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Celia & Celma - Janeiro 2012

  • Ubá - Cantoras Celia & Celma - Cláudio Wakahara
  • Irmãs cantoras participam do Festival de Viola de Piacatuba - Arquivo Pessoal
  • Em "Lembrai-vos", as cantoras relembram as tradições mineiras - Arquivo Pessoal
  • Célia e Celma conversam com Descubraminas - Arquivo Pessoal

Em conversa descontraída com o descubraminas.com, as cantoras Celia & Celma falam sobre a infância em Minas Gerais, os costumes e valores que contribuíram, e contribuem até hoje, para a execução dos trabalhos desenvolvidos no decorrer da carreira das gêmeas mineiras.


"Quantas vezes, na infância, pulávamos da cama cedinho para acompanhar os congados e as charolas..."


Por Roberta Almeida


Descubraminas - Vocês são naturais de Ubá, cidade da Zona da Mata mineira. Como foi a infância no interior de Minas?
Celia & Celma - Crescemos numa cidade então pequena, calma, onde todos se conheciam e se respeitavam. Nós, como toda criança deveria fazer hoje, brincávamos livremente nos quintais e nas praças. Participávamos, ainda, de festas populares, como as juninas, e das festas religiosas, com seus leilões, quermesses e procissões. Foi uma infância boa, alegre e bem vivida.


DM - Com que idade e em quais locais vocês começaram a se apresentar como cantoras? De onde surgiu esta influência musical?
C&C -
 Começamos cedo, por volta de cinco anos de idade, cantando no programa de auditório "A Hora do Guri", da emissora de rádio local, nos circos que eram montados na cidade, nas festas do colégio. Em casa, o rádio ficava sempre ligado nos programas musicais. Nossas irmãs mais velhas nos ensinaram a cantar em vozes duetadas e nosso pai, Celidonio Mazzei, que além de fotógrafo era músico e tocava bombardino na banda, nos fazia cantar em italiano, amenizando a saudade que sentia de ouvir a língua pátria.


DM Durante a carreira, vocês sempre interpretaram canções de artistas conceituados, principalmente em obras que expõem as origens mineiras, caso das composições do mestre Ary Barroso. O que significa continuar o legado deste artista?
C&C - Ary é presente em nossa vida desde sempre. Nosso pai, seu amigo e vizinho, nos ensinou, ainda meninas, a cultivar o respeito pelo nosso grande conterrâneo, ensinando-nos algumas de suas canções e falando sobre suas conquistas no cenário artístico mundial. Esses ídolos do passado correm o risco de caírem de vez no esquecimento. Homenagear Ary em nosso cd "Ary Mineiro" foi a maneira de deixá-lo vivo na memória de ubaenses e mineiros, principalmente porque revelamos um repertório até então pouco conhecido, incluindo a Aquarela Mineira... É uma honra e um prazer cantar suas inspiradas composições.


DM - Vocês já trabalharam com nomes como Moacyr Franco, Ronald Golias, o pianista Luiz Carlos Vinhas, os diretores de shows Miéle e Bôscoli, a cantora Clara Nunes e até já dividiram o palco com Cauby Peixoto. Conte-nos mais sobre essas experiências.
C&C - Esses nomes muito contribuíram para o nosso crescimento como artistas, já que cada um foi único na forma de expressar sua arte. Moacyr Franco foi um dos primeiros a nos dar uma oportunidade. Ele tinha um dos programas de maior audiência na televisão, nos anos 1960, quando nos apresentamos a ele, bem jovens e inexperientes. Ficamos contratadas por um ano como cantoras, em números coreografados e humorísticos. A dobradinha Miéle e Bôscoli nos dirigiu em uma temporada de shows, com o grupo de Luiz Carlos Vinhas e o bailarino Lennie Dale, Cauby, o "professor", como diz o codinome, nos ensinou muito. Existem vários outros com quem aprendemos. Enfim, não somos celebridades, mas nos sentimos gratificadas com essas conquistas na profissão.


DM - Quando surgiu a oportunidade de trabalhar no Japão e como vocês conseguiram difundir a música popular brasileira do outro lado do mundo?
C&C -
 A nossa música já era apreciada no país, quando lá estivemos, no final dos anos 1970 - e ainda é. O povo japonês gosta muito dos nossos ritmos, principalmente do samba e especificamente da bossa nova. Sem dúvida, a experiência de viver em um país de cultura tão diferente da nossa foi um divisor de águas em nossas vidas e em nossa carreira. Também fomos muito corajosas ao introduzir o carnaval brasileiro nas ruas de Tóquio, com orquestra de músicos japoneses e passistas brasileiros; ninguém entendia o que estava acontecendo, foi divertido, um acontecimento marcante.


DM - Em 1988, vocês foram convidadas para apresentar um programa no Canal Rural. Qual o maior desafio em comandar na televisão um programa sobre a cultura de raiz?
C&C - O programa esteve no ar por quase 10 anos e só deu certo porque tivemos total liberdade de escolher nossos convidados, sem fazer concessões a produtos comerciais de má qualidade. Revelamos artistas até então desconhecidos, mostrando um Brasil verdadeiramente brasileiro. Ainda hoje nos surpreende o grande número de telespectadores que nos assistiam, lastimando o fim do programa.


DM - Já na década de 90, vocês participaram da novela "Ana Raio e Zé Trovão", na extinta TV Manchete. Vocês podem descrever melhor a experiência como atrizes?
C&C - A novela foi toda gravada sem cenas de estúdio, apenas em externas, viajando pelo Brasil durante um ano, e a equipe era muito unida e divertida. Por isso, principalmente, foi gratificante a experiência como atrizes, representando as personagens "Luminosa e Luminada". Ainda tivemos a grande oportunidade de sermos dirigidas por profissionais de primeiro time, como Jayme Monjardim e Marcos Schechtman.


DM - Descobrimos que vocês possuem muita habilidade com a costura e também uma relação muito próxima com o artesanato popular. Onde aprenderam a desenvolver estas artes?
C&C -
 A costura, com nossa mãe, que era "modista", como se dizia. Vivíamos xeretando o quarto de costura dela desde crianças. O artesanato, do barro colhido na beira do rio, com o qual fazíamos casinhas e panelas, e ainda as bonecas de pano - as bruxinhas. Como a família era numerosa e não tinha muitos recursos, foi esse o meio que usamos para suprir a falta de brinquedos.


DM - Além da costura, vocês ainda possuem dotes culinários, o que pode ser comprovado nos livros "A Cozinha Caipira de Celia & Celma" e "Do Jeitinho de Minas", este último editado pela Editora Senac SP. Como vocês se dividem entre tantos trabalhos e qual a sensação ao resgatar os variados segmentos da cultura mineira?
C&C - O mérito dos dotes culinários, como vocês citam, não é nosso, mas das "comadres" mineiras que, durante nossas andanças, buscando material para "rechear" o livro, nos cederam seus preciosos cadernos de receitas. Já a cultura mineira, em sua diversidade e riqueza, nos oferece material farto para agregarmos ao nosso trabalho, que é sempre um ato de amor à terra.


DM - "Do Jeitinho de Minas" recebeu na China o prêmio Gourmand World Cookbook Awards, em 2006. Falem um pouco sobre esta premiação.
C&C - Essa premiação é considerada o Oscar para livros de gastronomia. Estivemos em Pequim para o evento e voltamos com um troféu valioso, mas, conhecer a cultura milenar da China foi o maior prêmio.


DM - De onde surgiu a ideia de produzir receitas cantadas e qual é a recepção desse trabalho?
C&CQuando lançamos o primeiro livro, "A Cozinha Caipira", em 1994, fomos convidadas para um grande número de programas de televisão. Em todos, invariavelmente, nos pediam para cantar alguma música de nosso repertório. Assim, um dia, surgiu a ideia: por que não cantar algo que tenha a ver com a culinária? Foi um passo para começarmos a compor as músicas, já naquela época. No entanto, só viriam a ser gravadas para o CD, que vem como brinde no livro "Do Jeitinho de Minas", lançado pela Editora Senac SP, em 2006.


DM - De que forma essa ligação com as manifestações folclóricas e religiosas em Minas Gerais contribuíram com a construção do último trabalho "Lembrai-vos"?
C&C - Contribuíram totalmente. Como a grande maioria das crianças do nosso tempo em Minas, crescemos participando ativamente das solenidades litúrgicas. Nos meses de maio, coroando Nossa Senhora, e, durante o ano cantando no coro, acompanhando as procissões. E o folclore religioso também nos fascinava; quantas vezes, na infância, pulávamos da cama cedinho pra acompanhar os congados e as charolas. Todas as músicas desse CD fizeram parte dessa nossa vivência, estavam guardadas na nossa memória afetiva. Nosso desejo é que possamos mostrar esse trabalho para nossa gente, apresentando concertos em algumas cidades mineiras, agora em 2012.


Papo de Mineiro


DM - Quem é ou foi verdadeiramente mineiro?
Celia - Quem é mineiro, nunca deixa de ser. Mesmo se quisesse, a essência permaneceria. Podemos citar alguns que deixaram a marca mineira em sua vida e em sua obra, como Aleijadinho, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Alceu Amoroso Lima, Juscelino Kubitschek, professor Saul Martins - e o Clube da Esquina e o Grupo Corpo.
Celma - O verdadeiro mineiro se distingue por sua maior qualidade: a simplicidade.


DM - Aquela música que tem a alma de Minas?
Celia -
 Uma que não foi feita por mineiros - Desenredo (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro).
Celma - Uma seresta.


DM - Adoro um bom prato de...
Celia -
 Arroz, feijão vermelho, costelinha de porco, couve e angu.
Celma - Frango com quiabo e angu.


DM - Para quem visita Minas, o que vocês dizem ser imperdível?
Celia -
 Tiradentes - com uma esticada até Bichinho, a Semana Santa de São João del-Rei e de Ouro Preto, a feira da Afonso Pena, em BH.
Celma - Saborear o nosso "quejim" Canastra...


DM - Em uma viagem, o que vocês sempre levam na bagagem para presentear?
Celia & Celma -
 Artesanato mineiro, sem dúvida.


DM - Qual o melhor cantor representa Minas?
Celia & Celma -
 Um que não nasceu em Minas, mas é tão mineiro quanto nós, Milton Nascimento.


DM - A paisagem que inspira...
Celia
- a Serra de São José.
Celma - um lugar onde tenha uma bela cachoeira.


DM - Atlético, Cruzeiro ou América?
Celia -
Atlético em Minas, América, no Rio, Palmeiras, em São Paulo.
Celma - Somos gêmeas nessas escolhas...


DM - Fim de semana na cidade grande ou na roça?
Celia & Celma
- se for para descansar, na roça. Nada mais relaxante do que curtir um entardecer com um coro de passarinhos. Já para ficar em dia com a vida cultural, a cidade é São Paulo, onde moramos.

DM - Quando estamos fora morremos de saudades...
Celia -
 da boa comidinha caseira.
Celma - de um papo sem pressa, num boteco simpático.


DM - Minas Gerais é...
Celia -
 única!
Celma - o lugar onde me sinto melhor.


Conheça mais sobre Celia & Celma: www.celiaecelma.com.br


*Estagiária de produção: Caroline Melo

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