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Maria do Carmo Viegas - Dezembro 2011

  • Belo Horizonte - Maria do Carmo Viegas - Arquivo Pessoal

Maria do Carmo Viegas, professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e doutora em estudos linguísticos, conversa com o descubraminas.com sobre o livro "Minas é plural", projeto de pesquisa sobre os vários falares mineiros.


"Minas é um dos Estados que tem o maior número de variações linguísticas no Brasil"


Por Roberta Almeida


Descubraminas - Por que o Estado de Minas Gerais foi escolhido como palco para o desenvolvimento desta pesquisa linguística?

Maria do Carmo Viegas - Primeiramente porque estamos sediados aqui em Minas, ou seja, são os mineiros que nos interessam particularmente. Segundo porque Minas é um dos Estados que tem o maior número de variações linguísticas no Brasil. Então, de acordo com um levantamento feito por Antenor Nascentes, em 1953, sobre as variações em vários Estados do País, Minas foi um dos Estados em que houve o maior número de variações.


DM - Essas variações são resultado da formação sócio-cultural, financeira e histórica de Minas?
MV - Com certeza. As variações estão ainda mais relacionadas com a variação sócio-cultural do Estado.


DM - Quanto tempo durou o processo de análise feito pelo Grupo de Pesquisa da Faculdade de Letras da UFMG, VARFON-Minas, Variação Fonético-Fonológica, Morfológica e Lexical, coordenado pela senhora, e quais regiões e municípios do Estado foram examinados?
MV - O nosso projeto já tem 10 anos. Terminando essa primeira etapa, nós vamos para a segunda. Nessa primeira fase, que durou 10 anos, nós pesquisamos os municípios de Belo Horizonte, Lagoa Santa, Itaúna, Machacalis, Ouro Branco, Piranga e Varginha.


DM -  Qual o critério utilizado para a escolha dessas cidades que participaram da pesquisa? Elas possuem alguma característica especial?
MV - O critério foi que nós nos baseamos nesse levantamento feito anteriormente por Antenor Nascentes, em que havia quatro falares em Minas. O falar do Norte, chamado falar baiano, do Sul, chamado falar sulista, Central, chamado mineiro, e Zona da Mata, que seria o falar fluminense. Então, nós escolhemos cidades que pertencessem aos vários falares, que representassem esses falares. No Sul e Centro-Oeste, nós temos Itaúna; na região Central, nós temos Belo Horizonte, Ouro Branco e Lagoa Santa; no Norte, nós temos Machacalis, e, na região da Zona da Mata, nós temos Piranga. Então, nós temos algumas cidades que representam esses vários falares, já que nessas cidades existem especificidades.

Usamos Lagoa Santa, por exemplo, por estar próxima a Belo Horizonte, uma região onde não há o "r" retroflexo, também chamado de "r" caipira, como porta, nascidos em Belo Horizonte não falam porta, porteira, cordeiro, não puxam o "r". Mas na região de Lagoa Santa tem um bairro em que há esse "r" retroflexo, o Bairro das Várzeas, por isso nos interessou estudar essa variação em Lagoa Santa. Algumas pessoas nesse bairro, normalmente pessoas mais velhas, pronunciam esse "r" caipira e isso provavelmente é um conservadorismo.


DM - Na publicação "Minas é plural", a senhora afirma que com o estudo dos vários falares mineiros, talvez um dia se possa falar em português do Brasil. Qual a contribuição Minas Gerais poderá oferecer em termos estatísticos?
MV - É interessante porque quando estudamos muitas variações a gente pode chegar ao que é realmente uniforme, para então falar do português do Brasil. Por exemplo, o pessoal de São Paulo não pode falar do português do Brasil porque poucas variações estariam sendo estudadas. Sendo assim, São Paulo não pode projetar qualquer resultado que se tenha para o português do Brasil. Quando a gente estuda muitas variações, pode projetar para o português do Brasil e falar num País como um todo, como é o caso de Minas Gerais.


DM - Por que o estudo das vogais é considerado importante nas divisões dos falares mineiros?
MV - Porque é onde há bastante variação. Temos abertura em neblina (né-blina) em um dos falares do Norte, por exemplo. De modo geral, no falar baiano, nós temos em Machacalis a pronúncia neblina (né-blina), no Sul já não se fala assim e na região Central algumas palavras a gente fala outras não, já na região Leste mais ainda, umas se falam e outras não.


DM - Se o mineiro fala de várias formas, quais são as características do Falar Mineiro, na Região Central, o Falar Baiano, nas regiões Norte, Noroeste e vales do Jequitinhonha e Mucuri, o Falar Sulista, nas regiões Sul, Sudoeste e Triângulo, e o Falar Fluminense, da Zona da Mata?
MV - No Sul, temos bem característico a presença do "r" retroflexo, o "r" caipira, tipo porta, porteira, carne, carneiro. No Norte, temos a abertura das vogais de maneira bem espalhada, bem generalizada, então temos neblina (né-blina), merenda (mé-renda), coração (có-ração), covarde (có-varde) e coluna (có-luna). Já na região Central, nós temos abertura, por exemplo, em elétrico (élétrico), mas não em merenda (mé-renda). Nem temos o "r" retroflexo tão disseminado assim, encontramos somente no Bairro das Várzeas, em Lagoa Santa, e talvez haja também em outras regiões. E na região da Zona da Mata, temos o característico chiado, como três (treich), principalmente em uma região bem localizada em Juiz de Fora.


DM - No geral, como pode ser definido este Falar Mineiro?
MV - Variação. O Estado de Minas, de modo geral, é variado. Normalmente quando a gente fala no falar mineiro é essa região Central, mas o falar de Minas é bem variado. O falar mineiro da região Central se caracteriza pela ausência do "r" retroflexo ou caipira e pela ausência disseminada em um grau muito alto de abertura da vogal.


DM - Como citado pela senhora, Minas Gerais é, no País, um dos Estados com as maiores variações na fala. Por que Minas é plural em diversidade linguística?
MV - Exatamente pela história, pela formação sócio-histórica do Estado. Minas não teve sempre esse contorno, Minas foi adquirindo esse contorno, foi se apossando do falar de outros Estados, alargando suas fronteiras. Minas alargou, por isso tem essa diversidade.



DM -
 Esta variação no falar ocorre naturalmente ou acontece devido a fatores externos, como, por exemplo, a televisão e a internet?
MV - Acontece naturalmente. Ela faz parte da história da formação de um povo. No falar, de modo geral, a internet não tem nenhuma influência. O que se usa em termos de internet e de som é muito pouco.


DM - Existe algum projeto em construção na mesma linha das pesquisas que compõem o "Minas é plural"?
MV - Sim. O nosso próximo volume "Minas é singular" está sendo confeccionado e deve sair no final do ano que vem. Agora nós vamos aprofundar um pouco mais sobre essas questões. Nós fizemos primeiro um levantamento da descrição de como seria a realização em várias regiões, agora vamos tentar aprofundar um pouco mais nisso.


DM - Como o internauta pode adquirir o livro "Minas é plural"?
MV - Na seção de publicações da Faculdade de Letras da UFMG ou pelo telefone: 31 3409-6007.


Papo de Mineiro

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Eu sou mineiro - Tianastácia


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Arroz, feijão, verdura, angu e carne.


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Estagiária:
Jéssica Andrade

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