito grande no sentido de ampliar o diálogo, de comercializar o trabalho de uma maneira mais ampla, de estabelecer parcerias com outros estados e com outros países.


Existe uma parceria recente com o pessoal da Galícia, Espanha. Eles vão levar artistas mineiros para lá, e fatalmente virão artistas da Galícia tocar em Belo Horizonte também. Há essa ideia de troca de favores, de "escambo do bem", aquele onde a moeda é a mesma e isso está ajudando muito a sedimentar com a cultura local.


Falando do ponto negativo, a gente está tendo uma situação triste, o Lapa Multshow está deixando de existir. Apesar de ele ser patrimônio histórico e cultural, a gente está com uma dificuldade muito grande, eu falo a gente, artistas locais, de lutar para que isso não ocorra. O Lenine fez até um depoimento, o Vander Lee, muitos já gravaram depoimentos para colocar na Internet, para postar em campanha contra o fechamento do Lapa Multshow.


Eu acho que o fechamento do Lapa é um termômetro de como as coisas não vão bem no sentido de liberação de alvarás e construção de novas casas de shows. A prefeitura não contribui, não ajuda muito a de construir espaços que privilegiam a cultura e quando esses espaços existem, são espaços não-públicos. Tem uma série de ressalva, de pré-requisito para montar uma casa de show e isso dificulta um pouco.


Tem muito artista na cidade e tem alguns bares e casas de shows com estrutura, mas são estruturas mínimas. Então temos que alugar equipamento de luz, de som, complementar e isso encarece muito a produção local, isso dificulta. É uma coisa que apesar da gente estar caminhando positivamente e alcançando um estágio melhor, ainda falta muito para melhorar, mesmo.


DM - Quais os seus planos para a sequência da sua carreira?
PM -
Estamos em processo de lançamento do Sob o Sol e já estou com planos para fazer um novo disco, mas acho que tem um tempo de maturação que não é dado por mim, muito mais pelo público, pelas rádios que tocam os discos, então eu quero esperar mais um tempo, não só para circular, mas para fazer mais shows com o repertório desse novo CD.


Estou começando agora a fazer shows fora do Estado, recebi alguns convites e tem algumas coisas sendo fechadas e o momento é de lançar o disco. Quando há um lançamento, passamos dois ou três anos viajando com o mesmo repertório, tocando algumas coisas de sucessos antigos, de discos anteriores, mas privilegiando o repertório dos discos atuais. No meu caso, como eu tenho só dois, Pedro Morais, e agora Sob o Sol, lançado em abril do ano passado, em BH, no Grande Teatro do Palácio das Artes, o repertório é a maior parte do novo disco e a outra desse primeiro, com músicas que as pessoas gostam mais, como "Pedro Vai", "De cada Lado", e também "E o que for já é" que as pessoas pedem muito, tem um carinho muito grande.


É isso, o plano agora é fazer shows na Colômbia, cidade de Medellín, Argentina e também tenho uma proposta de parceria para fazer show na França ainda esse ano. Em todos esses países será a primeira vez em que eu vou tocar.


DM - Que conselhos você daria para as pessoas que estão iniciando carreira na música?
PM -
A música é uma coisa de muito prazer, sempre, e a gente tem que pensar na música como trabalho. Quem trabalha com música tem que gostar muito, muito mesmo, porque a tendência é perder o pique em meio às dificuldades, ainda mais porque hoje, cerca de 90% dos artistas brasileiros são artistas independentes, a não ser aqueles artistas de mainstream, artistas de apelo popular muito forte como as duplas sertanejas e os grupos de axé.


Estou falando isso baseado em artistas com o perfil como o meu, que fazem uma música própria, que tem um público mais restrito. Eu não entendo que minha música seja música de mainstream apesar de desejar estar no mainstream, de tocar no Faustão, na novela, eu consigo compreender que o meu processo é outro, o meu processo é menor, de uma exposição menor, mas é um processo tão importante quanto o de qualquer outra carreira grande, qualquer carreira internacional é um processo que a gente vai construindo no decorrer desta.


Se tenho um conselho que se pode dar é que se você gosta mesmo do que você faz, insiste, porque mais cedo ou mais tarde vai ter alguém que vai te ouvir, que vai gostar do que você faz, que vai se identificar com aquilo que você cria. Acho que para todo mundo tem um lugar na criação, e, pensando em criação, por mais bizarra que seja a música que eu faça, ela vai existir e sempre alguém vai gostar. A mesma coisa é você, se quiser montar uma banda hoje e sair para tocar, cantar, vai dar certo, depende da sua disposição de enfrentar, de encarar os problemas.


Papo de Mineiro


DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
PM -
Juscelino Kubitschek.


DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
PM -
Cais - Milton Nascimento.


DM - Adoro um bom prato de...
PM -
Tropeiro.


DM - Para quem visita Minas, o que você diz ser imperdível?
PM -
Visitar o Inhotim.


DM - Em uma viagem, o que você sempre leva na bagagem para presentear?
PM -
Queijo (em viagens curtas).


DM - Qual melhor cantor que representa Minas?
PM -
Milton Nascimento.


DM - A paisagem que te inspira...
PM -
Montanhas.


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
PM -
Cruzeiro.


DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
PM -
Cidade grande, sou bem urbano.


DM - Quando estou fora morro de saudades...
PM -
Pão de queijo.


DM - Minas Gerais é...
PM -
Casa.

Enviar link

Outras entrevistas